terça-feira, 22 de dezembro de 2015

O Caçador de sonhos - Cap. 1






SANTORINI, Grécia, 1996

-MEU REINO POR UMA ARMA
Sacudindo a cabeça ante as hostis palavras do Lua, Chay lhe abriu tranquilamente à porta do carro enquanto ela se aproximava do pequeno táxi que lhes esperava em meio da lotada rua grega.
-Você não tem um reino.
Ela se deteve brevemente sobre a calçada para lhe fulminar com o olhar. Considerando a furiosa que estava, não podia acreditar que ele se atrevesse a lhe indicar algo tão óbvio. Ela era conhecida por ferir com as palavras quando só estava um pouco irritada. Realmente, o homem não tinha instinto de auto-preservação.
-E não tenho uma arma, parece que sou uma imbecil com sorte até o final, huh?
De todas as formas, ele sempre estava tranquilo — algo que realmente não a ajudava a melhorar seu humor. Por uma vez, não poderia incomodar-se ele também?
-Entendo que não conseguiu as permissões... Outra vez.
Podia ter economizado essa parte de “outra vez”. 
-Qual foi sua primeira pista?
-Oh, não sei. Talvez porque caminhava rua abaixo pisando muito forte, apertando os punhos como se estivesse estrangulando a alguém, ou possivelmente por me olhar, como se quisesse me arrancar os olhos quando eu não fiz nada para te encher o saco.
-Sim, tem-no feito.
Ela diria que ele estava tentando ocultar um sorriso. Graças a Deus que ele tinha a sensatez de ocultá-lo.
-E o que fiz?
-Não tem uma arma.
Ele soprou. -Vamos, não pode dar um tiro a cada oficial grego que se cruze em seu caminho.
-Quer apostar?
Chay se afastou para deixá-la entrar primeiro no táxi. Com um metro oitenta e dois e seus quarenta e tantos anos era um homem arrumado. Muito distinto e inteligente. E o melhor de tudo, é que era desmesuradamente rico e muito capaz de financiar sua última louca aventura sem queixar-se muito.
Desgraçadamente, ele não queria subornar aos oficiais públicos.
Era pedir muito encontrar um financista corrupto? Sem dúvida Chay tinha que ter algum vício, e nesse momento ela não podia pensar em nenhum que lhe servisse mais que esse.
-Assim, O que faremos agora? Perguntou ele enquanto se reunia com ela no carro.
Lua suspirou, desejando poder lhe responder. Sua equipe estava esperando no navio que ela tinha atracado no porto, mas sem a autorização que lhes permitia escavar os montículos onde ela e Sophia acreditavam que havia uma cidade murada, só podiam mergulhar sobre a superfície do que tinham encontrado e admirá-lo.
Era triste conformar-se com isso. Essa era a melhor pista que tinham tido em anos. -Quero outra amostra de lama.
-Já analisou e reanalizou essas amostras.
-Sei, mas possivelmente possa nos ajudar a convencê-los de que nos dêem as permissões. Sim, seguro… Ela não tinha recebido particularmente bem a negativa e as palavras que lhe disseram em sua última visita ainda ressonavam em seus ouvidos.
-Isto é a Grécia, Dra. Blanco. Há ruínas por todos os lados e não vou te dar permissão para que comece a levantar o fundo do Egeu, a qual é uma área com muito tráfico marítimo, quando tudo o que pode me dar é esta outra-história-sobre-a-Atlântida. A verdade, é que já tive suficientes caça tesouros tentando roubar nossa história nacional só para sua própria glória ou riqueza. Não necessito nenhum mais. Nós, na Grécia, tomamos nossa história com mais seriedade e você está me fazendo perder um valioso tempo. Bom dia.
Bastava apenas recordar para desejar rachar a cabeça contra o escritório até que se retratasse ou lhe concedesse as permissões. Sua busca não era uma caça ao tesouro, mas tentar convencê-lo disto era tão estúpido quanto tentar voar com asas de cera.
-Tem que haver alguma forma de sair desta.
Chay ficou rígido. -Não formarei parte de nada ilegal.
E por desgraça, ela tampouco. -Não se preocupe, Chay. Não quero ir presa por isso.
Mas tinha que haver algo que ela pudesse fazer...
Se tão somente desaparecesse a maldita dor de cabeça, ela poderia pensar. Mas a palpitante dor, e o desagradável oficial, pareciam decididos a lhe arruinar o dia.
Ela se reclinou no assento e observou os belos edifícios e a paisagem da cidade, as pessoas iam para as lojas que haviam nas calçadas. Como desejaria não ter obrigações e poder vagar pelas lojas, comprando e sorrindo como a maioria desses transeuntes. Infelizmente, ela nunca tinha podido ser uma turista em nenhum lugar.
Pois Lua Blanco sempre trabalhava e nunca brincava.
Nenhum deles falou enquanto o táxi se dirigia através das estreitas ruas, para o porto onde estava esperando seu navio. Enquanto Chay pagava o taxista, Lua desceu e se dirigiu à passarela do navio para enfrentar à equipe atrás de seu estrepitoso fracasso.



Continua...

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