terça-feira, 24 de maio de 2016

Amante da fantasia - Cap. 79


- Como?


Arthur ficou em silêncio por um longo instante antes de voltar a falar.


- Eu conheci Jasão logo depois que minha madrasta me enviou para viver no quartel.


Lua recordou-se vagamente de Mel lhe contando a respeito dos quartéis espartanos, onde os filhos eram forçados a viver afastados de seus lares e de suas famílias. Sempre pensara naqueles locais como uma espécie de colégio interno.


- Quantos anos você tinha?


- Sete.


Incapaz de imaginar-se sendo afastada de seus pais com aquela idade, Lua arfou.


- Não havia nada de incomum nisso. - ele falou sem fitá-la. - E eu era grande para a idade. Além disso, viver no quartel era infinitamente preferível a morar com a minha madrasta.


Ao notar a hostilidade na voz dele, imaginou como a mulher teria sido.


- Jasão vivia no quartel com você?


- Sim. Cada quartel era dividido em grupos, e escolhíamos o garoto que queríamos que nos liderasse. Jasão era o líder do meu grupo.


- O que esses grupos faziam?


- Funcionávamos como uma unidade militar. Estudávamos, realizávamos tarefas diversas, mas, acima de tudo, nos arrebanhávamos para sobreviver.


- Sobreviver a quê?


- Ao estilo de vida espartano. - respondeu com aspereza. - Não sei o quanto você sabe a respeito do povo de meu pai, mas eles não tinham os mesmos luxos dos outros gregos. Os espartanos queriam apenas uma coisa de seus filhos. Queriam que nos transformássemos na maior força de combate do mundo antigo. Para nos prepararmos para o futuro, éramos ensinados a sobreviver com o mínimo. Recebíamos uma túnica por ano e, se ela fosse estragada, perdida ou se ficasse pequena, precisávamos nos virar sem ela. Apenas tínhamos permissão para possuir uma cama se a construíssemos nós mesmos. E, assim que chegávamos à puberdade, não podíamos mais usar sapatos. - Ele deu uma risada amarga. - Ainda me lembro de como meus pés doíam no inverno. Éramos proibidos de acender fogueiras ou de usar cobertores para nos aquecer. Então, à noite, amarrávamos trapos em volta dos pés para evitar que enregelassem. De manhã, carregávamos os corpos dos meninos que tinham morrido durante o sono.


Lua encolheu-se ao ouvi-lo descrever aquele mundo. Tentou imaginar como teria sido viver lá.


Lembrou-se do escândalo que fizera aos treze anos por causa de um par de sapatos que sua mãe julgara inadequados enquanto, com a mesma idade, Arthur estava vivendo à custa de trapos.


A injustiça daquilo mexeu com ela.



Continua...

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