Quando a luz se
introduziu em sua escura habitação deixou escapar outro cansado suspiro para
ouvir a voz de seu tio Wink. Arthur estava cansado dessas interrupções sobre
tudo quando a única coisa queria era estar com seu objetivo humano. - O quê?
-Disse-te que me
devolvesse o soro do sonho que te dei. Aparentemente está abusando dele e
fazendo adoecer a seu humano.
Arthur se girou para
olhar a cara do velho deus do sonho. O comprido cabelo castanho do Wink estava
trançado às suas costas enquanto seus olhos cinza dançavam com travessura.
Embora fosse um dos deuses mais antigos tinha a mentalidade de um menino de
treze anos. Não havia nada que amasse mais que fazer travessuras e brincar -
duas das muitas coisas que tinham feito Arthur e seus irmãos desgraçados.
Em outro tempo, eles
tinham sido facilmente seduzidos e manipulados por outros deuses, e se tinham
deixado utilizar pelo Wink, Hades e outros deuses em disputas e guerras
privadas.
Até que um dia Zeus impôs
o fim de uma vez por todas. Era engraçado que tivesse castigado às ferramentas
e não o fizesse com quem as dirigia.
Mas, Zeus não era
conhecido precisamente como deus da Justiça.
-E se quero ficar com o soro?
Wink arqueou uma
sobrancelha ante esse comentário, então estalou a língua. -Vamos, Arthur, você
conhece as regras- Seu rosto se suavizou. -Você sabe o que acontece àqueles que
não cooperam.
É obvio que sabia. Todos os de sua classe sabiam. Suas costas
tinham mais cicatrizes que o céu estrelas. Havia vezes que ele suspeitava que
seu avô Hypnos, era quem fiscalizava seus castigos físicos, não era mais que um
sádico que só podia sentir prazer quando repartia dor a outros.
Quão cruel seria para enviar aos Skotis a drenar aos humanos
de excessos ou emoções retidas, para depois castigá-los quando não desejavam
ir-se porque por fim experimentavam outra coisa que não fosse dor?
Mas essa era sua maneira de fazê-lo.
Depois de seu bate-papo com Micael, Arthur tinha sabido o
que aconteceria. Não havia caso a discutir. Wink tinha sido enviado para
recuperar o Soro de Lótus que utilizavam nos seres humanos, e todos os subornos
do Olimpo não o fariam desistir. Wink era só um instrumento que servia aos
deuses do sonho.
Arthur tirou o pequeno frasco e o estendeu ao Wink, quem o
colheu com um estóico sorriso.
-Te anime, rapaz. Há um montão de sonhadores aí fora com os
que pode brincar. Eles vivem para seus sonhos e são possuídos por eles
constantemente.
Sim, mas nenhum desses humanos tinha o mesmo tipo de sonhos,
desinibidos e vívidos, de Lua. Isto fazia que Arthur mais que nada quisesse
saber como seria ela no mundo real. Se seria igual como uma humana…
Arthur viu como Wink partia, lhe deixando na câmara dos
sonhos, tendo como única companhia à escuridão. Possivelmente este era um
castigo justo depois de tudo. Como um dos filhos do deus Morfeu, Arthur tinha
sido originalmente um Oneroi. Como era costume, ele tinha sido atribuído aos
humanos para velá-los e protegê-los contra os Skoti que algumas vezes os faziam
cativos. Nesses dias, ele tinha passado sua vida monitorando os sujeitos,
assegurando-se de que os que estavam sob seu amparo tivessem sonhos normais que
deveriam inclusive lhes ajudar a lidar com seus problemas ou inspirá-los.
Até essa fatídica noite.
Continua...

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