Lua despertou com a luz do sol penetrando pelas janelas e levou um
instante para recordar a noite anterior. Sentando-se, estendeu a mão,
procurando Arthur, mas encontrou a cama vazia.
- Arthur? - ela o chamou. Ninguém respondeu. Afastando as cobertas,
levantou-se e vestiu-se depressa. - Arthur? - chamou de novo ao descer as
escadas.
Nada. Nem um único som, além das batidas de seu coração. Começou a
sentir pânico.
Algo teria acontecido com ele?
Correu até a sala de estar, onde o livro se encontrava sobre a mesinha
de centro. Folheando-o, viu a página em branco onde Arthur estivera. Aliviada
por ele não ter, de alguma forma, retornado ao livro, continuou procurando pela
casa.
Onde ele estava?
Ao chegar à cozinha, notou que a porta dos fundos estava entreaberta.
Franzindo o cenho, saiu e foi até o deque. Olhando ao redor, ela finalmente
avistou os filhos dos vizinhos na grama entre a sua casa e a deles. Contudo, o
que mais a atordoou foi ver Arthur sentado com eles enquanto lhes mostrava um
jogo com pedras e gravetos.
Os dois meninos e a menina estavam sentados perto dele, escutando
atentamente, enquanto a irmãzinha de dois anos andava em meio ao grupo.
Lua sorriu, apreciando a imagem plácida. Inundada por um sentimento
terno, ela imaginou se era assim que Arthur ficava com os próprios filhos.
Deixando o deque, andou até eles.
Bobby era o mais velho, com nove anos. O irmão, Tommy, era um ano mais
novo, e Katie tinha seis. Os pais haviam se mudado para aquela casa fazia quase
uma década, quando eram recém-casados e, apesar de serem amigáveis, nunca
tinham se tornado mais do que apenas conhecidos de Lua.
- Então, o que aconteceu? - Bobby perguntou, quando foi a vez de Arthur
jogar.
- Bem, o exército estava em uma armadilha. - disse Arthur, movendo uma
das pedras por cima de um graveto. - Fora traído por um dos seus. Um jovem
soldado de infantaria que entregou os companheiros porque queria ser um
centurião romano.
- Eles eram os melhores. - Bobby interrompeu-o.
Arthur fez uma carranca.
- Eles não eram nada, comparados aos espartanos.
- Vão espartanos! - Tommy gritou. - Um espartano é nosso mascote na
escola.
Bobby empurrou o irmão, derrubando-o.
- Você está interrompendo a história.
- Você nunca deve bater no seu irmão.
Arthur falou com a voz severa e, ainda assim, estranhamente gentil.
- Irmãos devem se proteger, e não se machucar.
A ironia das palavras entristeceu o coração de Lua. Era uma pena que
ninguém tivesse ensinado essa lição aos irmãos dele.
Continua...

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