sábado, 28 de novembro de 2015

O caçador de sonhos - Prólogo (parte 1)


SANTORINI. GRECIA, 1990

Completamente imóvel no bordo do escarpado, Lua Martinez contemplava as águas, de um azul tão perfeito que era quase doloroso ao olhar. O fragrante ar salgado, o azeite de oliva dos mercadores ambulantes, e a brilhante luz do sol, formavam uma cena caseira única na região. O quente sol acariciava sua bronzeada pele, enquanto a forte brisa açoitava seu vestido branco contra seu corpo. Os navios se deslizavam pelas ondas de uma maneira quase irreal, o que lhe fez recordar os dias de sua infância, ela tinha caminhado com seu pai e sua mãe por esses escarpados e praias enquanto estes faziam todo o possível para lhe inculcar o que significava ser grego.
Era realmente uma das cenas mais formosas do mundo, e qualquer outra pessoa de vinte e quatro anos adoraria estar aqui.
Ela só desejava poder ser uma delas.
Em lugar disso, odiava este lugar com um ardor quase irracional. Para ela, a Grécia era morte e dor, sofrimento absoluto, preferiria ter mil anzóis cravados no corpo que voltar a pôr um pé nesta terra outra vez.
Seu comprido cabelo loiro que tinha recolhido em um rabo-de-cavalo golpeou sua pele, como se procurasse um pouco de paz para seus turbulentos pensamentos, mas não havia nada que fazer.
Já que em seu interior só encontrou fúria reprimida.
Seu pai, do qual se distanciou, estava morto. Ele tinha morrido igual o tinha vivido... Perseguindo um estúpido e desatinado sonho, que não só acabou com sua vida, também com a de sua mãe, seu irmão, sua tia e seu tio.
-A Atlântida é real, Lua. Posso senti-lo gotejando em mim inclusive enquanto falo. Está assentada no Egeu justo debaixo de nós, como uma gema perdida, brilhante, que está esperando que a encontremos e mostremos ao mundo a beleza que uma vez teve.
Inclusive agora, podia ouvir a hipnótica voz de seu pai enquanto lhe sustentava a mão em cima da água para que pudesse sentir a suavidade das ondas que acariciavam sua diminuta palma. Ainda podia ver seu formoso e entusiasmado rosto, quando lhe contou pela primeira vez porque passavam tanto tempo na Grécia.
-Vamos encontrar a Atlântida e mostrar a maravilha a todos os outros. Recorda minhas palavras, bebê. Está aí e nossa família foi escolhida para descobrir sua magia.
Esse tinha sido seu louco sonho. Um sonho que durante toda sua vida tinha tentado vender a ela, mas a diferença de sua amalucada família, não foi tão estúpida para comprá-lo.
A Atlântida é um falso mito criado por Platão como metáfora para explicar o que aconteceu quando o homem se voltou contra os deuses. Igual ao Necronomicon do Lovecraft é só uma invenção fictícia em que muitas pessoas quiseram acreditar, e equivocadamente sacrificaram tudo para encontrá-la.
Agora seu pai jazia em uma tumba na ilha que tanto tinha amado. Tinha morrido amargurado e arruinado, uma casca vazia de um homem que tinha enterrado seu irmão, seu filho, sua esposa...
E para quê? Todo mundo tinha rido dele. Ridicularizando-o. Tinha perdido seu trabalho, junto com sua respeitabilidade como professor anos atrás, e só conseguiu publicar sua investigação na imprensa sensacionalista.
Demônios! Inclusive alguns editores sensacionalistas riram dele, e vários lhe tinham rechaçado, recusando-se a gastar dinheiro para publicar seu ridículo trabalho. E ainda ele tinha continuado com seu febril desejo, dando às pessoas mais motivos para rir dele, coisa que tinham feito com vontade.
Mas mesmo assim, ao final tinha conseguido vê-lo uma vez mais antes que falecesse, e não tinha morrido sozinho como temia. De algum modo, e contra o que dizia o médico, seu pai conseguiu agüentar até que ela embarcou em um avião dos Estados Unidos e foi ao hospital lhe ver.  Embora seu encontro fosse breve, fez todo o possível por lhe dar um pouco de paz para que pudesse morrer tranqüilo, sem sentir-se culpado por havê-la abandonado para continuar sua busca.
