terça-feira, 12 de maio de 2015

Casamento por conveniência


Cap.11



Era o que ela era. E isso o estava enlouquecendo. Ele poderia ter lidado com raiva, lágrimas ou um ataque de nervos, ao menos seria uma reação emocional. Mas aquele desinteresse espalhafatoso e a determinação de manter-se o mais distante possível eram intolerá­veis.


Enquanto estavam à mesa no terraço, ele lançou um olhar firme para ela. A lua estava nascendo e a noite, muito estrelada. Uma noite perfeita para amar uma mulher, ele pensou. Podiam ter passado horas maravilhosas juntos, mas ela se recusava a renunciar àquela posição firme que assumira. O que se passava naquela cabeça adorável? O que a consumia? Que pensamentos a estavam amargurando?


— Lua, acho que se houver algo que a esteja incomodando, você deve falar. Tenho tentado ser o mais amável possível — ele acrescen­tou, pensando nos quartos separados que instruíra os empregados a arrumarem —, mas acho que você me deve uma explicação.


— Uma explicação? — Ela depositou o garfo sobre o prato e olhou friamente para ele por cima do guardanapo branco. — Não acho que eu deva nada a você, Arthur. Nenhum de nós deve nada ao outro. Fizemos um acordo. Cada um de nós, aparentemente, apesar de eu ainda não conceber desse modo, terá vantagens neste acordo. Vejo as vantagens que você vai ganhar, mas ainda tenho que desco­brir quais serão as minhas.


— É assim que você vê as coisas? Simplesmente como um acordo comercial? — ele disse, chocado por alguém tão jovem poder ser tão equilibrado.


— É exatamente o que penso. E quanto mais cedo você cumprir sua parte, melhor será para nós dois. Por que não acabamos com esta falsa de lua de mel e voltamos logo para casa?


— Estamos em casa — ele respondeu. — Nossa casa, de agora em diante, será onde eu moro. Minhas casas se tornaram suas casas.


— Preciso voltar para o meu avô — ela disse, olhando para o prato obstinadamente. — Não tenho qualquer objeção em ficarmos na Inglaterra por en­quanto. Mas na nossa casa. Mas...


— Sem "mas" — ele respondeu. — Ficaremos com meus pais. Já pedi para alguns corretores que encontrem um local para nós.

— Não quero ir para Eaton Square — murmurou Lua, tentando não chorar.

 — Quero ir para casa, para Thurston. Por que você sim­plesmente não vai para Buenos Aires e...?


Ela parou a tempo, antes de dizer volta para sua amante. Ele não tinha ideia de que ela vira sua foto na revista Hola! Com Luísa-Qualquer-Coisa. As fotos haviam sido tiradas em Gstaad, aonde tinham ido esquiar. Na verdade Arthur nem sonhava que ela conhecia seu estilo de vida. Ela descobrira sobre a outra mulher na vida dele por acaso, enquanto folheava uma revista velha que Dona Kátia levara para seu avô.


E, surpreendentemente, ela sentira-se magoada.


Não importava se desprezava o homem que concordara em casar-se com ela, se desprezava suas razões e tudo o que representava. Só o fato de vê-lo com os braços possessivamente em torno de uma morena opulenta, luxuriosa e estonteante — obviamente uma mulher mui­to sofisticada e com idade próxima à dele — a deixara mais perturba­da do que ela esperaria. Não que ela tivesse alguma coisa a ver com isso. Por que se importaria com quantas mulheres ele dormia? Não linha qualquer intenção de ser uma delas, tinha?


Arthur se inclinou para frente e tocou a mão dela.


— Lua não tem qualquer objeção a você visitar seu avô, passar um tempo com ele e, é claro, quando chegar a hora... — Ele interrompeu-se, sem querer dizer às palavras que sabia que a machucariam muito, apesar de ciente de ser seu dever prepará-la para o que ele acreditava que fosse ocorrer logo. — Mas faço questão que sua resi­dência oficial seja sob o mesmo teto onde vivo — ele terminou, enquanto ela afastava sua mão trêmula da dele. — Não permitirei que minha esposa more em qualquer outro lugar.


Ele jamais pensou que ficaria tão possessivo depois que se casas­se. Na realidade, nunca pensara muito sobre isso. Mas agora que acontecera, sentia uma necessidade de controlar, de conduzir. Ele não costumava ser ciumento. Normalmente perdia o interesse pelas mulheres antes de elas perderem o interesse por ele, mas mantinha o relacionamento por gratidão.


Mas Lua era diferente. Ele sentia isso profundamente em uma parte sua que não conhecia um instinto profundo e primitivo com o qual se deparara no dia de seu casamento e que não o abandonava. O mesmo instinto que o deixava ainda mais ansioso todas as vezes que passava pela porta fechada do quarto dela a cada noite, quando ia para a cama.


Continua...

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