terça-feira, 4 de abril de 2017

Prometida a um vampiro - Cap.68


Um sorriso passou por seus lábios.
– O sexo é um prazer fugaz. Sem dúvida, um ato íntimo, que não deve ser descartado. É fundamental para a procriação, além de ter outros benefícios óbvios.
O sorriso sumiu.
– Mas compartilhar o sangue com outra pessoa... expor nosso ponto mais vulnerável, onde a pulsação bate logo abaixo da pele, e confiar que seu parceiro irá se satisfazer sem dominálo... Isso torna o sexo quase insignificante, em comparação. O sexo é um ato desigual, do homem para a mulher. Mas o sangue... o sangue pode ser compartilhado de modo verdadeiramente igual.
Ele parecia ter me esquecido sentada ali do lado. Fiquei escutando, hipnotizada e... mais alguma coisa. Ou talvez Arthur não tivesse esquecido minha presença. Seu olhar se virou de repente para mim.
– Mas você acha que eu estou delirando, que falo sobre impossibilidades, sobre atos irracionais. E está certa: a existência de um vampiro é irracional. Nós somos um estudo sobre impossibilidades. Safra de sangue. Dentes furando pontos de pulsação. Continuava a parecer maluquice. Mas não era mais impossível. Ou mesmo indesejável, pelo modo como Arthur descrevia. Não, nem um pouco.
– Arthur, eu vi você beber sangue. Não é impossível.
– Ah, Lua. – Ele descruzou as mãos de trás da cabeça. – Por que agora? Por que nessa altura do campeonato, como diria o técnico Ferrin na quadra de basquete?
– Como assim “nessa altura do campeonato”? Para mim parecia o início do jogo. Eu estava apenas começando a entender. Começando a acreditar. Por mais difícil que fosse aceitar aquilo, eu não podia mais negar. Acreditava que Arthur Aguiar era um vampiro. E que eu podia, no mínimo, sentir o cheiro do sangue. Reagir a ele. Havia muito mais para entender... para deduzir.
– Está dizendo que é tarde? – insisti.
Arthur apoiou a cabeça nas mãos, esfregando os olhos, aparentando cansaço.
– Por que fui contar toda essa baboseira romântica? Eu me deixei ser levado. Droga, às vezes sou irresponsável. Eu queria tanto que você entendesse e agora é o momento errado. Desejei partilhar tudo isso com você antes. E então, quando demonstrou interesse, não consegui me calar.
– Não pareceu “baboseira” – garanti. Ao contrário, tudo o que ele dissera era intrigante, ainda que de um modo perturbador, admito. – E por que não agora?
Mas antes que Arthur pudesse responder, meu pai bateu à porta entreaberta.
– Arthur, visita para você. Arthur se empertigou de novo e arqueou as sobrancelhas.
– Para mim? Visita?
Também fiquei surpresa. Que eu soubesse, Arthur não havia cultivado muitas amizades nos Estados Unidos. Antes que eu pudesse pensar em alguém, papai ficou de lado, a porta se abriu mais e um narizinho petulante, preso a um rosto lindo enfeitado por cabelos tão claros que praticamente reluziam, entrou hesitante no quarto.
– Oi, Arthur.
Arthur olhou em direção à porta. Olhou com muita intensidade, quase como se nunca tivesse visto Faith Cross. Presumi que ele estivesse furioso com ela por quase tê-lo matado. Mas de repente seu rosto se abriu num sorriso. Um sorriso estranho. Como se houvesse acabado de ter uma revelação.
– Bem-vinda, Faith – disse ele. – Entre. Essa é mesmo uma surpresa agradável. Desculpe-me se não posso me levantar para cumprimentá-la.
– Não, sou eu quem precisa pedir desculpas – respondeu Faith, entrando no meu quarto com um beicinho exagerado. – Acho que está preso aqui por minha culpa. – Ela examinou o quarto. – Tipo, é horrível.
Estreitei os olhos para ela. Está falando dos ferimentos do Arthur? Ou da minha decoração?
– Minha égua e eu estávamos em rota de colisão desde o início – tranquilizou-a Arthur. – Eu flertei com a inevitabilidade. Você só fez a cerimônia de casamento. Faith inclinou a cabeça, como se não soubesse se ele a culpava ou não.
– Bem, espero que esteja se sentindo melhor. – Ela remexeu na bolsa e pegou um iPod. – Trouxe um presente de melhoras. Entregou o aparelho a Arthur, que sorriu para ela.
– Obrigado, Faith. Foi muita gentileza. – Ele me lançou um olhar. – Acho que não vou mais precisar do seu, Lua.
– Imaginei que fosse ficar entediado, preso na cama – acrescentou Faith, que ainda não havia admitido minha existência. – É o modelo mais novo e você pode carregar as músicas que quiser.
– Ele gosta de música croata – observei. Não que alguém tivesse pedido minha participação.
Arthur levantou um dedo.
– E do Black Eyed Peas. E não se esqueça do Hoobastank. Será que alguém pode se esquecer do Hoobastank?
– Verdade? – guinchou Faith, batendo palmas. – Eu também adoro o Hoobastank.
Arthur fez um gesto para a cama.
– Por favor, sente-se, Faith.
Três seria definitivamente de mais no meu colchão estreito de solteiro, ainda mais com um vampiro de mais de 1,80 metro esparramado ali. Por isso me levantei. De qualquer modo, eu não estava muito a fim de passar o meu tempo com uma líder de torcida grosseira e egoísta.
– Acho que já vou.
– Tchau, Rebeca. Faith me dispensou e ocupou o meu lugar perto de Arthur. Deixou-se cair com força na cama e ele se encolheu, quase imperceptivelmente.
– Cuidado com a perna dele – avisei, pensando em como ela era uma bruxa que só pensava em si mesma.
– Lua – chamou Arthur quando cheguei perto da porta. – Espere.
– O que é? Precisa de alguma coisa?
– Não. Tenho algo para você.

Continua...

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