domingo, 29 de novembro de 2015

O caçador de sonhos - Prólogo (parte 2)


Assim, o que importava se tinha feito uma promessa a seu pai? Ele estava morto. Nunca saberia que ela a havia descumprido. Ele tinha morrido feliz e ela finalmente poderia deixar o passado atrás e seguir adiante com sua vida na América.
Como seu avô, tinha a intenção de deixar o país e não voltar a pôr um pé nele outra vez.
Cosmo lhe entregou a caixa branca, e logo a deixou sozinha para que a abrisse.
Lua cravou os olhos nela um par de minutos, assustada pelo que poderia encontrar. Haveria algum objeto pessoal que lhe fizesse voltar a chorar? Sinceramente ela não queria voltar a chorar por um homem que tinha quebrado seu coração tantas vezes que não podia nem começar às contar.
Mas ao final, a curiosidade ganhou e abriu a caixa. A princípio, parecia que só havia um lenço descartável enrugado. Teve que escavar até o fundo para encontrar o que continha.
E o que encontrou a deixou pasmada. Ela cravou os olhos na palma de suas mãos, incapaz de entendê-lo.  
         Havia duas coisas. Uma parecia ser um Komboloi— uma corda de contas parecida a um rosário pequeno que alguns gregos utilizavam quando estavam tensos ou preocupados, só que ela nunca tinha visto um como este antes. O desenho e a idade pareciam anteriores ao de qualquer outro kolomboi do que ela tivesse tido notícias. Tinha quinze contas de um verde iridescente, realizadas com um tipo de pedra desconhecida na qual tinham gravado pequenas e intrincadas cenas familiares de gente com um tipo de roupa que ela não tinha visto antes em suas investigações. As entalhadas estavam intercaladas com cinco contas de ouro, que levavam três raios atravessando um sol. Onde um Kolomboi deveria ter uma pequena peça grega parecida com uma medalha do tamanho de uma moeda de dez centavos, este tinha um círculo com uma escritura parecida com o grego antigo, mas ao mesmo tempo muito diferente. Tão diferente que ela que cresceu lidando com o grego antigo não podia decifrá-lo.
Como muitos artefatos descobertos tirados de uma escavação, o kolomboi tinha uma pequena etiqueta branca pendurada de um fio vermelho, onde seu pai teria escrito uma nota sobre o achado:

9/1/87
152,4 centímetros abaixo da data (ver pais acompanhando 42)
Datação absoluta: 9529 a.C.
Pedra verde desconhecida/sem verificação
Escritura desconhecida/sem verificação

 O antropólogo nela se emocionou ante o que poderia significar historicamente este descobrimento. Se a datação era verdade absoluta...
Isto mostrava uma sofisticação e uma metalurgia previamente desconhecidas. Naquele tempo, os gregos não deveriam ter tido esse nível de habilidade. De fato, a precisão das talhas e as gravuras fazia pensar que foram feitas por uma máquina e não à mão. Faz onze mil anos, o gênero humano simplesmente não possuía as ferramentas necessárias para realizar algo tão intrincado.
Como podia ser?
Intrigada, fixou-se em uma pequena bolsinha de couro que havia no fundo da caixa. Esta, também estava etiquetada.



