quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Casamento por conveniência - Cap. 48


— Obrigado — Arthur murmurou agradecido, tentando combater a náusea repentina que sentira ao pensar em Lua no hospital, talvez perdendo o bebê. O bebê deles. Um bebê concebido em um daqueles momentos tórridos de...


Por um momento Arthur engoliu em seco. Até aquele instante, não atinara ainda, mas agora percebia que era amor o que sentia por Lua. Um sentimento diferente de qualquer outro que sentira por outras mulheres. Ele sacudiu a cabeça e soltou um longo suspiro, atônito pelo que acabara de concluir. Ele a amava aquela moça que conhecia a tão pouco tempo, que entrara em sua vida de uma forma que seria inconcebível para ele muito pouco tempo atrás.


— Vôo da British Airways... — Era o vôo.


Agarrando a pasta, Arthur seguiu os demais passageiros e se diri­giu ao avião.


Mas não chegou a Londres rápido o bastante.


O carro o aguardava no terminal para levá-lo para o Hospital Chelsea and Westminster, onde ele encontrou os pais sentados no corre­dor, perto do quarto de Lua.


— Ela foi sedada, pobre menina — falou Dona Kátia.


— Mas ela está bem? E o bebê? — ele perguntou, tentando acal­mar a ansiedade que sentira a noite toda.


— Sinto muito, mas ela o perdeu — sua mãe respondeu.


Arthur não disse nada, apenas virou-se e ficou olhando pela jane­la. Era sua culpa. Sua culpa o fato de ela ter passado por aquela experiência horrível sozinha e infeliz, quando ele deveria ter estado ao seu lado. E pior, tudo isso acontecera por causa daquele maldito dia com Luísa. Provavelmente foram todo o estresse e a ansiedade por que ela passou que provocaram o aborto.


Ele se virou.


— Posso vê-la? — perguntou à mãe.


— Acho melhor você falar com o médico primeiro. Ele deve che­gar em alguns minutos — discordou Dona Kátia.


— Sim — concordou Henrique. — Espere para falar com o médico, Arthur. E veja que no futuro cuide melhor da sua mulher — ele acrescentou. — Você não é mais solteiro, filho. Você tem deveres. Certifique-se de cumpri-los adequadamente.


Arthur nada respondeu, simplesmente concordou com o pai, ba­lançando a cabeça. Seu pai tinha razão em puni-lo. Não havia descul­pas para sua ausência, apenas a rejeição de Lua. Mas ele devia ter insistido, não ter permitido que ela o vencesse com seus argumentos. Devia ter ficado no comando, como sempre fizera com todos os as­pectos de sua vida e simplesmente falar a ela como as coisas deviam ser em vez de tentar agir de forma cavalheiresca e satisfazer todos os desejos dela. Que se danassem as vontades dela. Afinal de contas, ele era seu marido e era seu dever cuidar dela.

Alguns minutos depois, o médico apareceu.


— Ah! Sr. Aguiar.


— Ela está bem? — perguntou Arthur


— Sim. Ela ficará bem. É jovem e tem excelente saúde. Mas ob­viamente passar por um aborto não é uma situação fácil para uma mulher, independentemente da idade gestacional. Ela está muito aba­lada. O senhor vai precisar ser muito paciente e atencioso para ajudá-la a passar por isso. A melhor solução é outro bebê.


— Agora? — Arthur olhou para ele fixamente.


— Não, imediatamente não. Ela precisará de algumas semanas para superar isso, tanto física quanto emocionalmente.


Arthur assentiu.


— Sinto-me culpado por não estar aqui.


— Não faça isso. Essas coisas acontecem. Não sabemos por que, mas acontecem. E não afetou de forma alguma a capacidade de ela ter outros filhos. Mesmo assim, quando uma mulher sabe que está grávida e passa nem que sejam alguns dias sabendo que outro ser vivo está crescendo dentro dela, a sensação de perda é imensa.


— Entendo — concordou Arthur. — Posso vê-la?


— Sim. Não sei se ela já terá acordado, mas pode entrar e falar com ela. Não discutam até ela melhorar. Essas coisas sempre são marcadas por muita culpa.


— Obrigado, doutor. — Arthur apertou a mão dele. — Por tudo que o senhor fez pela minha esposa.


— Eu não fiz nada além de resolver o problema. — Ele apertou o ombro de Arthur e despediu-se de Henrique e Kátia. Arthur preparou-se para entrar no quarto de Lua.


— Vamos embora agora, querido. Seu pai está cansado e deve descansar. Se o médico der alta para Lua hoje, leve-a para Eaton Square. Chega de deixá-la sozinha.


— Claro. Vá para casa. Papai durma um pouco — disse Arthur. — E obrigado aos dois pelo que fizeram. Eu... — A voz dele estava embargada.


— Não foi nada. Consideramos Lua uma filha — disse Dona Kátia. — Veja se consegue consertar as coisas entre vocês, Arthur, e não — ela implorou — deixe o orgulho e a estupidez atrapa­lharem, filho. — Ela deu um beijo nele. — Você vai ver. Se Deus quiser, tudo ficará bem.


Arthur abriu a porta do frio quarto de hospital e olhou para Lua, deitada imóvel, como uma boneca, na cama. Ao se aproximar da cama, Arthur pegou uma de suas mãos, tocando-a carinhosamente, sentindo uma forte emoção ao pensar em tudo que ela passara. Como devia ter ficado assustada, acordando e tendo que enfrentar uma ex­periência terrível no meio da madrugada, sozinha, obrigada a telefo­nar para os pais dele. E o que teria acontecido se não tivesse ligado? E se o constrangimento a tivesse vencido e ela ficasse sangrando até a manhã seguinte? E então?


Arthur encolheu os ombros e pôs-se ao lado da cama, observando o adorável e pálido rosto de Lua emoldurado por seus cabelos cain­do pelos lados dos ombros. Ele soltou a mão dela, com medo de atrapalhá-la, e foi tomado por uma sensação de ternura. Ela parecia uma menina, deitada ali tão quieta. Mas era uma mulher.


Sua mulher.


Continua...?

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