– Ei, Pacotão!
Um braço pesado bateu nos meus ombros e
de repente eu estava cara a cara com Frank Dormand, que me segurava, exibindo
um sorriso gosmento no rosto gordo. Revoltada, tentei me soltar, mas Frank me
agarrou com força, me sacudindo um pouco.
– Será que escutei você convidar o Jake
para a festa? Que negócio é esse?
– Cai fora, Frank – implorei, apertando
os livros contra o peito. – Não é da sua conta.
– É, Frank – disse Jake. – Não enche.
– Ah, suas crianças malucas – disse
Frank, despenteando meu cabelo.
Tentei afastar a mão dele e ajeitar o
cabelo, mas estava tão nervosa que deixei os livros caírem das mãos quentes e úmidas.
Meu dever de casa despencou no chão, com os papéis se espalhando por toda
parte.
– Vai se catar, Frank – esbravejei
furiosa. Uma
coisa era gritar uma provocação rápida no refeitório, mas dessa vez ele tinha
ido longe demais...
Frank olhou para Jake.
– E aí? O que vai ser, Jake? Vai levar
o Pacotão? Porque o papo que corre é que ela está namorando aquele coveiro
estrangeiro que mora na garagem dela. Você está dando para ele, não é, Ro?
Girei sob o braço de Dormand, tentando
de novo me afastar, quando, de repente, fui libertada. Frank estava grudado num
armário, a garganta pressionada pela mão de um estudante romeno de intercâmbio
muito calmo porém muito determinado.
Os calcanhares de Frank bateram no
metal.
– Ei!
Mas Arthur apenas levantou Frank um
pouco mais.
– Cavalheiros não fazem perguntas
impertinentes sobre assuntos delicados às mulheres. – Sua voz estava tranquila,
quase entediada. – E nunca, jamais, usam expressões grosseiras diante do sexo
oposto. A não ser que estejam prontos para enfrentar as consequências.
– Arthur, não! – gritei.
– Me so-solta – gaguejou Frank, o rosto
ficando tão vermelho quanto o meu. Ele tentava inutilmente segurar o braço de Arthur
enquanto uma multidão se reunia no corredor. – Está me sufocando, cara.
– Solta, Arthur – implorei, olhando
Frank passar de vermelho para azul. – Ele está
sufocando!
Arthur afrouxou o aperto, permitindo
que Frank tocasse o chão com as pontas dos dedos,embora ainda o segurasse com
firmeza.
– Diga o que quer que eu faça com ele, Roberta
– insistiu Arthur, por sobre o ombro. – Determine o castigo e eu farei cumprir.
– Nada, Arthur! – respondi, meu rosto
em chamas. Ele
não é meu guarda-costas.
– Essa briga não é sua!
– Não – concordou Arthur. – O prazer é meu. – Em seguida voltou
a atenção para Frank, que havia parado de lutar e permanecia imóvel contra o
armário, os olhos arregalados. – Você vai apanhar os livros da moça, entregá-los
a ela gentilmente e lhe pedir desculpas – ordenou Arthur. – Depois, nós vamos lá
fora concluir nossos negócios.
Ele largou Frank, que tombou para a
frente, lutando para respirar.
– Não vou brigar com você – chiou
Frank, esfregando o pescoço.
– Vai ser uma lição, não uma briga –
prometeu Arthur. – E, quando eu terminar, você não vai incomodar Roberta de novo.
Compartilhei um olhar preocupado com
Jake, que estava parado, em silêncio, cauteloso.
– A gente só estava de brincadeira –
reclamou Frank.
Arthur lhe lançou um olhar furioso,
empertigado com toda a sua altura. Ele parecia fechar o corredor.
– No lugar de onde venho, perturbar uma
mulher não é divertido. Eu deveria ter deixado isso claro no outro dia. Não
deixarei outra oportunidade passar.
– De onde você vem? – desafiou Frank,
estufando o peito, um pouco mais ousado agora que podia respirar. – A gente está
começando a desconfiar.
– Venho da civilização – retrucou Arthur.
– Você não deve estar familiarizado com o território. Agora pegue os livros.
Frank deve ter ouvido o alerta final no
rosnado baixo de Arthur, porque se abaixou e obedeceu, resmungando o tempo
todo. Jogou os livros em minhas mãos e começou a se esgueirar para longe. Arthur
o agarrou de novo.
– Você se esqueceu de pedir desculpas.
– Desculpa – disse Frank, com os dentes
trincados.
Arthur deu um leve empurrão em Dormand.
– Agora, vamos lá fora.
– Arthur – falei, segurando seu braço.
Os músculos estavam rígidos embaixo dos meus dedos. Ele iria destruir o gorducho do Dormand, que
não era capaz de fazer 10 flexões nem que sua vida dependesse disso. – Para.
Agora.
Arthur me olhou.
– Você merece isso, Roberta. Ele não
vai desrespeitá-la. Não na minha presença.
– Não pode fazer isso aqui. Não desse
jeito – alertei. – Aqui não é a Romênia. – Não pode agir como a sua família,
que sai impondo suas regras brutais. –
Você já foi longe demais.
Ficamos nos encarando por um longo
momento. Então Arthur olhou para Frank.
– Saia daqui. Fique grato por ter
obtido uma anistia. Mas não haverá outra, mesmo que Roberta me peça.
– Sua aberração – murmurou Frank.
Depois saiu correndo pelo meio da multidão, que se dissolveu atrás dele,
restando apenas Arthur, Jake e eu. Jake começou a recuar também, mas Arthur não
havia terminado.
– Acho que vocês dois estavam
conversando. Por favor, continuem.
– Já terminamos – garanti, empurrando Arthur
para longe. Ele ficou no lugar, sem afastar os olhos de Jake.
– É verdade? – perguntou Arthur a Jake.
– Vocês terminaram?
– Eu... nós estávamos falando sobre... –
Jake arrastou os pés, olhando para baixo. – Olha, Ro, falo com você mais tarde.
– Tudo bem, Jake, já entendi. Por
favor, não precisa dizer mais nada.
As lágrimas que tinham se formado nos
meus olhos havia uns cinco minutos começaram a se derramar.
– Por que ela está chorando? –
perguntou Arthur. – Você disse alguma coisa a ela?
Jake levantou as mãos.
– Não. Juro.
– Só vai embora, Arthur – insisti.
Arthur hesitou.
– Por favor.
Ele me encarou. Vi piedade em seu olhar
e essa foi provavelmente a pior parte de todo o dia. Um ser bizarro sentindo
pena de mim.
– Como quiser – disse ele e recuou. Mas
não antes de acrescentar: – Estou de olho em você também, Zinn.
Quando Arthur já estava longe, Jake
falou, em tom de consolo:
– Poxa, o lance foi intenso, hein?
Funguei, enxugando os olhos.
– Que parte? Quando Arthur quase matou
o Frank ou quando ameaçou você?
– A coisa toda.
– Foi mal, Jake.
– Não, tudo bem. Frank é um otário. Ele
mereceu.
– Que vergonha... Olha, não se preocupa
com a festa. Foi idiotice minha convidar você.
– Não foi. Eu ia dizer sim. – Jake
olhou pelo corredor, na direção por onde Arthur havia partido. – A não ser que
vocês dois estejam juntos ou sei lá o quê. É o que estão dizendo por aí. E Arthur
pareceu meio possessivo.
Continua...

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