Cap. 1
Era uma convocação, Arthur
Aguiar percebeu. Ele franziu a sobrancelha, montado em seu aprumado Passo
Fino, e observou os vastos espaços verdes onde milhares de cabeças de gado —
todas pertencentes a ele — pastavam, alheias ao fato de seu dono estar prestes
a embarcar no jato da empresa de Buenos Aires rumo a Londres.
Eram poucas as vezes que seu pai o
convocava. Afinal, Arthur tinha anos e cortara o cordão umbilical há algum
tempo. O assunto devia ser, portanto extremamente importante, e o chamado foi
respondido de imediato.
Ele ficou momentaneamente preocupado.
Será que envolvia a saúde der seus pais? Certamente, não. Sua mãe, com quem
mantinha uma relação muito próxima, teria contado. Ainda assim, ele não perdeu
tempo e galopou em direção à graciosa casa-grande, com as paredes de terracota
banhadas pelo crepúsculo, e pediu ao empregado Juanito para fazer as malas.
Vinte e quatro horas depois Arthur estava sentado no escritório de sua
família na Eaton Square, tentando absorver o impacto do que seu pai acabara de
anunciar.
— Mas isso é completamente absurdo! — Arthur exclamou, passando as mãos
pelos cabelos. — Ao que eu me lembro, Lua Blanco não completou vinte anos, é
apenas uma menina. Como você e Billy podem pensar em casamento para ela?
— Francamente, Arthur, deixe de ser tão
pudico. Você fala como se nunca tivesse ouvido falar em casamento por
conveniência.
— Bem, não como este — retrucou Arthur,
esticando suas longas pernas, cruzando os tornozelos e enrugando as
sobrancelhas. — Não sei o que se passa pelas cabeças de vocês. Se Lua pensa em
mim de alguma forma, provavelmente é como...
— Tolice. — O pai dele, firme e bem-vestido, apesar de contar já com oitenta anos, interrompeu-o. — Duvido que ela sequer se lembre de você, o que pode ser até vantajoso.
— Ah, maravilhoso!
— Pare com isso. Existe uma razão muito forte para
este acordo.
— Existe? E qual poderia ser? - Arthur franziu as
sobrancelhas.
— Falando franca e diretamente, Billy, o avo dela,
está morrendo.
Arthur franziu o cenho e sentou de forma adequada.
— O que há com ele?
— Um câncer implacável, infelizmente. Ele tem no
máximo seis meses. E, então, pode imaginar o que aconteceria com essa menina,
solta no mundo com todo o dinheiro que vai herdar? Sem contar a administração
do império de Billy — ele acrescentou, olhando para o filho.
— Então essa é a questão — respondeu Arthur
lentamente. — Billy pensa em mim como um candidato adequado para assumir a
direção, certo? Eu encararia como um grande elogio, considerando a amplitude e
a complexidade de seu império.
— Sim, essa é uma forma interpretar isso.
— Só temos um pequeno problema.
Henrique ergueu uma sobrancelha e esperou.
— Não estou pronto para me casar. — o silêncio preencheu
a sala antes de o senhor mais velho falar.
— Aceite este casamento com Lua...
— É uma moça! Que poderia ser praticamente minha
filha — Arthur rejeitou, incrédulo.
— Dificilmente. A menos que você queira entrar para
o livro dos recordes na lista dos pais mais jovens — murmurou seu pai, com um
estranho toque de humor. — De qualquer forma, este casamento, como eu dizia
antes de ser interrompido, não restringirá seu... hum... estilo de vida. Tenho
certeza de que Lua cresceu esperando um casamento deste tipo. Eu admito que não
a vejo há anos. Ela foi para o Colégio Sacré Coeur — ele continuou, com um
ligeiro sorriso de satisfação. — Que por si só é um grande augúrio.
Continua...

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