Desde que eles voltaram para casa, Lua
mal via Arthur. Ele parecia extraordinariamente ocupado, sempre voltando para
Eaton Square perto das dez da noite. Ela não questionava suas ausências, mas
sentia-as. Certamente não havia tanta coisa assim para fazer
no escritório que exigisse que ficasse até tão tarde. Numa noite ela chegou a
ligar para o celular dele, mas ele a atendera muito brevemente e ela jamais
repetira a ação.
— Estou em uma reunião — ele disse. —
Ligo para você assim que terminar.
Mas passava da meia-noite quando ele
chegou em casa e Lua já tinha ido dormir há muito tempo.
Não tinha jeito. Seria sempre assim.
As poucas semanas que eles passaram na Grécia foram pura ilusão, sustentável
apenas por um tempo. Agora ele voltara para o seu mundo — um mundo de negócios
e possivelmente romances casuais — e tudo nele incluído.
A outra coisa que a preocupava era
que eles quase não fizeram amor desde que voltaram. Isso, somado ao fato de Arthur
estar chegando em casa tarde e estar com os nervos cada vez mais à flor da
pele, contribuía para aumentar seus medos.
Ela percebeu que deveria decidir se
continuaria ou não com o casamento ou se acabaria com ele de uma vez por todas.
A vida não estava totalmente
interessante e Lua sentia-se murchando.
E não parecia haver muita luz no fim
do túnel.
Conforme aprofundava suas
investigações, Arthur ficava cada vez mais irritado com as discrepâncias que
descobria não somente na contabilidade da Carvajal, mas na forma como alguns
dos grandes negócios eram conduzidos. Era um trabalho extenuante tentar chegar à
origem de tudo sem alertar os principais suspeitos, e tudo tinha que ser feito
muito cuidadosamente, sempre depois do expediente. Ele tinha o bastante para
manter-se ocupado durante o dia, gerenciando não só seus empreendimentos como se
certificando de que os negócios de Fernando voltassem aos trilhos.
Os dias eram longos e as noites
curtas. Queria poder explicar a Lua, mas sentia que era impossível. Tudo era
muito delicado e complicado para ser divulgado antes que ele tivesse as
respostas definitivas e a prova das negociatas de que suspeitava.
Em um fim de semana, quando ele
sugeriu que eles fossem a Paris descansar, ela pareceu sem entusiasmo. Não
queria abrir o apartamento do avô lá e sugeriu que fossem para um hotel.
Arthur concordou e reservou uma suíte
no Plaza Athénée.
Eles chegaram a Paris sexta-feira à
noite e se arrumaram para jantar no Relais Plaza, ao lado do hotel. Talvez mais
tarde fossem dançar ou tomar um drinque em algum lugar, ele refletiu.
Mas Lua estava estranhamente
silenciosa, indisposta até para conversar.
— Lua, está acontecendo alguma coisa?
— ele perguntou, irritado, apesar do desejo de se divertir com ela. Ela
certamente não estava tornando as coisas fáceis. Ele não ficara a seu inteiro
dispor por três semanas? Certamente ela devia entender que ele tinha muito
trabalho para colocar em dia agora, assim como outras responsabilidades.
— Não, não tem nada errado. Só tudo —
ela murmurou.
— O que você quer dizer, mi
hermosa? Pensei que tivéssemos superado tudo, que as coisas estivessem
acertadas entre nós.
— Mesmo? — ela disse, fitando-o. —
Bem, pensou errado. Talvez você ache que possa simplesmente me enfiar em um
armário no momento em que tiver outras prioridades, mas acho que mereço alguma
consideração.
Arthur suspirou. Não seria fácil. As
investigações haviam chegado a um ponto crucial em que qualquer tipo de
revelação poderia ser fatal ao resultado final.
— Olha, Lua, eu sei que estive muito
ausente...
— Muito? Isso é pouco.
— Por favor — ele pediu. — Não posso
explicar tudo o que está acontecendo no escritório, mas agora há alguns
incêndios a serem apagados.
— Com certeza. Especialmente das seis
em diante.
— Lua, o que você quer dizer?
— Que você parece ter uma incrível
lista de afazeres depois do expediente, Arthur.
Ele olhou para ela insolentemente.
— Se você quer saber, tenho.
— Ótimo. Bem, isso esclarece tudo que
eu preciso saber, certo?
— O que você está insinuando? — ele
perguntou, forçando os olhos e formando uma expressão de raiva.
— Que você tem uma amante. E é por
isso que acho que a melhor coisa a fazermos é finalmente colocar um fim nesse
problema.
— Você quer terminar o casamento? —
ele perguntou.
— Sim, acho que agora cheguei ao
limite das minhas forças, Arthur. Primeiro foi Luísa e agora... Bem, não sei
quem é agora, mas só posso deduzir que existe outra pessoa com quem você vem
passando todas as noites. — Os olhos dela estavam brilhando, mas ela se manteve
no lugar, resolvida a não ser feita de boba novamente.
— Isso é um absurdo — ele disparou.
— Não, não é. Você pensa que pode me
tratar como se eu fosse parte de uma propriedade pessoal que pode tirar e pôr
na prateleira sempre que quiser. Bem, não sou. E quanto mais cedo você perceber
isso, melhor. O problema é que eu não acho que você seja capaz de ver isso de
outra forma, então o melhor será nos divorciarmos e voltarmos para nossas
respectivas vidas.
Continua...

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