quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Prometida a um vampiro - Cap. 6





-EU  NÃO sou uma morta-viva – protestei.


Mas, é claro, ninguém prestou atenção. Meus pais estavam muito concentrados no pé ferido de Arthur Vladescu.


- Arthur, se sente – disse minha mãe a ele, não muito contente com nenhum de nós dois.


-Prefiro ficar de pé – respondeu Arthur.


Mamãe sinalou com firmeza o circulo de cadeiras que estavam ao redor da mesa da cozinha.


-Se sente. Agora.


Nosso visitante ferido vacilou, como se fosse desobedecer, então, enquanto dizia algo entre dentes, pegou uma cadeira. Mamãe tirou de uma vez a bota que tinha uma marca bem visível de um dente da forquilha, enquanto meu pai andava pela cozinha, procurando a caixa de primeiros socorros. Ele se meteu debaixo da geladeira enquanto esperava que o chá de ervas se aprontasse.


-É só uma equimose – anunciou mamãe.


-Ah, bom. – Papai se arrastou, saindo debaixo da geladeira. – De qualquer forma não encontrei a caixa de remédios. Mas ainda podemos tomar um chá.


O auto-proclamado sanguessuga impostor que tinha tomado minha cadeira da mesa da cozinha me encarou.


-Você tem muita sorte que meu sapateiro só use os melhores tipos de couro. Isso podia ter atravessado. E você não quer empalar um vampiro. Mas é assim que é a sua forma de saudar seu futuro marido – ou qualquer outro convidado, de qualquer forma? Com uma forquilha?


- Arthur – minha mãe interrompeu. – Você pegou Roberta de baixa guarda. Como expliquei a você antes, o pai dela e eu queríamos falar com ela primeiro.

-Sim, bom, certamente vocês se atrasaram em sua proposição – uns dezessete anos. Alguém tinha que fazer. – Arthur retirou seu pé dos braços da minha mãe e se pôs de pé, coxeando ao redor da cozinha sobre sua única bota, como um rei inquieto em seu castelo. Ele pegou o recipiente de camomila, cheirou o conteúdo, e franziu a testa. – Vocês bebem isso?


-Você vai gostar – prometeu papai. Serviu quatro xícaras. – Tem um efeito calmante, sobre tudo em momentos de tensão como este.


-Chega de chá. Digam-me o que está acontecendo – pedi, me sentando e reclamando na minha cadeira que Arthur estava. Nem sequer estava tão quente.


Quase como se ninguém tivesse estado sentado nela há um instante.

 – Alguém. Por favor. Coloquem-me a par disso.


-Cederei esse dever a seus pais, tal e como é o desejo deles – concedeu Arthur·.

Ele levantou sua úmida xícara a aproximando dos seus lábios, deu um pequeno gole, e estremeceu. – Deus, isto é asqueroso. Ignorando Arthur, mamãe compartilhou um olhar com papai, como se guardassem um segredo. – Ned... O que você acha?


Parecia que tinha entendido o que ela estava insinuando, porque papai assentiu e disse:


-Vou pegar a manuscrito – então saiu da cozinha.


-Manuscrito? – Manuscritos. Pactos. Esposas. Por que todo mundo falava e código?– Que manuscrito?


-Oh querida. – Mamãe sentou na cadeira junto a minha e pegou minhas mãos. –É que seus pais biológicos foram assassinados em um conflito.
-Assassinados por camponeses – disse Arthur com o cenho franzido. – Um povo supersticioso, influenciados pela multidão sem piedade. – Destampou a manteiga orgânica de milho do papai, passou um dedo e a provou, e depois limpou o dedo em sua calça, que eram pretas e abraçavam suas pernas como calças de montaria.


– Por favor, me diga que há algo saboroso nesta casa.


Mamãe girou para se dirigir a Arthur.


-Peço a você permaneça quieto durante alguns minutos enquanto conto a história.


Arthur se inclinou ligeiramente, seu brilhante cabelo negro-azulado brilhava soba luz da cozinha. – É claro, continue.


Mamãe centrou sua atenção em mim.


-Mas não lhe contamos toda a história, porque o tema parecia deixar você muito
alterada.


-Agora pode ser um bom momento – sugeri. – Não acho que eu possa me alterarmais do que já isto.


Mamãe tomou um gole e já e suspirou.


-Sim, bom, a verdade é que seus pais foram destruídos por uma multidão furiosa
que tentava livrar a cidade dos vampiros.


-Vampiros? – Com certeza, ela estava brincando.

-Sim – confirmou. – Vampiros. Seus pais estavam entre os vampiros que eu
estava estudando na época.


Bem, vejamos não raro escutar palavras como fada ou espíritos na terra ou
mesmo troll na minha casa. Quero dizer, a cultura popular e as lendas eram as investigações que interessavam minha mãe, e meu pai era conhecido como apresentador “anjo da comunicação” em seu  seminário de estudo sobre a yoga.
Mas é claro que meus estranhos pais não acreditavam nos monstros dos 
filmes de Hollywood. Sinceramente não conseguia acreditar que meus pais biológicos se transformavam em morcegos, ou se dissolviam à luz do sol, ou que suas presas cresciam. Eles poderiam

-Você me disse que esteve estudando algum tipo de culto – respondi. – Uma
subcultura que tinha alguns rituais incomuns... Mas nunca me disse nada sobre
vampiros.


