terça-feira, 24 de maio de 2016

Amante da fantasia - Cap. 80


- Vocês eram apenas crianças.


- Eu nunca fui criança. - ele afirmou. - Porém, o pior de tudo era que não nos davam comida suficiente e éramos forçados a furtar para não morrermos de fome.


- E os pais permitiam que isso acontecesse?


Ele lhe lançou um olhar sardônico por sobre o ombro.


- Eles achavam que era seu dever cívico. E, uma vez que meu pai era o stratgoi espartano, a maioria dos meninos e dos professores me desprezava assim que me via. Eu era contemplado com ainda menos comida do que os demais.


- Seu pai era o quê? - ela perguntou, sem compreender o termo em grego.


- O general mais importante, digamos assim. - Ele inspirou profundamente e prosseguiu: - Por causa de sua posição e reputação de crueldade, eu era um pária para o meu grupo. Enquanto eles se uniam para furtar, eu era deixado por conta própria, para sobreviver da melhor forma possível. Um dia, Jasão foi pego furtando pão. Quando retornamos ao quartel, ele iria ser punido por ter sido apanhado. Então eu me adiantei e levei a culpa.


- Por quê?


Ele deu de ombros, como se o assunto fosse de pouca importância.


- Ele estava muito fraco por causa do espancamento que tinha sofrido, e eu não achei que ele sobreviveria a outro.


- Por que eles o tinham espancado?


- Era dessa forma que começávamos o dia. Assim que nos arrastavam da cama, éramos severamente espancados.


Lua estremeceu.


- Então, por que você apanharia por ele, se também estava dolorido?


- Tendo nascido de uma deusa, eu posso suportar uma boa surra.


Ela fechou os olhos ao ouvi-lo repetir o que Mel dissera aquela tarde e, não resistindo, tocou-o no braço. Arthur não se afastou. Ao contrário, cobriu sua mão com a dele e apertou-a de leve.


- Daquele dia em diante, Jasão passou a me chamar de irmão e fez os outros garotos me aceitarem. Embora minha mãe e meu pai tivessem outros filhos, eu nunca tinha tido um irmão.


Ela sorriu.


- O que aconteceu depois disso?


O músculo sob sua mão flexionou-se.


- Decidimos unir forças para conseguir o que precisávamos. Ele provocaria a distração, e eu furtaria. Se fôssemos pegos, eu sofreria as consequências.


Por quê?, Lua teve vontade de perguntar. Contudo, reprimiu-se, pois em seu coração já sabia a resposta.


Ele estava protegendo o irmão.



Continua...

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