–
Nunca.
Retiro
o que eu disse sobre a vergonha. Estávamos indo para o carro, fazendo
malabarismos com todas aquelas sacolas de compras, quando Arthur parou e
segurou meu braço, largando uma sacola.
Eu
me virei.
–
O que foi?
Ele
estava olhando a vitrine de uma loja chamada Boulevard St. Michel, uma butique de
alto nível com roupas muito, muito caras. O tipo de roupa que as mulheres ricas
usam em festas chiques. Eu nunca tinha nem pisado lá. Para começar, meu pai não
acreditava em lavagem a seco, por causa das emissões de gases que faziam mal ao
meio ambiente. E, por outro lado, eu não poderia comprar sequer um pé de sapato
da Boulevard St. Michel. Nem mesmo depois de um verão inteiro servindo hambúrgueres
na lanchonete.
–
O que você está fazendo?
Acompanhei
o olhar de Arthur. Ele continuou a olhar a vitrine.
–
Aquele vestido... o com flores espalhadas no corpete.
–
Você falou “corpete”?
–
É, e a saia...
–
O vestido com decote em V?
–
É. Aquele mesmo. Você ficaria deslumbrante usando algo assim.
Arthur
realmente era um sem-noção. Não só achava que era um vampiro, como agora
acreditava
que eu deveria me vestir como uma mulher de 30 anos que frequentava coquetéis.
Dei
uma gargalhada.
–
Você é pirado mesmo. Aquilo é para mulheres que fazem coisas, tipo, ir a
recitais ou sei lá o quê.
Ele
me lançou um olhar.
–
O que há de errado com um recital?
–
Nada. Só que eu não frequento essas coisas. Você consegue me ver usando aquilo
na
competição
de hipismo, por acaso? E aposto que custa uma grana preta.
–
Experimente o vestido.
Recuei.
–
Nem pensar. Tenho certeza de que eles não gostam de adolescentes entrando ali.
–
Eles gostam de qualquer um que tenha dinheiro suficiente – zombou Arthur.
–
Não vão gostar de mim, então. Não tenho dinheiro suficiente nem para olhar.
–
Eu tenho.
–
Arthur...
Vou
admitir que fiquei meio intrigada. Era mesmo um vestido lindo. Eu nunca havia
experimentado
nada parecido. Era tão sofisticado! Cor de creme fresco, com minúsculas flores
pretas bordadas, espalhadas por todo canto, sem formar nenhum padrão, o que só
o tornava mais bonito. Fez com que eu me lembrasse da teoria do caos: aleatório
porém belo em sua simplicidade. O decote era mais ousado do que qualquer coisa
que eu já vestira. Dava para ver o volume dos seios de plástico do manequim
espiando acima do tecido. Do tecido caro.
Puxei
o braço de Arthur.
–
Anda. Vamos embora.
Arthur
me puxou de volta e claro que ele era mais forte que eu.
–
Dê só uma olhada. Toda mulher precisa de coisas bonitas.
–
Eu não preciso daquilo.
–
Claro que precisa. Você poderia usá-lo, digamos, na tal festa a que vai com o Atarracado.
Seria perfeitamente adequado para eventos desse tipo.
–
Ele não é atarracado.
–
Experimente o vestido.
–
Eu tenho muitas roupas – insisti.
–
É. E deveria jogar todas fora. Especialmente a camiseta com o cavalo branco e o
coração.
Qual é o propósito daquilo?
–
Mostrar que eu amo cavalos árabes.
–
Eu amo carne malpassada, mas não ando com a imagem de um bife sangrento no
peito.
–
Já escolhi uma roupa.
Arthur
fez uma cara de desprezo.
–
Algo brilhante do shopping, imagino.
Fiquei
vermelha. Odiava quando Arthur estava certo.
–
Acredite em mim – disse ele. – Se usar aquele vestido, não vai se arrepender.
Ele foi
feito
para você.
Estreitei
os olhos.
–
O que você sabe sobre vestir garotas?
–
Não sei nada sobre vestir garotas. Sei sobre vestir mulheres. – Arthur deu um
sorrisinho superior. – Agora venha. Realize meu desejo.
Ele
foi entrando na loja e eu tive que ir atrás. Como eu havia previsto, a
vendedora não
pareceu
nada empolgada ao ver dois estudantes do ensino médio em sua loja. Mas Arthur nem
pareceu notar.
–
Aquele vestido da vitrine, com o bordado. – E apontou para mim. – Ela gostaria
de
experimentar.
– Cruzando os braços e se inclinando um pouco para trás, ele mediu meu corpo
com os olhos, da cabeça aos pés. – Tamanho 38?
–
Quarenta – murmurei.
–
O 40 está na vitrine, naquele manequim – disse a vendedora. E pôs as mãos
magricelas com unhas vermelhas nos quadris. – É muito complicado tirar. Se você
não está falando sério sobre isso...
Epa. Eu não entendia muita coisa sobre Arthur Vladescu, mas
sabia com certeza que o tom da vendedora não o agradaria.
Arthur
arqueou uma sobrancelha.
–
Eu não pareci sério? – Ele se inclinou para a frente e leu o nome no crachá da
mulher. – Leigh Ann?
Continua...

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