segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Casamento por conveniência


Cap.43


— Mas não é possível. Quero dizer, essas coisas não acontecem assim, certo?


— Depende. Você usou algum contraceptivo?


— Oh, não. Não pensei sobre isso. Eu...


— Bem, nesse caso existe uma forte possibilidade de você estar grávida. Enjoos matinais são um dos sintomas. Eu os tinha muito quando engravidei de Arthur.


Lua ficou em choque. Grávida. Esperando um bebê de Arthur. O que faria?


— Dona Kátia, por favor, não fale nada a Arthur. Pelo menos até eu ter certeza de que estou realmente grávida. As coisas não es­tão... Bem, a senhora sabe, elas não estão... Indo muito bem entre nós agora. Preciso tomar minhas próprias decisões.


— Compreendo querida, mas deixe-me marcar uma consulta para você com um ginecologista. Ele poderá dizer se você está grávida ou não e a partir daí teremos uma posição. Por enquanto, quero que se deite no sofá e ponha as pernas para cima. Aqui. — Dona Kátia colocou outra almofada atrás das costas de Lua — E um chá de ervas pode ajudar. Vou pedir para a empregada preparar um imedia­tamente — ela disse.


Um bebê.


Como seria? Menino ou menina? E se ela e Arthur...? Não conseguia pensar sobre isso. Como ele reagiria ao saber que ela estava grávida? Essa gravidez não poderia ter vindo em pior momento, ela pensou atordoada com as novas emoções de imaginar uma pequena pessoa crescendo dentro dela e de lembrar que ela e Arthur estavam tão separados.


Ela suspirou, fechou os olhos e deixou Dona Kátia cuidar das coisas, pedindo chá e cobrindo as pernas dela com uma caxemira, antes de pegar o telefone para fazer algumas ligações.


Alguns minutos depois, ela voltou para o lado de Lua.


— Consegui uma consulta para você amanhã de manhã, às onze. Posso ir com você, mas entenderei se quiser ir sozinha.


— Obrigada — Lua sorriu, agradecida. — Se a senhora não se importar, prefiro ir sozinha.


— Entendo querida. Mas por favor, me ligue quando souber o resultado.


— E a senhora não contará a Arthur?


— Eu não prometi que esse seria nosso segredo? Mas tem uma condição: você tem que me deixar cuidar de você. Afinal, pode estar esperando meu neto — ela acrescentou.


— Claro. A senhora tem sido maravilhosa. Muito obrigada.


— Imagina. Estou feliz por finalmente ter uma filha para mimar.


— Sim — respondeu Lua, hesitante. E se ela e Arthur se separas­sem? E então?


Mas não era a hora para tais pensamentos, tinha apenas que atra­vessar o resto daquele dia e então ir ao médico saber a verdade. De­pois disso, teria tempo para encontrar as respostas para seus dilemas.

**************

Havia algo de errado com os números.


Arthur franziu o cenho. Estudara as auditorias várias vezes e algo não batia. Pegou as folhas onde circulara em vermelho vários itens e reviu-as novamente. E não era só aquilo, pensou, enquanto se recostava na ampla cadeira de couro. Sentia que havia outras coisas acon­tecendo no gerenciamento de algumas das empresas de Billy. Mas como ainda não tinha definido o que era, não queria se expor sem ter certeza dos fatos.


E ele poderia levar algum tempo para descobrir.


Ele não confiava no sofisticado Sr. Wilfred, com suas respostas prontas e suaves e sua atitude ligeiramente condescendente. Na ver­dade imaginava por quanto tempo ele já vinha desfalcando Billy. Muito tempo, provavelmente. Certamente desde que ele adoe­ceu e foi obrigado a se afastar das rotinas diárias, transferindo seus afazeres. E ainda havia a equipe de advogados de confiança, que parecia ter excessivo poder sobre a estrutura do holding.


Teria que investigar um pouco, mas Arthur estava determinado a ir até o fim. No entanto, aqueles problemas não o impediam de ima­ginar como lidaria com a maior de todas as questões: sua esposa.


Lua estava sendo obstinada e difícil. Ele pensou que na noite anterior ela finalmente o ouviria, deixaria que ele explicasse e talvez eles conseguissem remover o obstáculo que havia entre deles. Ele pensou nela, dócil e entregue em seus braços, e seu corpo reagiu imediatamente. Ela era linda. A idéia de que ele poderia desejar outra mulher quando a tinha em seus braços chegava a ser divertida de tão absurda. Mas era exatamente isso o que ela pensava, que ele se casara com ela por conveniência — o que era verdade — e que planejava continuar com a mesma vida amorosa de antes.


E sua outra preocupação era a saúde dela. Ela parecia melhor ontem à noite, mas quando ele ligara para ela há meia hora, na esperança de convencê-la a almoçar com ele, a empregada disse que ela estava indisposta e que não podia ser incomodada.


De repente, Arthur levantou-se e pegou seu paletó nas costas da cadeira. Aquilo era ridículo. Se estava doente, tinha que ir ao médico. Ele se dirigiu para fora do escritório.


— Volto mais tarde, srta. Brown. Por favor, avise a Morton — ele falou com a secretária de Billy.


— Certo, senhor.


— Vou ligar para saber se houve alguma ligação importante. E o sr. Wilfred, já chegou?


— Não, senhor. Ele tinha uma reunião na cidade esta manhã com os banqueiros americanos, por conta da Carvajal Oil.


— Mas eu disse claramente que seria eu a presenciar essa reunião — estranhou Arthur, preso entre o desejo de ir ao encontro de Lua e o entendimento de que deveria ficar para ser informado do que estava acontecendo. — Droga. Por que não fui avisado?


— Desculpe, mas só fiquei sabendo das novidades por acaso, se­nhor. — Pela primeira vez, a srta. Brown trocou um prolongado olhar com ele.


— Sei. Bem, futuramente acho que devemos manter nossos olhos e ouvidos bem atentos, srta. Brown — respondeu Arthur, ciente de que ela, assim como Morton, trabalhara mais de trinta anos para Billy, que tinha a maior consideração por ambos. Se ele tivesse que confiar em alguém, certamente ela seria a opção.


Girando nos calcanhares, ele pegou o velho elevador com porta pantográfica e desceu até o térreo, onde pegou o primeiro táxi que apareceu. Lua teria que esperar. Os assuntos em questão eram muito importantes para serem ignorados. Não seria nada mau se os america­nos soubessem que ele estava à frente da Carvajal, e era com ele que teriam que lidar de agora em diante.

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No consultório do médico, Lua se vestiu novamente e sentou-se do lado oposto da escrivaninha do Dr. Langtry.


— Só mais alguns minutos, Sra. Aguiar, enquanto verificamos o exame. Todos os sintomas parecem indicar que a senhora está real­mente esperando um bebê, mas precisamos ter certeza.


Naquele momento, a enfermeira entrou e entregou a ele um papel.


— Obrigado. — O médico passou os olhos no resultado.


— Bem, Sra. Aguiar, veja a senhora mesma — ele disse, dando a ela o papel.

— A senhora está esperando um bebê para abril.



Continua..?

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