(Três — Confirmação)
“E ele tem a mania estúpida de me fazer sorrir.”
Karina soltou um grito que abafou com a almofada do sofá. Pedro era totalmente sem noção, ele havia roubado um beijo dela, Ok, está bom, que nem foi um beijo de verdade, selinho não pode ser considerado beijo. No entanto, ela sabia que aquilo fazia parte do jogo de Pedro, afinal ele tinha aceitado rápido demais, era tudo um jogo, no qual ela estava disposta a entrar e ganhar.
Já que era isso que eles sempre faziam, jogavam um com o outro, tornavam tudo mais confuso e complicado de se resolver. Sempre foi assim, sempre deu certo assim então pra que mudar. Não é que o que diz o ditado: “ em time que se está ganhando não se mexe”?
A sorte é que já estavam em dezembro e entrariam em recesso em uma semana, e pela carta de Bianca teriam que ficar no Rio nas duas últimas semanas de dezembro e todo o mês de janeiro, já que eles se casariam somente no final do mês. Um mês e duas semanas sendo namorada de Pedro, não seria nada fácil pra ela, já que tinha a certeza que se aproveitaria da situação.
Finalmente tomou coragem e foi para o quarto, talvez se dormisse tudo não passasse de um pesadelo louco que ela tivesse. Torcia mentalmente para que fosse isso, mesmo que soubesse que não era verdade. Deitou na cama e suspirou pensando no dia que teve.
Ela ficara três horas, basicamente rodando pelo o quarteirão quando esbarrou em Lucas, ele morava no andar de cima. Sempre dava em cima dela, não que ela gostasse dele, mas sempre fazia um joguinho, sempre era bom para manter a autoestima. Afinal, ela era a Karina nunca era paquerada quanto as outras meninas da faculdade, quanto Bianca era quando moravam juntas.
Sua cama nunca pareceu tão aconchegante quando naquele instante, só precisou virar para o lado, agarrar um travesseiro que o sono lhe chegou.
. . .
Karina acordou com barulhos de panelas caindo no chão, sua cabeça deu uma leve fisgada, odiava acordar no susto ou com barulho que não fosse o despertador, sempre lhe dar dor de cabeça.
Levantou resmungando, pegou uma roupa descente no armário e foi para o banheiro no corredor. Tomou um banho rápido, escovou os dentes, colocou as roupas e saiu em direção à cozinha.
— Está tentando destruir a casa, idiota? — ela perguntou amarga.
— Claro que não, amor. — ele sorria falsamente — Só estou fazendo o café da manhã da minha namorada.
Foi tudo o que ele disse antes de puxá-la pela cintura e aproximar seus rostos, Karina não entendia muito bem porque não recuava, ou sabia e não estava ligando, a respiração quente dele se misturava com a dela e já era quase impossível não olhar para os lábios rosados dele. Pedro teve a coragem de finalmente acabar com a sequência de troca de olhares ao aproximar mais ainda os seus rostos e roçou os lábios dele nos dela, ficou nisso até finalmente a beijar de verdade. Os lábios de Pedro eram ferozes sobre os seus. Karina não tinha outra reação a não ser corresponder com entusiasmo aquele beijo.
“Isso é errado”, dizia a mente dela, mas o corpo dizia outra coisa. Dizia pra aproveitar bem aquela boca sobre a dela. Como Karina havia se esquecido de como é beijar Pedro? Como conseguiu esquecer as sensações que a língua dele em sua boca a fazia sentir? De algum lugar que ela não sabia aonde, um barulho ensurdecedor soava tão irritante que a fez se largar de Pedro e abrir os olhos.
Merda, merda, merda. Karina não podia acreditar que tinha sonhado com Pedro, ela havia sonhado que beijava e gostava de ser beijada por Pedro. Louca, era isso que ela estava sendo. Como o sono não voltaria daquele sonho no mínimo perturbador, ela resolveu levantar.
. . .
Quando fora para a cozinha, Pedro não estava lá. Deu graças a Deus internamente. Não queria topar com ele enquanto o maldito sonho não saísse de sua mente. Fez um sanduiche e comeu junto com um copo de suco de maracujá que tinha dentro da geladeira, provavelmente Pedro havia feito, sendo a única coisa que ele sabe fazer de comida.
Comeu calmamente, e foi para sala se jogando no sofá e ligando a TV. Passava maratona da terceira temporada de Teen Wolf, a série já havia acabado há uns dois anos, era completamente viciada naquele seriado, em Stiles e Isaac principalmente. Já estava no episodio 16 quando o telefone tocou.
— Alô? Posso falar com a Karina?
— É ela.
— Ka? É a Bianca, irmã. — ouviu a voz entusiasmada da outra.
— Fala Bia, tudo bem?
— Tudo sim, eu só liguei pra saber se você virá mesmo.
— Claro, é o seu casamento, nunca faltaria. — Sua voz saiu absurdamente firme.
— E vai trazer seu namorado? Senão eu vou ter que convidar outro padrinho.
