sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Amante da fantasia - Cap. 88


Em seu coração, Lua sabia que ele podia aproveitar muito pouco disso.



- Venha. Vou preparar um pouco de cereal, e podemos comer no deque.



Subiram os cinco degraus até o deque. Ela o deixou sentado em sua cadeira de balanço de vime, enquanto ia para dentro preparar o cereal.



Quando retornou, ele estava com a cabeça inclinada para trás e com os olhos fechados. Sem querer perturbá-lo, ela recuou.



- Você sabe que eu consigo sentir a sua presença com todo o meu corpo? Com todos os meus sentidos? - ele perguntou, abrindo os olhos e encarando-a com um olhar ardente.



- Não. - ela respondeu nervosa, entregando-lhe uma tigela.



Ele pegou a tigela e não disse mais nada. Permaneceu sentado em silêncio, comendo o cereal.



Absorvendo o calor do sol, Arthur sentia a brisa suave, deliciando-se com a presença serena de Lua ao seu lado.



Despertara para ver o nascer do sol pelas janelas do quarto, e ficara durante uma hora apenas permitindo que o corpo de Lua o confortasse. Ela o tentava de uma forma que nunca experimentara.



Por um instante, permitiu-se pensar em permanecer naquela época. Mas então o que aconteceria?



Ele tinha apenas uma habilidade que podia usar neste mundo moderno, e não era o tipo de homem que se satisfaria em viver da caridade de uma mulher. Não depois...



Cerrou os dentes enquanto as memórias pareciam queimá-lo.



Aos 14 anos, trocara sua virgindade por uma tigela de mingau frio e uma xícara de leite azedo.



Após tanto tempo, ainda podia sentir as mãos da mulher em seu corpo, retirando suas roupas, agarrando-o febrilmente conforme lhe mostrava como satisfazê-la.



"Oh, - ela murmurara, - você é muito bonito, não? Se precisar de mais mingau, pode voltar para me ver a qualquer hora em que meu marido não esteja em casa."



Ele se sentira tão sujo. Tão usado.



Nos anos seguintes, passara mais noites dormindo nas sombras do que em camas quentes, simplesmente porque não estivera disposto a pagar esse preço de novo por uma refeição e conforto temporário.



E se, de alguma forma, conquistasse sua liberdade outra vez, não queria...



Fechou os olhos. Não conseguia visualizar-se neste mundo. Era diferente demais. Estranho demais.



- Terminou?



Olhando para cima, viu Lua em pé ao seu lado com a mão estendida, à espera de sua tigela.



- Sim, obrigado. - Ele lhe entregou o recipiente.



- Vou tomar um banho rápido e volto em alguns minutos.



Ele a observou afastar-se, detendo-se nas pernas desnudas.



Podia sentir o sabor de Lua, assim como o doce aroma do corpo macio. A mulher o assombrava. E não era apenas a maldição.



Havia algo mais. Algo que jamais encontrara.



Pela primeira vez em mais de dois mil anos, ele se sentia um homem de novo. E, com esse sentimento, vinha um anseio tão profundo que partia seu coração.



Ele a desejava. Desejava seu corpo e sua alma. Desejava seu amor.





Continua...

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