- Vocês eram apenas crianças.
- Eu nunca fui criança. - ele afirmou. - Porém, o pior de tudo era que
não nos davam comida suficiente e éramos forçados a furtar para não morrermos
de fome.
- E os pais permitiam que isso acontecesse?
Ele lhe lançou um olhar sardônico por sobre o ombro.
- Eles achavam que era seu dever cívico. E, uma vez que meu pai era o
stratgoi espartano, a maioria dos meninos e dos professores me desprezava assim
que me via. Eu era contemplado com ainda menos comida do que os demais.
- Seu pai era o quê? - ela perguntou, sem compreender o termo em grego.
- O general mais importante, digamos assim. - Ele inspirou profundamente
e prosseguiu: - Por causa de sua posição e reputação de crueldade, eu era um
pária para o meu grupo. Enquanto eles se uniam para furtar, eu era deixado por
conta própria, para sobreviver da melhor forma possível. Um dia, Jasão foi pego
furtando pão. Quando retornamos ao quartel, ele iria ser punido por ter sido
apanhado. Então eu me adiantei e levei a culpa.
- Por quê?
Ele deu de ombros, como se o assunto fosse de pouca importância.
- Ele estava muito fraco por causa do espancamento que tinha sofrido, e
eu não achei que ele sobreviveria a outro.
- Por que eles o tinham espancado?
- Era dessa forma que começávamos o dia. Assim que nos arrastavam da
cama, éramos severamente espancados.
Lua estremeceu.
- Então, por que você apanharia por ele, se também estava dolorido?
- Tendo nascido de uma deusa, eu posso suportar uma boa surra.
Ela fechou os olhos ao ouvi-lo repetir o que Mel dissera aquela tarde e,
não resistindo, tocou-o no braço. Arthur não se afastou. Ao contrário, cobriu
sua mão com a dele e apertou-a de leve.
- Daquele dia em diante, Jasão passou a me chamar de irmão e fez os
outros garotos me aceitarem. Embora minha mãe e meu pai tivessem outros filhos,
eu nunca tinha tido um irmão.
Ela sorriu.
- O que aconteceu depois disso?
O músculo sob sua mão flexionou-se.
- Decidimos unir forças para conseguir o que precisávamos. Ele
provocaria a distração, e eu furtaria. Se fôssemos pegos, eu sofreria as
consequências.
Por quê?, Lua teve vontade de perguntar. Contudo, reprimiu-se, pois em
seu coração já sabia a resposta.
Ele estava protegendo o irmão.
Continua...

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