segunda-feira, 4 de julho de 2016

Prometida a um vampiro - Cap. 54


 – Oi, Arthur – respondi, pouco à vontade.

Ele se virou e minha mãe prendeu o número. Para minha surpresa, em seguida mamãe girou Arthur, como tinha feito comigo, e o abraçou. A surpresa se transformou em choque quando Arthur a abraçou de volta. Quando foi que esses dois se aproximaram? Em algum momento depois do Halloween, talvez. Arthur e eu estávamos nos evitando desde aquele encontro estranho no terraço.

– Boa sorte – disse mamãe, espanando uma sujeira imaginária no blazer impecável dele, de caimento perfeito. – E use o capacete – acrescentou. – É obrigatório.

– É, é, a segurança em primeiro lugar – disse Arthur, sarcástico. – Vou procurá-lo. – Ele virou para mim com o olhar neutro. – Boa sorte.

– Pra você também.

Arthur desamarrou a égua e a conduziu para longe. Mamãe o observou com o rosto tenso.

– Ele vai ficar bem – garanti.

– Assim espero.

– Eu sou a segunda, certo? – perguntei.

– É. Depois da Faith.

Maravilha. A pior apresentação que poderia vir antes de mim. Faith não competia apenas na exposição anual do Clube da Juventude. Montava nas exposições mais importantes em seu capão caríssimo. Meu estômago ficou embrulhado de novo.

– Você vai se sair muito bem – afirmou mamãe. E me abraçou.
O alto-falante começou a berrar. Estava na hora.

– Vamos lá.

Obviamente Faith completou o circuito sem falhas com seu puro-sangue Dança Lunar. Dominou o percurso com as pernas ágeis, de ossos finos, do animal, superando cada obstáculo, até mesmo o quinto, uma torre que, de onde eu esperava, na lateral, parecia ter uma altura intransponível. Eu precisava fazer xixi, um xixi de nervosismo, mas não havia tempo. Montei enquanto os cascos de Dança Lunar passavam na parte final do circuito.

– A seguir, Roberta Messi, da Escola Woodrow Wilson, montando Bela, uma
appaloosa de 5 anos.

Eles anunciaram meu nome.Respirei fundo e localizei Jake, que assistia da arquibancada. Ele sorriu, me encorajando com os polegares para cima. Sorri de volta, quase por obrigação.
Arthur também estava lá, observando, encostado na cerca. Droga. Como se eu precisasse de seus olhos hipercríticos para me julgar. Olhei por cima do ombro, imaginando o que aconteceria se minha égua e eu simplesmente desistíssemos. Mas era tarde. Não havia como dar para trás. Respirando fundo outra vez, fui em frente. Os cascos de Bela faziam pouco barulho na terra densa da arena quase silenciosa. Sentindo a força do animal, seus passos familiares sob meu corpo, comecei a me concentrar. O primeiro obstáculo se aproximava. Uma cerca.
Entramos em meio galope, saltamos e ultrapassamos sem erro. Você está só saltando com Bela. Exatamente como faz em casa. Passamos então com facilidade pelas traves baixas e o nervosismo foi sumindo, sendo substituído pela empolgação. Todas aquelas pessoas nos observavam e estávamos conseguindo.
Bela passou pelas duas cercas seguintes, e seus cascos sequer roçaram as traves.
A quinta cerca, a mais alta, se aproximou e meu coração quase pulou pela boca.

Mas Bela se ergueu, voou e nós passamos.

Um circuito perfeito. Sem faltas. No final das contas havíamos feito uma passagem
impecável. Um sorriso enorme, vitorioso, rasgou meu rosto. Engole isso, astrozinho
romeno. Enquanto ia a meio galope para a saída, acenei para meus pais, que aplaudiam, e para Jake, que estava com os dois dedos na boca, assobiando. Procurei Arthur e vi que ele batia palmas com energia, as mãos levantadas. Ele moveu os lábios sem emitir som: “Boa apresentação.” O que quer que tivesse se partido entre nós havia acabado de ser um pouco consertado.

Voltei, depois de levar Bela, bem a tempo de ver a exibição de Arthur.
Ele montava com facilidade, majestoso, como se tivesse nascido sobre o lombo de Fera. A égua negra como a noite também parecia estranhamente calma. Cutucando os flancos, Arthur a instigou num meio galope, chegando quase ao galope total. A velocidade era insana para o percurso pequeno, mas Arthur não parecia notar. Havia um pequeno sorriso em seus lábios enquanto se aproximava da primeira cerca. Fera voou, pousando com suavidade, e percebi que aquele era um animal nascido para saltar. Os dois pareciam fundidos um ao outro, égua e cavaleiro, tomando conta do circuito. Fera chegava ao dobro da altura necessária e de repente os espectadores estavam gritando e aplaudindo. Era uma coisa imprudente. Imprudente demais. Olhei para meus pais na arquibancada.
Pareciam aterrorizados e logo fiquei também. Enquanto Arthur voava por cima do quinto obstáculo, alguém apertou meu pulso, fazendo me pular de susto.

– Olha só para ele – sussurrou Faith Crosse para ninguém em particular. Tive quase
certeza de que ela nem notara quem estava segurando, tamanha a intensidade com que olhava Arthur.

 Faith bateu com o chicote de montaria no tornozelo, distraidamente, no mesmo ritmo dos cascos. Puxei o braço para longe.

– Desculpa – murmurou ela, sem desviar o olhar de Arthur.

Fera ultrapassou o último obstáculo e o locutor anunciou um novo recorde de tempo na competição. Arthur e a égua pararam diante do portão e ele apeou, tirando as luvas de montaria com ar tranquilo, como se tivesse acabado de dar um passeio no parque, alheio aos aplausos.

Sempre metido a besta.

– Vou dar os parabéns a ele – disse Faith.

Captei uma expressão peculiar nos olhos da futura rainha do baile de formatura.
Faith desapareceu na multidão, em direção à saída, seguindo Arthur atrás da arena. Foi então que pensei no chicote de montaria. Fera não gostaria de ver o chicote. Arthur chegara até a pôr um cartaz de aviso no estábulo – um cartaz que eu via quase todo dia.

– Faith, espera – gritei, indo atrás dela.




Continua...

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