quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Casamento por conviniência


Cap.44

Com as mãos trêmulas, Lua olhou para a palavra "positivo". Ela engoliu em seco. Estava contente? Triste? Ou simplesmente aturdida?



— Obrigada, doutor — ela disse, com a voz embargada.


— Volte em duas semanas para vermos como está. Os enjôos ma­tinais devem passar depois dos três primeiros meses, ou até mesmo antes disso. Chá com torradas é o melhor remédio. Mas depois você precisa comer adequadamente, bastantes legumes e comida nutritiva, se exercitar, é claro. Recomendo natação e caminhada.


— E quanto ao tênis? — perguntou Lua.


— Você mencionou uma ligeira dor, então não recomendo nada muito vigoroso no momento.


— Está certo.


Cinco minutos depois, ela estava na limusine do avô, pensando no que fazer. Certamente contaria a Dona Kátia, mas e quanto a Arthur? Será que ele pensaria que isso apagaria os problemas deles? Ele veria isso como uma forma de esclarecer as coisas, como queria?


Lua sentiu um enorme desejo de comer rosbife. Estranho. Jamais fora muito fã de rosbife, mas agora, só de pensar nisso sua boca se enchia de água e ela mal conseguia pensar em outra coisa.


Em seguida o celular dela tocou.


— Alô.


— Oi, sou eu. Estava à sua procura.


— Quem está falando? — ela perguntou, mordendo o lábio. Ele estava tão arrogante e presunçoso que ela não pôde resistir.


— O que você vai fazer no almoço?


— Comer rosbife. — Ela falou sem pensar.


— Comer ros... Bem, está certo. Por que não vou com você? Onde você está?


— Estou no carro, passando por Picadilly Circus.


— Então me encontre no Wilton`s. Estarei lá em vinte minutos.


— Mas... — Lua ia dizer que não sabia se queria almoçar com ele, mas desistiu. Francamente, o rosbife era mais importante, e o Wilton`s tinha um dos melhores da cidade.

O carro seguiu até a Jermyn Street e ela entrou no restaurante
— Acho que meu... Meu marido — a palavra ainda travava seus lábios — ligou reservando uma mesa — ela disse ao garçom.


— Sim, é claro, Sra. Aguiar. Por aqui, por favor.


Lua o seguiu pelo restaurante e foi conduzida a uma das mesas reservadas. Dentro dela desenvolvia-se um ser que precisava ser pro­tegido e defendido do mal. Pensar nisso provocou uma onda de emo­ção em todo o seu corpo. Instintivamente ela tocou a barriga e respi­rou fundo. Mas ainda não tinha idéia do que diria a Arthur.


Então ele estava diante dela, se inclinando em sua direção, fazen­do com que seu coração se sobressaltasse. Quando ele sentou-se no banco oposto, ela olhou para ele, para o homem que, apesar de tudo, lhe despertava tanta saudade — e era o pai de seu filho, ela lembrou-se desconfortavelmente.


— Champanhe, Lua?


— Não, obrigada. Quero só água por enquanto. Arthur estranhou.


— Você ainda está indisposta? — ele perguntou, preocupado.


— Não, não. Estou muito bem, na verdade. Mas com muita fome.


— Sei. Este é um bom sinal. Acho que devemos pedir agora. Você ainda quer rosbife?


— Com certeza! — Ela riu e então eles sorriram um para o outro. — Com todos os acompanhamentos.


Arthur pediu, então olhou para ela. Ela parecia tensa e ele imagi­nava o que a estaria incomodando. Com certeza não eram apenas os problemas dos dois. Ela não mencionara o divórcio novamente e fora bastante receptiva ao convite para o almoço. Mas dessa vez ele não iria tão rapidamente ao assunto.


— Vou ter que me ausentar por uns dias — ele salientou depois que o garçom serviu-lhe uma taça de vinho.


— É? E para onde você vai? Voltar para Buenos Aires? — Ele captou a alfinetada na voz dela e escondeu um sorriso.


— Não. Vou para Nova York. Preciso visitar os escritórios de seu avô lá e lidar com alguns de meus negócios também.


— Sei. — Lua esperou um momento e então sentiu certo desapontamento por ele não tê-la convidado para ir junto. Não que ela fosse, é claro, mas ele poderia pelo menos ter perguntado.


— Não quer vinho? — perguntou Arthur.


— Não, obrigada. — Lua olhou para a garrafa e sentiu o estôma­go revirar.


— Tem certeza de que está bem? — perguntou Arthur, franzindo a testa. O rosto dela ficou meio verde com a simples menção do vinho e ele quis saber por quê.


A cabeça de Lua estava funcionando a mil.


— Quando você vai partir? — ela perguntou dividida entre contar a ele naquele momento ou esperar sua volta para decidir o que faria.


— Vou amanhã de manhã.


— E quanto tempo você pretende ficar lá?


— Alguns dias. Ainda não sei exatamente quantos — ele acres­centou. — Depende dos acontecimentos. Devo aproveitar o fim de semana para ir a Newport. Alguns amigos têm um belo veleiro, até disputaram a Américas Cup com ele, então pensei em velejar um pouco.


Lua tentou controlar as emoções. Ali estava ela, com a notícia mais bombástica que já a atingira em sua jovem vida, e ele ia velejar. Devia saber disso. Bem, que ele fosse velejar e fazer o que mais lhe desse vontade. Quem se importava? Ela não contaria a ele agora. Ele que esperasse.


Continua..?

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