— Ele vai também, Bianca. — Revirou os olhos.
— Que bom, mandei as passagens de vocês, hoje ou amanhã elas chegam aí.
— Obrigada — era raro a garota agradecer alguém — os nossos salários do estágio é pras contas e pra comida e olhe lá.
— Nossos? K, vocês moram juntos? Eu conheço? Qual é o nome dele.
— Sim moramos juntos e você vai descobrir isso semana que vem. — Sorriu travessa, sabia que a irmã ficaria curiosa.
— Karina, conta logo.
A porta abriu e Karina viu Pedro entrando, um pouco suado e com o skate na mão. Ele olhou pra ela e apenas mexendo os lábios perguntou quem era.
— Bianca, olha, eu tenho que terminar o bolo que estou fazendo, liga mais tarde. — Mentiu.
— Tudo bem, obrigada por vir, amo você sua chata.
— Eu também. Eu também amo você. — Saiu fraco, quase como um sussurro, mas parecia lhe tirar o peso que sentia.
Desligou o telefone, e olhou para Pedro que havia sentado ao seu lado, ele estava lá parado apenas olhando pra ela sério para ela.
— Poxa, K. A gente mal começou a namorar e você está dizendo que ama outro?
A garota não pode impedir a gargalhada, ele tinha a incrível mania de fazer as pessoas rirem em momentos não tão apropriados. E sempre fazia aquilo sério, era natural. E pensar que antigamente qualquer piadinha que ele fizesse ela quase arrancara a cabeça dele. Talvez nos dias de hoje também, mas não tanto assim.
— Era sua irmã né? O que ela queria? — ele perguntou curioso.
— Só a confirmação que iriamos mesmo e falou que mandou as nossas passagens por carta.
— Devem estar nesse bolo de envelope que eu trouxe. Seu João ainda me mandou entregar as dos outros vizinhos aqui do andar. Cada dia mais folgado.
— Ele aprendeu contigo, só pode. — ela disse mexendo nas cartas. — Fatura de cartão. Convite de abertura de restaurante, conta de telefone, conta da TV a cabo. Achei, carta da Bianca. — Balançou a carta e Pedro a pegou.
— As duas passagens na classe econômica, marcada duas semanas antes do Natal, vamos ficar num sítio com o casal, a família deles e os outros padrinhos do casamento.
— Duca e Bianca devem ter guardado um dinheirão, pra alugar um sítio.
— Pra alugar um sitio na Região dos Lagos, só pra constar, um sítio em Arraial do Cabo.
— Amo as praias de lá.
— E eu os lugares para explorar. — o garoto fez pose.
— Acredito Dora Aventureira, Acredito.
Pedro fingiu-se de bravo e fechou a cara.
— Nem adianta fazer bico, bebê. Se ficar de palhaçada todas as louças do dia são por sua conta.
. . .
Já estava na hora do almoço e Karina terminava de fazer o almoço, enquanto Pedro apenas ficava sentado no balcão a olhando. E isso estava a irritando, afinal ele olhava cada passo que ela dava.
— Tem como parar de olhar? — a loira perguntou ríspida. — Está me incomodando e muito.
— Só estou analisando.
— Analisando o que? Não tem nada pra analisar aqui, babaca.
— No meu ponto de vista tem muita coisa.
— Que coisas? — pergunta não dando muita atenção a ele.
— Seu rosto parece mais fino agora com seu cabelo comprido do que quando era curtinho. Seus olhos brilham mais quanto está fazendo algo que gosta, tipo agora que você está cozinhando. Você não é nem tão magra, nem tão gorda e seu corpo é proporcional e você tem belos seios. — ele disse “inocentemente” olhando para ela, ou melhor, para o decote dela.
— Você é um tarado, sabia que isso é quase assedio sexual?
— É claro que não é, você que é exagerada demais, Esquentadinha.
— Tem como parar de me chamar de Esquentadinha? Eu sinto vontade de socar sua cara.
— Está vendo como você é? Que me matar só por causa de apelido fofo.
Pedro saltou da bancada e sorriu pra ela. Algo que ele fazia muito e chegava a ser irritante na perspectiva de Karina, era muito raro o ver com raiva como na noite anterior, ou sem fazer piadinhas estupidas a respeito de tudo. Com toda certeza era o oposto dele.
— Você é um ridículo, eu ainda nem sei como deixei você morar aqui.
— Eu sei como. Eu sou músico, tenho o cabelo legal, sou quase um humorista, eu sou o homem perfeito.
— Ok, homem perfeito, me diz o porquê estava me analisando.
— Eu antes de dormir estava pensando, nos conhecemos há muito tempo, mas nunca nos reparamos direito. — revelou — e se vamos ser namorados temos que nós conhecer nos mínimos detalhes.
Karina desligou o fogo e olhou para ele, não havia se lembrado desse processo do namoro, eles precisavam de uma história de como começaram a namorar e como iriam se mostrar apaixonados para os outros.
— Tem razão, depois do almoço a gente combina como fica isso. — Ela respondeu.

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