Sentada no balaústre, Lua disse a si
mesma que devia deixar de ser paranóica. Uma coisa era ver que a possibilidade
existia, a outra era supor, sem qualquer razão real, que a ausência dele
devia-se a aparecimento de uma mulher atraente. Mesmo assim, por mais que
tentasse, não conseguia extinguir aquela imagem de Luísa olhando para ele por
cima dos ombros com um sorriso de intimidade.
Talvez toda a atenção que Arthur
estava dispensando a ela agora fosse parte do seu senso de dever, da promessa
que fizera ao avô dela. Mas ela não queria
se sentir parte de uma obrigação contratual. Queria ser desejada pelo que era.
E isso parecia tão improvável.
Nunca Arthur se declarara mais do que
em algumas palavras murmuradas no calor da paixão. E essas significavam muito
pouco. Eram parte de um vocabulário que ele provavelmente usara freqüentemente
com cada mulher que ia para a cama.
— Lu? — Arthur foi para o terraço e
sentou ao lado dela. Ele vestia bermuda e camiseta.
Lua olhou para ele, surpresa. Nunca o
vira vestido tão informalmente antes. E ela apreciava aquele estilo. Ela
engoliu em seco, menosprezando a si mesma, ao ver aqueles músculos fortes,
ainda bronzeados da estada anterior deles. Ele ainda estava rodeado por aquela
poderosa aura de masculinidade, mas ela pouco efeito lhe causara, imersa que
estava em suas emoções. Mas naquele momento, com ele sentado perto dela, com os
fortes braços descobertos, uma carga de desejo diferente de tudo o que sentira
desde o aborto começava a formar-se em seu íntimo.
Ela se recompôs com um sacolejo.
Era fundamental lembrar todas as
razões pelas quais uma relação de longo prazo com este homem não poderia dar
certo, por todas as dúvidas e a certeza de que ele poderia traí-la a qualquer
momento. Suspirando, ela notou que teria que manter-se firme, decidir o que
faria da vida. Não era justo para nenhum dos dois continuar naquele vácuo de
incerteza.
Mas era difícil pensar na vida sem
ele. Ela se acostumara com sua presença, com ele passando em seu quarto de
manhã antes de ir para o escritório, beijando-a para se despedir ou ligando
durante a manhã para sugerir um almoço.
Era quando a noite se aproximava que
as dúvidas tomavam conta dela, quando ele ligava para dizer que se atrasaria
devido a uma reunião ou a um "jantar de negócios". Era aí que ela
perguntava a si mesma se ele estava falando a verdade ou se estava mentindo, enquanto
caía nos braços de outra mulher.
E ainda havia o fato de eles não
estarem dormindo juntos.
Dificilmente se poderia dizer que Arthur
fosse um monge e não se poderia esperar dele que vivesse em celibato. Portanto,
se não estava dormindo com ela, com quem dormia?
Tudo era tão difícil! Lua suspirou,
desejando que as coisas fossem diferentes.
— Algo errado, querida? — perguntou Arthur,
inclinando-se para frente e envolvendo os dedos dela com o seus.
O toque da mão dele, que ela aceitara
nas últimas semanas como carinho e cuidado pela sua saúde, de repente virou
fogo. Lua prendeu a respiração, querendo recuar, apesar de permanecer como
estava. Arthur estava diferente de alguma forma. Não radicalmente. Mas havia
uma mudança sutil. Ele parecia mais vigoroso, mais determinado, e seus olhos
tinham um brilho que ela não vira ultimamente. Ela engoliu em seco, sentiu seu
corpo arder. Será que era aquele local que a fazia sentir-se tão alterada? Será
que a suave brisa marinha estava dissipando a dor e a tristeza, abrindo caminho
para novos e inesperados sentimentos?
Arthur se aproximou. Ela se levantou
depressa e virou na direção do mar, sem conseguir encará-lo.
Continua...

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