- Você tentaria fazer isso? - Lua perguntou a ele. Arthur deu um suspiro
frustrado.
Parecendo extremamente aborrecido, ele inclinou a cabeça para trás e
disse com calma para o teto:
- Cupido, seu bastardo imprestável, eu o evoco para que assuma a forma
humana.
Lua ergueu as mãos.
- Nossa, eu nem posso imaginar por que ele não responde!
Mel riu.
- Certo - disse Lua -, eu não acredito nessa bobagem, de qualquer forma.
Podemos pôr essas coisas no meu carro, almoçar e tentar pensar em algo um pouco
mais produtivo do que Cupido, seu bastardo imprestável. Vamos?
- Está bem. - Mel concordou.
Lua entregou para Mel a sacola com as roupas que ela lhe emprestara.
- Aqui estão as coisas do Chay.
A amiga olhou para a sacola e franziu o cenho.
- Onde está a camiseta regata branca?
- Vou devolver depois.
Mel riu de novo. Arthur as seguiu, escutando as duas gracejarem enquanto
saíam da loja.
Por sorte, Lua encontrara uma vaga rara na frente do shopping. Arthur as
observou colocar as sacolas no carro. Se tivesse coragem de admitir, apreciaria
o fato de Lua estar tão interessada em ajudá-lo.
Ninguém estivera antes.
Ele caminhara a vida inteira em solidão, contando apenas com sua força e
inteligência para salvá-lo. Mesmo antes da maldição, estivera fatigado. Cansado
da solidão, cansado de não ter ninguém na Terra, ou alguém que lhe desse um
pouco de importância.
Era uma pena que não tivesse conhecido Lua antes da maldição. Ela teria
sido um bálsamo agradável para seu desassossego. Por outro lado, as mulheres de
sua época eram bem diferentes.
Lua o via como um igual, enquanto as mulheres de seu tempo o viam como
uma lenda a ser temida ou apaziguada. O que tornava Lua única? O que havia nela
que lhe permitia ajudá-lo, quando sua própria família virara as costas para
ele? Não sabia ao certo.
Ela era apenas especial. Um coração puro em um mundo povoado por
egoístas. Nunca imaginara encontrar alguém como ela.
Desconfortável com o rumo de seus pensamentos, ele olhou para a multidão
de pessoas que não pareciam se importar com o calor opressivo da estranha
cidade.
Escutou um casal discutindo a alguns metros. A esposa estava brava por
causa de algo que o homem esquecera. Um garotinho de três ou quatro anos andava
entre eles, conforme se aproximavam da calçada.
Arthur sorriu para eles. Não se lembrava da última vez em que vira uma
família junta, lidando com tarefas do cotidiano. A cena tocou uma parte dele
que mal recordava ter... Seu coração. E imaginou se eles sabiam a dádiva que
tinham um no outro.
Enquanto os pais continuavam discutindo, a criança parou com a atenção
focada em algo do outro lado da rua. Arthur prendeu o fôlego, quando seu
instinto lhe disse o que o garotinho estava prestes a fazer.
Lua fechou o porta-malas do carro. Com o canto do olho, viu um borrão
azul dirigir-se para a rua. Levou um segundo inteiro para perceber que era Arthur
correndo.
Franziu o cenho, confusa com a atitude, até avistar o garotinho que saía
da calçada rumo ao tráfego.
- Oh, meu Deus. - ela murmurou, ao ouvir os guinchos de freios.
- Steven! - uma mulher gritou.
Com um movimento digno de Hollywood, Arthur pulou o pequeno muro do
estacionamento e agarrou a criança, tirando-a da rua. Segurando o menino junto
ao peito, ele saltou sobre o paralama do carro que freava e, com um ágil
movimento lateral, afastou-se do veículo.
Eles pousaram em segurança na outra pista, um instante antes de um
segundo carro desviar do primeiro e avançar na direção deles. Horrorizada, Lua
observou Arthur chocar-se contra um velho Chevrolet.
Ele deslizou sobre o capô, bateu no para-brisa e foi arremessado na rua,
onde rolou por alguns metros até, por fim, parar. Ficou deitado de lado,
imóvel.
O caos eclodiu conforme as pessoas gritavam e se aglomeravam ao redor do
acidente. Apavorada, Lua tremia por inteiro ao abrir caminho em meio à
multidão, tentando chegar até Arthur.
- Por favor, esteja bem, por favor, esteja bem. - ela sussurrava
repetidamente, rezando para que ambos tivessem sobrevivido ao choque.
Quando conseguiu passar pelas pessoas que os circundavam, Lua percebeu
que ele não largara a criança. O menino ainda estava cuidadosamente envolvido
pelos braços fortes.
Incapaz de crer no que via, ela se deteve, com o coração martelando.
Eles estavam vivos?
Continua...

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