quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Amante da fantasia - Cap. 2


Mel ignorou a ameaça enquanto procurava dinheiro na bolsa enfeitada de contas.


- Está bem, pode falar... Mas, se eu fosse você, guardaria esse número. Ele é uma coisinha linda.


- Uma coisinha jovem. - Lua corrigiu. - E acho que vou deixar passar. A última coisa de que preciso é ser presa por corrupção de menores.


Mel deu uma olhada para o garçom, que apoiava o quadril no balcão do bar. 


- Sim, mas o Senhor Sósia do Brad Pitt ali parece valer a pena. Será que ele tem um irmão mais velho?


- Eu imagino o quanto Chay pagaria para saber que a esposa dele passou a hora do almoço cobiçando um garoto.


Mel bufou, colocando o dinheiro na mesa.


- Não estou cobiçando o rapaz para mim, mas para você. Estávamos falando, afinal, da sua vida sexual.


- Bem, minha vida sexual é satisfatória, e não é da conta das pessoas neste restaurante.


Jogando o dinheiro na mesa, Lua pegou o último pedaço de queijo e caminhou para a porta.


- Não fique brava. - disse Mel, seguindo-a para fora, onde havia uma multidão de turistas e de habitantes locais espremendo-se na Jackson Square.


As notas de um saxofone solitário tocando jazz se sobressaíam à cacofonia de vozes, cavalos e motores de carros, conforme uma onda de calor da Louisiana a atingia.


Tentando ignorar o ar tão denso que mal podia ser inalado, Lua abriu caminho por entre a multidão e as barracas dos vendedores, que estavam alinhadas junto à cerca de ferro trabalhado que circundava a Jackson Square.


- Você sabe que é verdade. - prosseguiu Mel, alcançando-a. - Meu Deus, Lua, faz quanto tempo? Dois anos?


- Quatro. - respondeu ela, distraidamente. - Mas quem está contando?


- Quatro anos sem sexo? - Mel repetiu em voz alta, incrédula.


Várias pessoas pararam para olhar com curiosidade para as duas.


Alheia como sempre à atenção que chamavam, Mel continuou:


- Não me diga que você se esqueceu de que esta é a Era da Eletrônica. Quero dizer, de fato, algum dos seus pacientes sabe há quanto tempo você está sem sexo?


Lua engoliu o queijo e encarou a amiga com um olhar desagradável.


Mel pretendia gritar isso para que todos os seres humanos e todos os cavalos na Vieux Carré ouvissem?


- Fale baixo. - ela pediu, e então acrescentou com secura: - Não acho que seja da conta dos meus pacientes se eu sou ou não uma pessoa casta. E, quanto à Era da Eletrônica, eu realmente não quero me envolver com algo que venha com rótulo e pilhas.


Mel bufou de novo.


- Sim, bem, para você a maioria dos homens deveria vir com um rótulo. - Ela ergueu as mãos, desenhando no ar uma moldura enquanto prosseguia: - Atenção, por favor, alerta de psicopata. Eu, homem viril, estou predisposto a suportar horríveis oscilações de humor e amuos prolongados, e possuo a habilidade de dizer a uma mulher a verdade sobre seu peso sem aviso.


Lua riu. Ela repetira esse discurso a respeito da necessidade de os homens virem com rótulos incontáveis vezes.


- Ah, eu entendo, Dra. Sexo. - Mel continuou, imitando o sotaque da famosa terapeuta sexual de origem alemã. - Você apenas fica lá sentada, escutando-os despejar todos os detalhes íntimos de seus encontros sexuais enquanto vive como um membro vitalício do Clube das Calcinhas de Teflon. - Abandonando o sotaque, ela acrescentou: - Não acredito que nada do que você escutou nas sessões tenha agitado seus hormônios.


Lua lançou-lhe um olhar divertido.


- Bem, sou uma terapeuta sexual. Não faria bem aos meus pacientes que eu tivesse um orgasmo enquanto estão desabafando seus problemas. Isso é verdade, Mai, eu perderia meu registro profissional.


- Eu não vejo como pode aconselhá-los, uma vez que você não chega perto de um homem.


Fazendo uma careta, Lua atravessou a praça, indo até o lado oposto ao do Centro de Informações Turísticas, onde a tenda de Mel para leitura de mãos e de tarô estava montada.


Ao chegar à pequena mesa coberta com um tecido púrpura, ela suspirou.



- Sei, eu sairia com um homem, se encontrasse alguém por quem valesse a pena depilar as pernas. Mas a maioria é uma perda de tempo, e eu prefiro ficar em casa e assistir a reprises de seriados antigos.

Continua....

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