Arthur tremia, assolado pela culpa e pela dor. Nunca pretendera que
aquilo acontecesse. Nunca quisera ferir alguém, muito menos Jasão.
Apenas desejara que alguém o amasse. Apenas desejara um lar no qual
fosse bem-vindo. Mas Jasão estava certo. Era tudo culpa sua. Tudo.
Os gritos de Penélope ecoavam em seus ouvidos. Ela o agarrou pelos
cabelos com força. Com os olhos desvairados, arrancou a adaga de sua cintura.
- Quero você morto! Morto!
Ela enfiou a adaga em seu braço e puxou-a para arremeter outra vez, mas Arthur
segurou-lhe a mão. Com um guincho selvagem, ela se afastou violentamente.
- Não. - ela gritou, com os olhos enlouquecidos. - Eu quero que você
sofra. Você tirou de mim o que eu mais amava. Agora, eu vou tirar o mesmo de
você.
Ela saiu correndo. Subjugado pelo pesar e pela raiva, ele não conseguiu
se mover enquanto via a vida esvair-se do corpo do amigo.
Até que sua mente entorpecida se deu conta das palavras ditas por
Penélope.
- Não! - ele urrou, levantando-se. - Não!
Chegou à porta dos aposentos dela em tempo de escutar as crianças
gritando.
Com o coração despedaçado, tentou abri-la, mas Penélope a trancara.
Quando conseguiu arrombar a porta, era tarde demais. Tarde demais...
Pressionou as mãos sobre os olhos conforme revivia o horror daquele dia,
e sentiu o toque reconfortante de Lua em sua pele.
Nunca conseguiria livrar-se da visão deles, do medo em seu coração. Da
agonia absoluta.
A única coisa na vida que amara eram seus filhos. E apenas eles o tinham
amado.
Por quê? Por que eles precisavam ter sofrido por seus atos? Por que
Príapo não podia tê-lo torturado sem feri-los? E como Afrodite permitira que
aquilo acontecesse?
Uma coisa era ela o ignorar, mas deixar que seus filhos morressem... Por
isso, Arthur fora ao templo dela naquele dia. Planejara matar Príapo.
Arrancar-lhe a cabeça e espetá-la em uma lança.
- O que aconteceu? - Lua perguntou, arrastando seus pensamentos de volta
ao presente.
- Quando eu cheguei lá, era tarde demais. - falou, com a garganta
ardendo, dilacerado pela tristeza. - Nossos filhos estavam mortos, assassinados
pela própria mãe. Penélope já cortara os pulsos e estava deitada, à beira da
morte, ao lado deles. Eu chamei um médico e tentei estancar o sangue. - Ele
ficou em silêncio por alguns instantes. - Com o último suspiro, ela cuspiu no
meu rosto.
Lua fechou os olhos, dominada pela dor.
Era ainda pior do que havia imaginado. Meu Deus, como ele sobrevivera
àquilo?
Ao longo dos anos, escutara numerosas histórias de horror, mas nenhuma
rivalizava com o que Arthur enfrentara. E ele enfrentara tudo sozinho, sem
ninguém para ajudá-lo.
Sem ninguém que se preocupasse.
- Eu sinto muito. - ela sussurrou, esfregando as mãos no peito dele para
confortá-lo.
- Ainda não consigo acreditar que eles se foram. - ele murmurou, com a
voz repleta de pesar. - Você me perguntou o que eu faço enquanto estou no
livro. Eu apenas fico lá, lembrando-me dos rostos do meu filho e da minha
filha. Eu me lembro da sensação dos pequenos braços ao meu redor. Da forma como
eles corriam para me receber, quando eu voltava das campanhas. E revivo cada
minuto daquele dia, desejando que eu pudesse ter feito algo para salvá-los.
Lua piscou para conter as lágrimas.
Não era surpresa o fato de ele nunca ter tocado no assunto.
Arthur inspirou fundo, atormentado.
- Os deuses não me concedem nem mesmo a insanidade, para que eu escape
dessas memórias. Não me permitem nem mesmo esse conforto.
Depois disso, ele não falou mais nada. Ficou apenas deitado em silêncio
nos braços de Lua.
Assombrada com tamanha força, Lua permaneceu sentada por horas,
abraçando-o. Não sabia o que mais podia fazer.
Pela primeira vez em anos, seu treinamento como terapeuta abandonou-a
completamente.
Continua...

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