Um sorriso passou por seus
lábios.
– O sexo é um prazer fugaz.
Sem dúvida, um ato íntimo, que não deve ser descartado. É fundamental para a
procriação, além de ter outros benefícios óbvios.
O sorriso sumiu.
– Mas compartilhar o sangue
com outra pessoa... expor nosso ponto mais vulnerável, onde a pulsação bate
logo abaixo da pele, e confiar que seu parceiro irá se satisfazer sem
dominálo... Isso torna o sexo quase insignificante, em comparação. O sexo é um
ato desigual, do homem para a mulher. Mas o sangue... o sangue pode ser
compartilhado de modo verdadeiramente igual.
Ele parecia ter me esquecido
sentada ali do lado. Fiquei escutando, hipnotizada e... mais alguma coisa. Ou
talvez Arthur não tivesse esquecido minha presença. Seu olhar se virou de
repente para mim.
– Mas você acha que eu estou
delirando, que falo sobre impossibilidades, sobre atos irracionais. E está
certa: a existência de um vampiro é irracional. Nós somos um estudo sobre
impossibilidades. Safra de sangue. Dentes furando pontos de pulsação.
Continuava a parecer maluquice. Mas não era mais impossível. Ou mesmo
indesejável, pelo modo como Arthur descrevia. Não, nem um pouco.
– Arthur, eu vi você beber
sangue. Não é impossível.
– Ah, Lua. – Ele descruzou as
mãos de trás da cabeça. – Por que agora? Por que nessa altura do campeonato,
como diria o técnico Ferrin na quadra de basquete?
– Como assim “nessa altura do
campeonato”? Para mim parecia o início do jogo. Eu estava apenas começando a
entender. Começando a acreditar. Por mais difícil que fosse aceitar aquilo, eu
não podia mais negar. Acreditava que Arthur Aguiar era um vampiro. E que eu
podia, no mínimo, sentir o cheiro do sangue. Reagir a ele. Havia muito mais
para entender... para deduzir.
– Está dizendo que é tarde? –
insisti.
Arthur apoiou a cabeça nas
mãos, esfregando os olhos, aparentando cansaço.
– Por que fui contar toda essa
baboseira romântica? Eu me deixei ser levado. Droga, às vezes sou
irresponsável. Eu queria tanto que você entendesse e agora é o momento errado.
Desejei partilhar tudo isso com você antes. E então, quando demonstrou
interesse, não consegui me calar.
– Não pareceu “baboseira” –
garanti. Ao contrário, tudo o que ele dissera era intrigante, ainda que de um
modo perturbador, admito. – E por que não agora?
Mas antes que Arthur pudesse
responder, meu pai bateu à porta entreaberta.
– Arthur, visita para você. Arthur
se empertigou de novo e arqueou as sobrancelhas.
– Para mim? Visita?
Também fiquei surpresa. Que eu
soubesse, Arthur não havia cultivado muitas amizades nos Estados Unidos. Antes
que eu pudesse pensar em alguém, papai ficou de lado, a porta se abriu mais e
um narizinho petulante, preso a um rosto lindo enfeitado por cabelos tão claros
que praticamente reluziam, entrou hesitante no quarto.
– Oi, Arthur.
Arthur olhou em direção à
porta. Olhou com muita intensidade, quase como se nunca tivesse visto Faith
Cross. Presumi que ele estivesse furioso com ela por quase tê-lo matado. Mas
de repente seu rosto se abriu num sorriso. Um sorriso estranho. Como se
houvesse acabado de ter uma revelação.
– Bem-vinda, Faith – disse
ele. – Entre. Essa é mesmo uma surpresa agradável. Desculpe-me se não posso me
levantar para cumprimentá-la.
– Não, sou eu quem precisa
pedir desculpas – respondeu Faith, entrando no meu quarto com um beicinho
exagerado. – Acho que está preso aqui por minha culpa. – Ela examinou o quarto.
– Tipo, é horrível.
Estreitei os olhos para ela.
Está falando dos ferimentos do Arthur? Ou da minha decoração?
– Minha égua e eu estávamos em
rota de colisão desde o início – tranquilizou-a Arthur. – Eu flertei com a
inevitabilidade. Você só fez a cerimônia de casamento. Faith inclinou a cabeça,
como se não soubesse se ele a culpava ou não.
– Bem, espero que esteja se
sentindo melhor. – Ela remexeu na bolsa e pegou um iPod. – Trouxe um presente
de melhoras. Entregou o aparelho a Arthur, que sorriu para ela.
– Obrigado, Faith. Foi muita
gentileza. – Ele me lançou um olhar. – Acho que não vou mais precisar do seu, Lua.
– Imaginei que fosse ficar
entediado, preso na cama – acrescentou Faith, que ainda não havia admitido
minha existência. – É o modelo mais novo e você pode carregar as músicas que
quiser.
– Ele gosta de música croata –
observei. Não que alguém tivesse pedido minha participação.
Arthur levantou um dedo.
– E do Black Eyed Peas. E não
se esqueça do Hoobastank. Será que alguém pode se esquecer do Hoobastank?
– Verdade? – guinchou Faith,
batendo palmas. – Eu também adoro o Hoobastank.
Arthur fez um gesto para a
cama.
– Por favor, sente-se, Faith.
Três seria definitivamente de
mais no meu colchão estreito de solteiro, ainda mais com um vampiro de mais de
1,80 metro esparramado ali. Por isso me levantei. De qualquer modo, eu não
estava muito a fim de passar o meu tempo com uma líder de torcida grosseira e
egoísta.
– Acho que já vou.
– Tchau, Rebeca. Faith me
dispensou e ocupou o meu lugar perto de Arthur. Deixou-se cair com força na
cama e ele se encolheu, quase imperceptivelmente.
– Cuidado com a perna dele –
avisei, pensando em como ela era uma bruxa que só pensava em si mesma.
– Lua – chamou Arthur quando
cheguei perto da porta. – Espere.
– O que é? Precisa de alguma
coisa?
– Não. Tenho algo para você.
Continua...

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