Piscou e olhou para Mel, a fim de verificar se a amiga fora afetada da
mesma forma. Porém, se fosse esse o caso, ela nada demonstrava.
Devia estar alucinando. Era isso! O condimento dos feijões-vermelhos
tinha se infiltrado em seu cérebro, transformando-o em mingau.
- O que você acha dele? - Mel indagou, finalmente encontrando seu olhar.
Lua deu de ombros, esforçando-se para subjugar o calor em seu corpo.
Ainda assim, seus olhos insistiram em se voltar para a aparência perfeita
daquele homem.
- Ele parece um paciente novo que atendi ontem.
Bem, aquilo não era exatamente verdade... O sujeito que ela atendera era
razoavelmente atraente, mas nem se aproximava do homem no desenho.
Nunca vira nada como ele na vida!
- É mesmo? - Os olhos de Mel se escureceram, indicando que estava
prestes a iniciar uma longa preleção sobre destino e encontros fortuitos.
- Sim. - disse Lua, interrompendo-a antes que ela pudesse começar. - Ele
me falou que era uma lésbica presa em um corpo de homem.
Com uma expressão desapontada, Mel puxou o livro das mãos de Lua,
fechou-o com força e encarou-a.
- Você conhece as pessoas mais esquisitas! - Lua apenas ergueu a
sobrancelha. - Não diga nada. - Mel sentou-se no lugar que costumava ocupar
atrás da mesa e colocou o livro ao lado. - Estou lhe dizendo que isto, - bateu
com o dedo duas vezes no centro do livro - é a solução para você.
Lua fitou a amiga, pensando em como ela parecia mesmo Madame Mel,
autoproclamada Senhora da lua, acomodada atrás das cartas de tarô e da mesa
púrpura, com o misterioso livro sob a mão. No momento, quase podia crer que Mel
fosse uma cigana mística.
Se acreditasse em tais coisas.
- Certo. - concordou Lua, cedendo. - Pare de enrolar e me diga o que
esse livro e essa imagem têm a ver com a minha vida sexual.
A expressão de Mel tornou-se solene.
- O sujeito que mostrei a você... Arthur... É um escravo sexual
completamente controlado por quem quer que o evoque, e também é devotado a essa
pessoa.
Lua deu uma gargalhada.
Sabia que estava sendo indelicada, mas não conseguiu evitar.
Como uma bolsista da Fundação Rhodes, com doutorado em história antiga e
em física pela Universidade de Oxford, mesmo alguém com as idiossincrasias de Mel,
podia acreditar em algo tão ridículo?
- Não ria. Estou falando sério.
- Sei que está. Por isso é tão engraçado. - Pigarreando, Lua
controlou-se. - Certo. O que eu preciso fazer? Tirar as roupas e dançar diante
do lago Pontchartrain à meia-noite? - Os cantos de sua boca se ergueram ao
mesmo tempo em que os olhos de Mel se escureceram em forma de advertência. -
Tem razão. Eu conseguiria sexo, mas não acho que seria com um lindo escravo
sexual grego.
O livro caiu da mesa.
Continua...

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