Cap.44
Com as mãos trêmulas, Lua olhou para a palavra "positivo". Ela engoliu em seco. Estava contente? Triste? Ou simplesmente aturdida?
— Obrigada, doutor
— ela disse, com a voz embargada.
— Volte em duas
semanas para vermos como está. Os enjôos matinais devem passar depois dos três
primeiros meses, ou até mesmo antes disso. Chá com torradas é o melhor remédio.
Mas depois você precisa comer adequadamente, bastantes legumes e comida
nutritiva, se exercitar, é claro. Recomendo natação e caminhada.
— E quanto ao
tênis? — perguntou Lua.
— Você mencionou
uma ligeira dor, então não recomendo nada muito vigoroso no momento.
— Está certo.
Cinco minutos
depois, ela estava na limusine do avô, pensando no que fazer. Certamente
contaria a Dona Kátia, mas e quanto a Arthur? Será que ele pensaria
que isso apagaria os problemas deles? Ele veria isso como uma forma de
esclarecer as coisas, como queria?
Lua sentiu um
enorme desejo de comer rosbife. Estranho. Jamais fora muito fã de rosbife, mas
agora, só de pensar nisso sua boca se enchia de água e ela mal conseguia pensar
em outra coisa.
Em seguida o
celular dela tocou.
— Alô.
— Oi, sou eu.
Estava à sua procura.
— Quem está falando?
— ela perguntou, mordendo o lábio. Ele estava tão arrogante e presunçoso que
ela não pôde resistir.
— O que você vai
fazer no almoço?
— Comer rosbife. —
Ela falou sem pensar.
— Comer ros...
Bem, está certo. Por que não vou com você? Onde você está?
— Estou no carro,
passando por Picadilly Circus.
— Então me
encontre no Wilton`s. Estarei lá em vinte minutos.
— Mas... — Lua ia
dizer que não sabia se queria almoçar com ele, mas desistiu. Francamente, o
rosbife era mais importante, e o Wilton`s tinha um dos melhores da cidade.
O carro seguiu até a Jermyn Street e ela entrou no restaurante
— Acho que meu... Meu
marido — a palavra ainda travava seus lábios — ligou reservando uma mesa — ela
disse ao garçom.
— Sim, é claro, Sra.
Aguiar. Por aqui, por favor.
Lua o seguiu pelo
restaurante e foi conduzida a uma das mesas reservadas. Dentro dela
desenvolvia-se um ser que precisava ser protegido e defendido do mal. Pensar nisso
provocou uma onda de emoção em todo o seu corpo. Instintivamente ela tocou a
barriga e respirou fundo. Mas ainda não tinha idéia do que diria a Arthur.
Então ele estava
diante dela, se inclinando em sua direção, fazendo com que seu coração se
sobressaltasse. Quando ele sentou-se no banco oposto, ela olhou para ele, para
o homem que, apesar de tudo, lhe despertava tanta saudade — e era o pai de seu
filho, ela lembrou-se desconfortavelmente.
— Champanhe, Lua?
— Não, obrigada.
Quero só água por enquanto. Arthur estranhou.
— Você ainda está
indisposta? — ele perguntou, preocupado.
— Não, não. Estou
muito bem, na verdade. Mas com muita fome.
— Sei. Este é um
bom sinal. Acho que devemos pedir agora. Você ainda quer rosbife?
— Com certeza! —
Ela riu e então eles sorriram um para o outro. — Com todos os acompanhamentos.
Arthur pediu,
então olhou para ela. Ela parecia tensa e ele imaginava o que a estaria
incomodando. Com certeza não eram apenas os problemas dos dois. Ela não
mencionara o divórcio novamente e fora bastante receptiva ao convite para o
almoço. Mas dessa vez ele não iria tão rapidamente ao assunto.
— Vou ter que me
ausentar por uns dias — ele salientou depois que o garçom serviu-lhe uma taça
de vinho.
— É? E para onde
você vai? Voltar para Buenos Aires? — Ele captou a alfinetada na voz dela e
escondeu um sorriso.
— Não. Vou para
Nova York. Preciso visitar os escritórios de seu avô lá e lidar com alguns de
meus negócios também.
— Sei. — Lua
esperou um momento e então sentiu certo desapontamento por ele não tê-la
convidado para ir junto. Não que ela fosse, é claro, mas ele poderia pelo menos
ter perguntado.
— Não quer vinho?
— perguntou Arthur.
— Não, obrigada. —
Lua olhou para a garrafa e sentiu o estômago revirar.
— Tem certeza de
que está bem? — perguntou Arthur, franzindo a testa. O rosto dela ficou meio
verde com a simples menção do vinho e ele quis saber por quê.
A cabeça de Lua
estava funcionando a mil.
— Quando você vai
partir? — ela perguntou dividida entre contar a ele naquele momento ou esperar
sua volta para decidir o que faria.
— Vou amanhã de
manhã.
— E quanto tempo
você pretende ficar lá?
— Alguns dias.
Ainda não sei exatamente quantos — ele acrescentou. — Depende dos
acontecimentos. Devo aproveitar o fim de semana para ir a Newport. Alguns
amigos têm um belo veleiro, até disputaram a Américas Cup com ele, então pensei
em velejar um pouco.
Lua tentou
controlar as emoções. Ali estava ela, com a notícia mais bombástica que já a
atingira em sua jovem vida, e ele ia velejar. Devia saber disso. Bem, que ele
fosse velejar e fazer o que mais lhe desse vontade. Quem se importava? Ela não
contaria a ele agora. Ele que esperasse.
Continua..?

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