Mel ignorou a ameaça enquanto procurava dinheiro na bolsa enfeitada de
contas.
- Está bem, pode falar... Mas, se eu fosse você, guardaria esse número.
Ele é uma coisinha linda.
- Uma coisinha jovem. - Lua corrigiu. - E acho que vou deixar passar. A
última coisa de que preciso é ser presa por corrupção de menores.
Mel deu uma olhada para o garçom, que apoiava o quadril no balcão do
bar.
- Sim, mas o Senhor Sósia do Brad Pitt ali parece valer a pena. Será que
ele tem um irmão mais velho?
- Eu imagino o quanto Chay pagaria para saber que a esposa dele passou a
hora do almoço cobiçando um garoto.
Mel bufou, colocando o dinheiro na mesa.
- Não estou cobiçando o rapaz para mim, mas para você. Estávamos
falando, afinal, da sua vida sexual.
- Bem, minha vida sexual é satisfatória, e não é da conta das pessoas
neste restaurante.
Jogando o dinheiro na mesa, Lua pegou o último pedaço de queijo e
caminhou para a porta.
- Não fique brava. - disse Mel, seguindo-a para fora, onde havia uma
multidão de turistas e de habitantes locais espremendo-se na Jackson Square.
As notas de um saxofone solitário tocando jazz se sobressaíam à
cacofonia de vozes, cavalos e motores de carros, conforme uma onda de calor da
Louisiana a atingia.
Tentando ignorar o ar tão denso que mal podia ser inalado, Lua abriu
caminho por entre a multidão e as barracas dos vendedores, que estavam
alinhadas junto à cerca de ferro trabalhado que circundava a Jackson Square.
- Você sabe que é verdade. - prosseguiu Mel, alcançando-a. - Meu Deus, Lua,
faz quanto tempo? Dois anos?
- Quatro. - respondeu ela, distraidamente. - Mas quem está contando?
- Quatro anos sem sexo? - Mel repetiu em voz alta, incrédula.
Várias pessoas pararam para olhar com curiosidade para as duas.
Alheia como sempre à atenção que chamavam, Mel continuou:
- Não me diga que você se esqueceu de que esta é a Era da Eletrônica.
Quero dizer, de fato, algum dos seus pacientes sabe há quanto tempo você está
sem sexo?
Lua engoliu o queijo e encarou a amiga com um olhar desagradável.
Mel pretendia gritar isso para que todos os seres humanos e todos os
cavalos na Vieux Carré ouvissem?
- Fale baixo. - ela pediu, e então acrescentou com secura: - Não acho
que seja da conta dos meus pacientes se eu sou ou não uma pessoa casta. E,
quanto à Era da Eletrônica, eu realmente não quero me envolver com algo que
venha com rótulo e pilhas.
Mel bufou de novo.
- Sim, bem, para você a maioria dos homens deveria vir com um rótulo. -
Ela ergueu as mãos, desenhando no ar uma moldura enquanto prosseguia: -
Atenção, por favor, alerta de psicopata. Eu, homem viril, estou predisposto a
suportar horríveis oscilações de humor e amuos prolongados, e possuo a
habilidade de dizer a uma mulher a verdade sobre seu peso sem aviso.
Lua riu. Ela repetira esse discurso a respeito da necessidade de os
homens virem com rótulos incontáveis vezes.
- Ah, eu entendo, Dra. Sexo. - Mel continuou, imitando o sotaque da
famosa terapeuta sexual de origem alemã. - Você apenas fica lá sentada,
escutando-os despejar todos os detalhes íntimos de seus encontros sexuais
enquanto vive como um membro vitalício do Clube das Calcinhas de Teflon. -
Abandonando o sotaque, ela acrescentou: - Não acredito que nada do que você
escutou nas sessões tenha agitado seus hormônios.
Lua lançou-lhe um olhar divertido.
- Bem, sou uma terapeuta sexual. Não faria bem aos meus pacientes que eu
tivesse um orgasmo enquanto estão desabafando seus problemas. Isso é verdade,
Mai, eu perderia meu registro profissional.
- Eu não vejo como pode aconselhá-los, uma vez que você não chega perto
de um homem.
Fazendo uma careta, Lua atravessou a praça, indo até o lado oposto ao do
Centro de Informações Turísticas, onde a tenda de Mel para leitura de mãos e de
tarô estava montada.
Ao chegar à pequena mesa coberta com um tecido púrpura, ela suspirou.
- Sei, eu sairia com um homem, se encontrasse alguém por quem valesse a
pena depilar as pernas. Mas a maioria é uma perda de tempo, e eu prefiro ficar
em casa e assistir a reprises de seriados antigos.
Continua....

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