-Você sempre foi muito lógica, Roberta – disse minha mãe. – Você nunca gostou das coisas que não possam ser explicadas pela matemática ou pela ciência. Seu pai e eu temíamos que a verdade sobre seus pais biológicos a alterasse
profundamente. Então guardamos... algumas coisas.


-Está dizendo que meus pais pensavam realmente que eram vampiros? – disse em
uma espécie de grito.


Mamãe assentiu.


-Bom... Sim.

-Eles não só pensavam queeram vampiros – se queixou Arthur. Que tinha
recuperado sua bota e saltava sob um pé, tentando colocá-la. – Eles eram vampiros.


Enquanto eu olhava boquiaberta e cheia de incredulidade para nosso convidado,
o pensamento mais repugnante do mundo cruzou a minha mente. Aqueles rituais
que minha mãe tinha aludido, que estavam relacionados com meus pais... – Eles
não-na realidade não bebiam sangue...A expressão que inundou o rosto da minha mãe disse tudo, e pensei que estava a ponto de desmaiar. Meus pais biológicos;  desequilibrados,perturbados, bebedoresde sangue.


- Saborosas coisas – comentou Arthur. – Você não teria, por acaso, algo por aqui, no lugar deste chá.

Mamãe lhe deu um olhar.

Arthur franziu o cenho.


-Não. Suponho que não.
-Pessoas não bebem sangue – insisti, subindo o tom de voz. – E os vampiros não
existem!


Arthur cruzou os braços, franzindo o cenho.


-Com licença. Eu estou aqui.


- Arthur, por favor – disse mamãe em tom sério, mas tranquilo, que usava com estudantes difíceis de controlar. – Dê um tempo para Roberta poder processar. Ela tem uma inclinação analítica que a faz resistir ao paranormal.


-Sou resistente ao impossível – gritei. – Ao irreal.


Nesse ponto, papai voltou com um manuscrito mofado nas suas mãos.


-Historicamente, muitas pessoas resistem a ideia de mortos-vivos. – Observei papai colocar cuidadosamente o documento sobre a mesa. – Os últimos da
década de 80 foram muito maus aos vampiros na Romênia. Haviam grandes
expurgos a cada poucos meses. Muitos vampiros agradáveis foram eliminados.


-Seus pais biológicos – que eram muito poderosos dentro de sua subcultura – se deram conta de que provavelmente fossem marcados para a destruição e nos encomendaram seus cuidados antes de que fossem assassinados, com a esperança de que pudéssemos mantê-la a salvo nos Estados Unidos – acrescentou mamãe.


-As pessoas não bebem sangue – repeti. – Eles não bebem. Vocês não viram
meus pais agirem como vampiros, não é? – desafiei. – Nunca os viram crescendo
as presas e mordendo pescoços? Sei que não viram. Porque isso não é acontece.

-Não – mamãe admitiu, pegando de novo minhas mãos. – Eles não se permitiam esse tipo de acesso.

-Porque isso não acontece – repeti.

-Não – interpôs Arthur. – Porque morder é algo muito privado, muito intenso. Você não convida pessoas para assistir. Os vampiros são uma raça muito sensual,mas não são uns exibicionistas. Somos discretos.

-Entretanto não temos razões para acreditar que alguém mentiu para nós sobre beber sangue – acrescentou mamãe. – E não é nada que você deveria se
preocupar, Roberta. É bastante normal para eles. Se tivesse crescido na Romênia,
nessa subcultura, também seria normal para você.


De um golpe, separei nossas mãos.


-Realmente não.


Com um profundo suspiro, Arthur resumiu a historia.

-Honestamente, eu não posso suportar mais esse vai e vem. A história é bastante
simples. Você, Lua Blanco, é a última de uma grande linhagem de poderosos
vampiros, Os Dragomirs. Da Realeza dos Vampiros.


Isso me fez rir, um guincho, um riso histérico.


-Da Realeza dos Vampiros. Claro.


-Sim. Realeza. E esta é a última parte da história, a que seus pais ainda parecem
relutantes a contar. – Arthur se inclinou sobre a mesa em frente aos meus braços cruzados, me fazendo baixar os olhos. – Você é uma princesa vampira – a
herdeira da liderança dos Dragomir. Eu sou um príncipe vampire. O herdeiro de
um poderoso clã dos Vladescus. Mais poderoso, na minha opinião, mas esse não é o ponto. Fomos prometidos um ao outro em uma cerimônia de compromisso pouco depois dos nossos nascimentos.

Olhei para minha mãe procurando ajuda, mas tudo o que ela disse foi:

-A cerimônia foi muito linda, muito elaborada.

-Em uma enorme caverna nos Cárpatos – continuou papai. – Com velas por todas as partes. – Olhou fixamente para minha mãe com carinho e admiração  - Nenhum outro forasteiro tinha tido esse privilégio.


Eu olhei para eles.

-Estavam lá? Nessa cerimônia?


-Oh, nós conhecemos um monte de vampiros nessa viajem e vi tantos interessantes eventos culturais – mamãe sorriu um pouco ao recordar isso. – Você deveria ler o resumo da investigação no Diário da Cultura Popular da Europa Oriental. É mais um trabalho histórico de uma pessoa 
com informações
privilegiadas, se você entende o que eu quero 
dizer.

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Prometida a um Vampiro - Cap.71