sexta-feira, 31 de julho de 2015

De mentirinha


(Capítulo Quatorze — Desse jeito)

“Não quero, não quero mais brigar
Pra alguém e alguém me aceitar
Do jeito que sou”.
— Jotta A
Karina observava de sua mesa os convidados. Alguns passeavam, outros comiam, outros dançavam. De longe podia ver os sorrisos de Duca e Bianca, como um dia podia pensar em que combinaria melhor com o cunhado do que a irmã?
A loira apoiou as pernas na cadeira da frente e se esticou para retirar a sandália de salto. Tinha que concordar que apesar de ter mudado um pouco o jeito de se vestir ainda odiava o fato de ter de usar salto em certas ocasiões. Era desconfortável, sempre tinha impressão de que ia cair e fazia bolhas horríveis nos pés.
— A mesma garota mulher-macho de sempre não é, Karina? — Ouviu alguém dizer atrás de si.
— Olá, tia Julia. — Karina sorriu forçadamente para a tia-avó materna.
Julia Fernandes era a tia de Ana, única dos parentes próximos que ia visitar às vezes as meninas depois da morte de Ana. Idolatrava Bianca e repudiava Karina, ou sempre jogava nas costas da caçula que a mãe havia morrido por culpa sua.
— Sabia que não é educado fazer isso que você está fazendo? Tirar as sandálias, pés em cima da cadeira. Você não muda não é, garota? Continua sendo a personificação do seu pai.
— Graças a Deus por isso, é um orgulho pra mim eu me parecer com ele. — Manteve a voz firme.
— Ainda insolente? Tenho certeza que se fosse criada por mim seria a mais bela dama. Por que não está cumprimentando os convidados?
— Talvez porque isso seja o trabalho dos noivos? E a noiva com toda certeza não sou eu.
— Continue assim, nunca terá um namorado na vida, imagina um noivo?
Karina não conseguiu retrucar, Pedro havia depositado um beijo no alto de sua cabeça. A loira sorriu de olhos fechados com o carinho e apoio do namorado. Tinha certeza que ele ouvira toda a conversa. Afinal ele tinha ido buscar bebida no bar, há menos de três metros.
— Toma aqui seu suco, amor. — Pedro ofereceu — A senhora me desculpa? Até poderia te oferecer a minha taça, mas eu já bebi.
— Pedro essa é a minha tia por parte de mãe, Júlia. E tia, esse é o Pedro, meu namorado. — Karina apresentou com um sorriso debochado no rosto.
— Muito prazer. — Pedro cumprimentou a senhora.
— Todo meu, querido. Não era você que estava tocando guitarra?
— Sim era, mas vi a K com a cara abatida e vim ver como ela estava. Melhorou a dor nos pés?
— Melhorou assim que eu tirei a sandália.
— Então não se preocupe, até a Bia já tirou o salto. Sério não sei como vocês aguentam estar com isso nos pés. — Pedro diz como quem não quer nada, mas Karina sentiu a provocação no tom de voz dele.
— Realmente é muito complicado. Vou deixar vocês sozinhos. Até logo Karina, e foi bom te conhecer, Pedro. — a senhora finalmente se retirou.
Pedro se sentou na cadeira onde Karina apoiava os pés e os colocou sobre o seu colo e fitava a loira em sua frente.
— Eu sei que ouviu tudo o que ela disse. Não precisa fingir.
— É, eu ouvi. Não acredito que ela é sua tia.
— A única que realmente me culpa pela morte da minha mãe, nunca negou isso. Desde que eu era pequena.
— Isso é cruel. Você tá bem, Esquentadinha? Olha você não é culpada de nada disso, foi uma tragédia o que aconteceu com a sua mãe.
— Sim eu tô bem, aprendi ignorar essas coisas. Agora volta para o palco, onde é o seu lugar.
O guitarrista sorriu, se levantou e abraçou Karina. Depositou um beijo no alto da cabeça dela e voltou para o palco. A antiga banda da Ribalta animava mais os convidados do que se Bianca ou Duca tivesse contratado alguma outra banda.
—Antes de eu começar a cantar, quero passar o microfone para o nosso guitarrista. — Sol anunciou.
— Boa noite. A próxima música eu quero dedicar a minha namorada, Karina, mas desde sempre eu chamo de Esquentadinha. Espero que você goste e quero que saiba que eu gosto de você assim. Esquentadinha e linda, adoro você desse seu jeito. — Pedro falou e mandou um beijinho para a mulher.
Karina parecia um tomate de tão vermelha, todos os olhares iam em direção a ela, até mesmo o de sua tia. Dandara e Delma sorriam com a pequena declaração de Pedro. Para o alivio de Karina, Sol começou a cantar trazendo a atenção para si.
Diz pra eu ficar muda
Faz cara de mistério
Tira essa bermuda
Que eu quero você sério
Pedro sorriu malicioso para Karina, ambos sabiam do duplo sentido da música, assim como sabiam que era a música favorita da Karina da banda. E combinava perfeitamente com eles.
Tramas do sucesso
Mundo particular
Solos de guitarra
Não vão me conquistar
Pedro fez um pequeno solo nessa música olhando diretamente para Karina, a loira só revirou os olhos como se dissesse “sério isso?” e voltou a mexer a cabeça no ritmo da música. Grandes partes dos convidados dançavam em pares ao redor dos noivos.
Uh! eu quero você
Como eu quero!
Uh! eu quero você
Como eu quero!
Uh! eu quero você
Como eu quero!
Uh! eu quero você
Como eu quero!
Era uma exclamação que ambos tinham. Queriam um ao outro. Talvez desde novos sempre se quisessem. Mas como sempre, estavam debaixo de uma mascara, negar sempre pareceu tão importante. Esconder era sempre mais fácil. Fingir era tão natural como beber que tiveram que esperar o mundo girar, dá suas voltas, estrelas cadentes, tudo para que hoje pudessem estar juntos.
[...] Longe do meu domínio
Cê vai de mal a pior
Vem que eu te ensino
Como ser bem melhor
(Bem melhor!) [...]
Karina não conseguia mais se imaginar sem Pedro, se enquanto adolescente desejava que o rapaz evaporasse, agora não conseguia pensar em mais ninguém que ocupasse o lugar dele em sua vida.
Eram bons juntos, funcionavam bem, combinavam. Era tudo isso e ao mesmo tempo, os dois não eram nada. Extremamente confuso e poético na mente de Pedro. Era como arroz e feijão, não se parecem, mas se completam na mente de Karina.
Porém, pena que tudo o que é muito bom, dura pouco.

Continua..?

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