Em seu
coração, Lua sabia que ele podia aproveitar muito pouco disso.
- Venha.
Vou preparar um pouco de cereal, e podemos comer no deque.
Subiram
os cinco degraus até o deque. Ela o deixou sentado em sua cadeira de balanço de
vime, enquanto ia para dentro preparar o cereal.
Quando
retornou, ele estava com a cabeça inclinada para trás e com os olhos fechados.
Sem querer perturbá-lo, ela recuou.
- Você
sabe que eu consigo sentir a sua presença com todo o meu corpo? Com todos os
meus sentidos? - ele perguntou, abrindo os olhos e encarando-a com um olhar
ardente.
- Não. -
ela respondeu nervosa, entregando-lhe uma tigela.
Ele pegou
a tigela e não disse mais nada. Permaneceu sentado em silêncio, comendo o
cereal.
Absorvendo
o calor do sol, Arthur sentia a brisa suave, deliciando-se com a presença
serena de Lua ao seu lado.
Despertara
para ver o nascer do sol pelas janelas do quarto, e ficara durante uma hora
apenas permitindo que o corpo de Lua o confortasse. Ela o tentava de uma forma
que nunca experimentara.
Por um
instante, permitiu-se pensar em permanecer naquela época. Mas então o que
aconteceria?
Ele tinha
apenas uma habilidade que podia usar neste mundo moderno, e não era o tipo de
homem que se satisfaria em viver da caridade de uma mulher. Não depois...
Cerrou os
dentes enquanto as memórias pareciam queimá-lo.
Aos 14
anos, trocara sua virgindade por uma tigela de mingau frio e uma xícara de
leite azedo.
Após
tanto tempo, ainda podia sentir as mãos da mulher em seu corpo, retirando suas
roupas, agarrando-o febrilmente conforme lhe mostrava como satisfazê-la.
"Oh,
- ela murmurara, - você é muito bonito, não? Se precisar de mais mingau, pode
voltar para me ver a qualquer hora em que meu marido não esteja em casa."
Ele se
sentira tão sujo. Tão usado.
Nos anos
seguintes, passara mais noites dormindo nas sombras do que em camas quentes,
simplesmente porque não estivera disposto a pagar esse preço de novo por uma
refeição e conforto temporário.
E se, de
alguma forma, conquistasse sua liberdade outra vez, não queria...
Fechou os
olhos. Não conseguia visualizar-se neste mundo. Era diferente demais. Estranho
demais.
-
Terminou?
Olhando
para cima, viu Lua em pé ao seu lado com a mão estendida, à espera de sua
tigela.
- Sim,
obrigado. - Ele lhe entregou o recipiente.
- Vou
tomar um banho rápido e volto em alguns minutos.
Ele a
observou afastar-se, detendo-se nas pernas desnudas.
Podia
sentir o sabor de Lua, assim como o doce aroma do corpo macio. A mulher o
assombrava. E não era apenas a maldição.
Havia
algo mais. Algo que jamais encontrara.
Pela
primeira vez em mais de dois mil anos, ele se sentia um homem de novo. E, com
esse sentimento, vinha um anseio tão profundo que partia seu coração.
Ele a desejava. Desejava seu
corpo e sua alma. Desejava seu amor.
Continua...

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