– Oi, Arthur – respondi, pouco à vontade.
Ele se virou e minha mãe prendeu o número. Para minha surpresa, em
seguida mamãe girou Arthur, como tinha feito comigo, e o abraçou. A surpresa se
transformou em choque quando Arthur a abraçou de volta. Quando foi que esses dois se
aproximaram? Em algum momento
depois do Halloween, talvez. Arthur e eu estávamos nos evitando desde aquele
encontro estranho no terraço.
– Boa sorte – disse mamãe, espanando uma sujeira imaginária no
blazer impecável dele, de caimento perfeito. – E use o capacete – acrescentou.
– É obrigatório.
– É, é, a segurança em primeiro lugar – disse Arthur, sarcástico.
– Vou procurá-lo. – Ele virou para mim com o olhar neutro. – Boa sorte.
– Pra você também.
Arthur desamarrou a égua e a conduziu para longe. Mamãe o observou
com o rosto tenso.
– Ele vai ficar bem – garanti.
– Assim espero.
– Eu sou a segunda, certo? – perguntei.
– É. Depois da Faith.
Maravilha. A pior apresentação que poderia vir antes de mim. Faith não
competia apenas na exposição anual do Clube da Juventude. Montava nas
exposições mais importantes em seu capão caríssimo. Meu estômago ficou
embrulhado de novo.
– Você vai se sair muito bem – afirmou mamãe. E me abraçou.
O alto-falante começou a berrar. Estava na hora.
– Vamos lá.
Obviamente Faith completou o circuito sem falhas com seu
puro-sangue Dança Lunar. Dominou o percurso com as pernas ágeis, de ossos
finos, do animal, superando cada obstáculo, até mesmo o quinto, uma torre que,
de onde eu esperava, na lateral, parecia ter uma altura intransponível. Eu
precisava fazer xixi, um xixi de nervosismo, mas não havia tempo. Montei
enquanto os cascos de Dança Lunar passavam na parte final do circuito.
– A seguir, Roberta Messi, da Escola Woodrow Wilson, montando
Bela, uma
appaloosa de 5 anos.
Eles anunciaram meu nome.Respirei fundo e localizei Jake, que
assistia da arquibancada. Ele sorriu, me encorajando com os polegares para
cima. Sorri de volta, quase por obrigação.
Arthur também estava lá, observando, encostado na cerca. Droga. Como se eu precisasse de
seus olhos hipercríticos para me julgar. Olhei por cima do ombro, imaginando o
que aconteceria se minha égua e eu simplesmente desistíssemos. Mas era tarde.
Não havia como dar para trás. Respirando fundo outra vez, fui em frente. Os
cascos de Bela faziam pouco barulho na terra densa da arena quase silenciosa.
Sentindo a força do animal, seus passos familiares sob meu corpo, comecei a me
concentrar. O primeiro obstáculo se aproximava. Uma cerca.
Entramos em meio galope, saltamos e ultrapassamos sem erro. Você está só saltando com Bela.
Exatamente como faz em casa. Passamos então com facilidade pelas traves
baixas e o nervosismo foi
sumindo, sendo substituído pela empolgação. Todas aquelas pessoas nos observavam e estávamos
conseguindo.
Bela passou pelas duas cercas seguintes, e seus cascos sequer
roçaram as traves.
A quinta cerca, a mais alta, se aproximou e meu coração quase
pulou pela boca.
Mas Bela se ergueu, voou e nós passamos.
Um circuito perfeito. Sem faltas. No final das contas havíamos
feito uma passagem
impecável. Um sorriso enorme, vitorioso, rasgou meu rosto. Engole isso, astrozinho
romeno. Enquanto ia a meio galope
para a saída, acenei para meus pais, que aplaudiam, e para Jake, que estava com os dois
dedos na boca, assobiando. Procurei Arthur e vi que ele batia palmas com energia, as mãos
levantadas. Ele moveu os lábios sem emitir som: “Boa apresentação.” O que quer que
tivesse se partido entre nós havia acabado de ser um pouco consertado.
Voltei, depois de levar Bela, bem a tempo de ver a exibição de Arthur.
Ele montava com facilidade, majestoso, como se tivesse nascido
sobre o lombo de Fera. A égua negra como a noite também parecia estranhamente
calma. Cutucando os flancos, Arthur a instigou num meio galope, chegando quase
ao galope total. A velocidade era insana para o percurso pequeno, mas Arthur
não parecia notar. Havia um pequeno sorriso em seus lábios enquanto se
aproximava da primeira cerca. Fera voou, pousando com suavidade, e percebi que
aquele era um animal nascido para saltar. Os dois pareciam fundidos um ao
outro, égua e cavaleiro, tomando conta do circuito. Fera chegava ao dobro da
altura necessária e de repente os espectadores estavam gritando e aplaudindo.
Era uma coisa imprudente. Imprudente demais. Olhei para meus pais na
arquibancada.
Pareciam aterrorizados e logo fiquei também. Enquanto Arthur voava
por cima do quinto obstáculo, alguém apertou meu pulso, fazendo me pular de
susto.
– Olha só para ele – sussurrou Faith Crosse para ninguém em
particular. Tive quase
certeza de que ela nem notara quem estava segurando, tamanha a
intensidade com que olhava Arthur.
Faith bateu com o chicote de montaria no tornozelo,
distraidamente, no mesmo ritmo dos cascos. Puxei o braço para longe.
– Desculpa – murmurou ela, sem desviar o olhar de Arthur.
Fera ultrapassou o último obstáculo e o locutor anunciou um novo
recorde de tempo na competição. Arthur e a égua pararam diante do portão e ele
apeou, tirando as luvas de montaria com ar tranquilo, como se tivesse acabado
de dar um passeio no parque, alheio aos aplausos.
Sempre metido a besta.
– Vou dar os parabéns a ele – disse Faith.
Captei uma expressão peculiar nos olhos da futura rainha do baile
de formatura.
Faith desapareceu na multidão, em direção à saída, seguindo Arthur
atrás da arena. Foi então que pensei no chicote de montaria. Fera não gostaria
de ver o chicote. Arthur chegara até a pôr um cartaz de aviso no estábulo – um
cartaz que eu via quase todo dia.
– Faith, espera – gritei, indo atrás dela.
Continua...

Nenhum comentário:
Postar um comentário