7/10/85
Metal desconhecido/sem verificação
Franzindo o cenho, abriu a bolsinha e encontrou cinco moedas de diferentes tamanhos. Eram velhas... muito velhas e revestidas de uma grossa pátina. Outra vez, não havia moedas tão velhas. Certamente não tinham existido nesse período de tempo e especialmente, não na Grécia. Como o Kolomboi, as moedas tinham o mesmo tipo de escritura, mas abaixo da escritura havia algo que ela sim podia entender. Eram palavras do grego antigo que diziam - Província Atlante do Kirebar.
Deus meu!
Outra vez, as moedas não pareciam serem feitas à mão, e o metal não era a mescla típica que ela tivesse visto antes. Não eram de uma cor alaranjada, não eram de prata, nem de ouro, nem de bronze, cobre ou ferro—talvez fosse uma estranha combinação desses metais, embora tão pouco o parecesse.
Que diabos era?
Até com a pátina recobrando-a, as imagens e a escritura eram nítidas e precisas, como nas moedas modernas.
Com o coração acelerado, ela girou a moeda maior para olhar o reverso. Este tinha o mesmo símbolo estranho gravado no kolomboi, um sol atravessado por três raios. E com a gravura havia umas palavras desconhecidas e ainda por cima outras em grego: -Apollymi nos proteja-
Lua olhou a moeda com incredulidade. Apollymi? Quem era essa?
Ela não tinha ouvido esse nome antes.
-É uma falsificação. Tem que sê-lo, e apesar de como a percebia, ela sabia a verdade. Não eram falsificações. Seu pai provavelmente os tinha encontrado em uma de suas muitas escavações no Egeu.
Isto era o que tinha mantido a seu pai investigando enquanto o resto do mundo ria dele. Ele sabia uma verdade que ela tinha rechaçado.
A Atlântida era real.
E se isto era assim, seu pai tinha sido questionado por todo mundo... inclusive por ela sem motivo. A dor e a pena a rasgaram quando recordou todas as discussões que tinham tido durante anos. Ela não era melhor que os outros.
Deus, as brigas que tinham tido a respeito. Por que nenhuma vez o contou? Por que lhe ocultaria um descobrimento de tal magnitude?
Desgraçadamente, ela sabia a resposta.  Porque não teria acreditado. Embora tivesse mostrado o lugar onde o tinha encontrado. Teria rido dele, também, teria jogado em seu rosto.
Sem dúvida ele tinha querido economizar a dor de que eu o ridicularizasse.
Fechando a caixa, Lua a manteve perto de seu coração enquanto lamentava cada horrível palavra e crítica que tinha pensado sobre ele. Quanto dano lhe fizeram suas palavras? A única pessoa que deveria ter tido fé nele tinha sido tão cruel como todos os outros.
Agora era muito tarde para arrepender-se.
-Sinto muito, papai. Respirou com dificuldade através das lágrimas. Como todos outros, ela tinha assumido que ele estava louco. Equivocado. Que era estúpido.
Mas de algum jeito ele tinha encontrado esses artefatos. E de algum jeito eram reais.
A Atlântida é real. As palavras invadiram sua mente. Com o olhar fixo no mar azul, ela apertou com força a caixa enquanto recordava as últimas palavras que disse a seu pai. -Certo, certo, prometo-o. Procurarei a Atlântida também. Não se preocupe por isso, papai. Está em boas mãos. Palavras que disse de forma apressada e desapaixonada, e ainda assim lhe consolaram.
-Está ali, Lua Sei que a encontrará e então o verá. Você. Fará-o. Conhecerá-me pelo que sou, e não pelo que pensou que era. Então ele dormiu e poucas horas depois morreu enquanto lhe segurava a mão.
Nesse momento, ela havia se sentido como uma menina, e não como a mulher adulta que era. Uma menina que só queria recuperar a seu papai. Que desejava com todas as suas forças que alguém a reconfortasse e lhe dissesse que tudo estaria bem.
Mas não havia ninguém em sua vida que pudesse fazer isso. E agora, depois de tudo, a apressada promessa que tinha feito ganhava sentido para ela.
-Ouço-te, papai. Sussurrou-lhe à brisa carregada de azeite de oliva, com a esperança de que esta levasse sua voz até a qualquer lugar que ele tivesse ido. -E não te deixarei morrer em vão. Vou provar que a Atlântida existe. Por ti. Por mamãe e pelo tio Theron e a tia Athena... pelo Daniel. Embora custe o resto de minha vida, cumprirei minha palavra. Encontraremos a Atlântida. Juro-o.
Mas igual havia dito essas palavras com muita convicção, não pôde evitar perguntar-se se seria capaz de suportar o ridículo que seu pai tinha agüentado durante toda sua vida profissional.  Justamente faz seis semanas ela tinha conseguido seu doutorado em Yale e tinha suposto que começaria a dar aulas em Nova Iorque neste outono.  Era jovem para ter obtido algo assim, e todos esperavam muito dela..., as instituições, os professores que lhe tinham outorgado o doutorado e ela mesma.
Seguir por este caminho seria uma estupidez. Ela perderia tudo. T-U-D-O. Era um passo difícil de dar. Um do que nunca se recuperaria.
Meu pai acreditava nele.
E seu tio e sua mãe.
Tinham dado suas vidas por isso mesmo que todo mundo risse deles. Agora uma segunda geração de parvos ia seguir o caminho para a ruína da primeira.
Lua só esperava que ao final seu destino fosse melhor que o que tinha tido a primeira geração.
Tal pai, tal filha.
Ela não tinha outra opção, salvo completar a busca que ele tinha começado, e até que não o fizesse seu nome não valeria nada, como o de seu pai.
-Que comecem os golpes… -


 Continua...

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Prometida a um Vampiro - Cap.71