Ainda havia algo faltando, e eu sabia que ela não estava bem.
Mesmo antes da interferência de Eros, Penélope era sempre excessivamente
emotiva. Ela se agarrava a Jasão de uma forma proibida para as mulheres
espartanas e, uma vez, quando ele foi ferido, ela tosou os cabelos em sinal de
tristeza. Depois que Eros a atingiu com a flecha, ela sofria longos períodos de
grande depressão ou raiva. Eu fazia o máximo possível por ela, e tentei com
muito empenho fazê-la feliz.
Lua afastou-lhe o cabelo do rosto.
- Ela dizia que me amava, mas eu sabia que não se importava comigo do
modo como tinha se importado com Jasão. Ela se entregava a mim de boa vontade,
mas não havia paixão verdadeira em seu toque. Eu soube disso na primeira vez em
que a beijei. Tentei convencer-me de que não era importante. Pouquíssimos
homens naquela época encontravam o amor em seus casamentos. Além do mais, eu me
ausentava durante meses e até mesmo anos, conduzindo meu exército. Porém, no
final, acho que eu tinha muito de minha mãe em mim, porque eu desejava mais.
Lua sofria por ele enquanto escutava o relato.
- E então chegou o dia em que Eros também me traiu.
- Como ele fez isso? - ela indagou com ansiedade, sabendo que essa era a
fonte da maldição.
- Ele e Príapo estavam bebendo na noite seguinte àquela em que matei
Lívio. Eros, embriagado, revelou-lhe o que tinha feito para mim. Assim que
Príapo escutou a história, soube como vingar-se. Ele foi até o Mundo
Subterrâneo, encheu uma xícara com água do Poço da Memória e a entregou a
Jasão, para que ele bebesse. Logo que a água tocou seus lábios, Jasão se
lembrou de seu amor. Príapo lhe contou o que eu tinha feito e entregou a ele
mais água para Penélope.
Arthur sentia seus lábios se moverem, mas não estava mais consciente das
palavras. Fechando os olhos, reviveu aquele dia miserável.
“Ele acabara de entrar, vindo dos estábulos, e se deparara com Penélope
e Jasão no vestíbulo”. Beijando-se.
Atordoado, detivera-se, estremecendo ao observar a forma apaixonada como
se abraçavam. Até Jasão levantar o olhar e avistá-lo à porta. Assim que seus
olhos se encontraram, Jasão curvou os lábios.
- Seu ladrão imprestável! Príapo me contou sobre a sua traição. Como
pôde fazer isso?
Com a face contorcida de ódio, Penélope correu até Arthur e o
esbofeteou.
- Seu bastardo imundo! Eu poderia matá-lo pelo que fez.
- E eu vou matá-lo por isso. - disse Jasão, desembainhando a espada.
Arthur tentou tirar Penélope do caminho, mas ela se recusou a
afastar-se.
- Pelos deuses, eu dei à luz seus filhos!
Ela tentou ferir seu rosto, mas ele segurou-lhe os pulsos.
- Penélope, eu...
- Não me toque. - ela ordenou rispidamente, torcendo os braços para
livrar-se de suas mãos. - Você me dá nojo. Acha mesmo que qualquer mulher
decente iria desejá-lo à luz do dia? Você é desprezível. Repulsivo. -
Empurrou-o na direção de Jasão. - Arranque-lhe o coração. Quero me banhar no
sangue dele até que não sinta mais o cheiro de seu toque em mim.
Continua...

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