Oxalá ela tivesse podido encontrar um pouco dessa paz para si mesma. Ainda não tinha conseguido esquecê-lo e perdoar. Por mais que seu avô tentasse justificar as ações de seu pai, ela sabia a verdade. A única coisa que alguma vez seu pai tinha amado era seu sonho, e por ele sacrificou sua família inteira... -Minha família inteira.
Agora com vinte e quatro anos, graças a ele, ela não tinha nem irmão nem pais.
Estava completamente só no mundo.
Tinha prometido a seu pai em seu leito de morte que continuaria com seu trabalho, e isso a estava queimando por dentro. Foi em um desses estranhos momentos de debilidade. Ao vê-lo tão frágil, deitado em uma fria cama de hospital enquanto se aferrava desesperadamente à vida, tinha-a destroçado, e embora mal houvessem se falado nos últimos oito anos, ela não tinha tido coração para lhe ferir, quando tudo o que ele procurava era morrer em paz.
Ela franziu os lábios enquanto observava como as ondas chegavam até a branca borda.  -Encontrar a Atlântida, meu traseiro. Não me arruinarei como fez você, papai. Não sou tão estúpida.
-Dra. Blanco?
Ela girou ao ouvir o som de uma voz com um forte acento grego, e se encontrou com um homem baixo, rechonchudo de uns cinqüenta anos cravando os olhos nela. Era um primo de seu pai, Cosmo Tsiaris, tinha sido o advogado de sua família na Grécia. Um pseudo-sócio da companhia de salvamento de seu pai, além disso, foi quem ajudou a seu pai em sua busca antediluviana, conseguindo permissões e investidores.
Embora conhecesse o Cosmo desde que tinha uso de razão, assustou-se quando a saudou. Blanco tinha sido o nome de seu pai - um nome que tinha descartado há anos, depois que seus pedidos de trabalho na universidade fossem rechaçados, apesar de que cumpria de sobra com os requisitos de admissão. Nenhum respeitável departamento de clássicas, história ou antropologia aceitaria em suas filas a um Martinez por medo de manchar sua reputação. Assim que ela tinha aprendido a usar o sobrenome de solteira de sua mãe, para conservar sua credibilidade e sua reputação.
Como o resto de sua família imediata, Claudia Martinez tinha morrido nestas praias.
-Sou a Dr. Lua Martinez-
Um brilhante sorriso curvou seus lábios. -Casou-se!-
-Não-, disse ela, o qual fez que ele literalmente se desinflasse ante seus olhos. -Troquei legalmente meu nome de Blanco faz oito anos, quando fui aos Estados Unidos e solicitei a emancipação de meu pai.
Ela podia dizer pelo rosto de Cosmo que este não entendia seu raciocínio, mas para ela não importava. Sabia que com sua mentalidade patriarcal, ele nunca o compreenderia.
Franzindo o cenho, ele não fez nenhum comentário sobre suas palavras e lhe estendeu uma pequena caixa. -Nos disse que se lhe acontecesse algo, devia me assegurar de que fosse entregue a sua filha. Essa ainda seria você, não?
-Sim-, disse ela, ignorando seu sarcástico comentário. Quem mais seria o suficientemente parvo para reclamar algo de um bobo como seu progenitor?
Lua se sobressaltou ante esse pensamento. Com toda sinceridade, ela amava a seu pai. Inclusive quando sua caneta e sua busca o privaram de tudo, até de sua prudência e sua saúde, ela ainda lhe tinha seguido amando-o. Como podia não fazê-lo? Ele tinha sido um pai amável e carinhoso quando ela era menina. Isto só tinha mudado quando ela entrou na adolescência e começou a questionar sua investigação e ardor, por isso ao crescer eles a tinham afastado.
-A Atlântida é uma panaquice, papai. Toda esta investigação também. Não quero subir mais a esse estúpido navio. Sou jovem e quero amigos. Quero ir à escola e ser normal. Você está desperdiçando seu tempo e minha vida! Em seu décimo quinto aniversário a tinha esbofeteado tão forte que ela ainda podia sentir a dor aguda.
-Não te atreva a insultar a memória de sua mãe. Ou a de meu irmão. Eles deram sua vida por isso.
Seis meses mais tarde, o irmão da Lua também a deu, quando seu equipamento de mergulho enrolou e seu tanque ficou sem oxigênio. Esse tinha sido o ponto de inflexão entre seu pai e ela. Ela não ia ser como Daniel. Ela não ia dar sua vida pelos sonhos de outra pessoa... Jamais.


Continua...

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Prometida a um Vampiro - Cap.71