De fato, o corpo por baixo das roupas devia ser praticamente perfeito – com a exceção de outra cicatriz, uma marca larga, serrilhada, que cortava o volumoso bíceps direito. Como ele ganhou aquilo? E será que havia mais em outras partes do corpo? A perna esquerda, que tinha sido quebrada, exibia um grande hematoma preto, o único sinal de que ele ainda estava machucado. Fora essas pequenas imperfeições, não havia nada para criticar. Até as cicatrizes eram sexy. Além disso, Arthur era uma cabeça mais alto do que a maioria dos outros jogadores, os músculos das pernas eram mais definidos e os ombros, mais largos, mais masculinos, sem serem bombados... Lancei um olhar culpado para Jake, sentindo que o havia traído. Mel acompanhou meu olhar.
– Ei, olha lá seu namorado se embolando.
– Não sei se ele é meu namorado...
– Qual é, Rô? Vocês estão juntos. Saíram duas vezes na semana passada, almoçam juntos quase todo dia e você está aqui, não está?
Vi Jake girando no tatame, grunhindo.
– Consegue guardar um segredo, Mel?
– Poxa, somos amigas desde o jardim de infância. Alguma vez entreguei os seus segredos? – Não.
Nunca. Mel era um monte de coisas: desligada, impulsiva, obcecada por sexo. Mas nunca foi desleal.
– E aí? Desembucha!
– Não sei bem se Jake e eu combinamos tanto assim.
Os olhos de Mel, cercados por uma grossa camada de delineador, se arregalaram.
– O quê? Achei que gostasse dele de verdade!
– Ele é... legal – respondi, encolhendo-me um pouco ao usar o adjetivo desprezado por Arthur. – Mas não sei se existe algo intenso mesmo. Não como eu gostaria.
– Hummm. Bem, Jake não é nenhum Thur – concordou Mel, com o olhar voltando à quadra de basquete. – Eu disse isso desde o início.
– É, eles são muito diferentes.
Se ela soubesse como eram diferentes, talvez não ficasse tão a fim de seu Thur. Mel tinha quase desmaiado quando dissecamos minhocas no sexto ano. Não era o tipo de garota que beberia sangue.
– Não que eu fosse trocar Jake por Arthur – acrescentei. – Só estou dizendo que não tenho certeza sobre Jake e eu.
– E eu estou dizendo que você deveria finalmente se ligar e escolher o Arthur, antes que ele se canse de dar em cima de você. Admita, Rô. Arthur tem carisma – acrescentou ela, assentindo na direção das líderes de torcida.
– Veja como Faith está olhando para ele.
Thur chama atenção. Quando olhei para o outro lado do ginásio, Faith Crosse subia rumo ao topo de uma pirâmide de líderes de torcida – andando por cima das pessoas, como sempre –, mas seu rosto estava virado para a quadra de basquete, onde Arthur conversava com o treinador. O modo como Arthur ficava parado, as mãos nos quadris, mais alto do que o treinador Ferrin, parecia dizer que o pivô astro era quem estava no comando. Olhei de volta para Faith. Ela estava em cima de sua pilha humana mas continuava a observar a discussão no meio da quadra.
– Falando nisso – Mel interrompeu meus pensamentos –, você está muito bonita hoje. Essa roupa é nova?
Afastei o olhar de Arthur e Faith e alisei a saia de tecido amarrotado, acima dos joelhos.
– É. Gostou?
– Gostei. Fica bem de roxo. E a gola em V é muito sexy.
– Sexy demais?
– Não. Na medida certa. Você devia usar coisas assim com mais frequência. Fica meio... exótica. Tipo uma cigana ou sei lá. – Ela olhou para a minha cabeça. – E fez alguma coisa no cabelo também?
Amassei os cachos com os dedos.
– Usei um umidificador de cachos em vez de tentar alisar o cabelo. Acho que estou cansada de lutar contra a natureza.
– Está ótimo. – Mel assentiu, me avaliando. – Brilhoso. E é diferente do que todo mundo faz. Tipo, descolado.
Um grito agudo ressoou e olhei para a frente bem a tempo de ver Faith Crosse se estatelar no chão, derrubando toda a pirâmide. Seu esquadrão caiu um a um, como dominós berrando embaixo dela. Praticamente todo mundo no ginásio correu para olhar ou ajudar. E a primeira pessoa a chegar ao local do acidente, estendendo a mão para ajudar Faith a ficar de pé, foi ninguém menos do que Arthur Vladescu. Uma a uma as outras líderes de torcida se levantaram e se examinaram para ver se ninguém estava machucada. Como todo mundo, Faith parecia bem, mas Arthur segurou o braço dela e a levou na direção do vestiário, onde os dois pararam, conversando.
– Ora, ora, ora – observou Mel. – Se você vai trocar Jake por Thur, é melhor correr, porque parece que pode ter concorrência. Olha só para ela, fazendo o cara bancar o cavalheiro diante da donzela em perigo!
Quase ri disso. Para começar, Faith namorava Ethan Strausser desde sempre. E o mais importante, Arthur nunca me trocaria por outra garota, mesmo que a bunda dela ficasse linda no saiote de líder de torcida. Ele gostava de mulheres com curvas. E estava prometido a mim. Porém, enquanto eu os acompanhava de longe, Arthur e Faith riram alto, como tinham feito no meu quarto. Depois ela lhe deu um empurrãozinho cheio de flerte e ele sorriu para ela, parecendo menos aflito do que no passado. Com a postura mais relaxada. Mais... livre.
– É – riu Mel. – Se você quer o Thur, seria bom agir. Faith está babando por ele como se o garoto fosse uma bolsa Prada que tivesse ido parar numa liquidação do Wal-Mart. A preço de banana e pronta para saltar direto nos braços dela!
– Não, isso é maluquice – protestei.
Se bem que, apenas uma semana antes, eu pensava que vampiros fossem maluquice. O que Arthur quis dizer quando falou “nessa altura do campeonato”? Enquanto eu olhava Arthur e Faith conversarem, rirem juntos, tive uma sensação estranha, como se alfinetes quentes pinicassem meu coração. Ciúme! Outro sentimento também cresceu dentro de mim. Um sentimento de posse. Um sentimento forte, de proprietária, que beirava a raiva. Uma sensação de ser dona. De ter direito sobre Arthur. Meus dedos envolveram a lateral do banco, apertando-o com força. E, de repente, pela primeira vez, senti sede. Muita, muita sede. De uma coisa que eu nunca havia desejado antes. Exatamente como meu guia para vampiros alertara.
Continua...

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