- Bem - disse ela, voltando aos jeans -, eu não sou assim, e você vai
precisar de algo para vestir quando nós estivermos em público.
A raiva tomou os olhos de Arthur de modo tão ameaçador que ela deu um
passo involuntário para trás.
- Eu não fui amaldiçoado para ser visto em público, Lua. Estou aqui para
você, e somente para você.
Como aquilo parecia bom... Ainda assim, ela não cederia.
Não poderia usar um ser humano da maneira que Arthur descrevera. Era
errado, e ela nunca seria capaz de viver consigo mesma se fizesse algo assim
com ele.
- De qualquer forma, eu quero levá-lo para sair. - ela afirmou com
determinação. - Portanto, você vai precisar de roupas.
E começou a procurar o jeans do tamanho certo. Ele ficou em silêncio. Lua
fitou-o e notou a expressão sombria e brava.
- O que foi?
- O que foi? - ele devolveu.
- Não importa. Vamos ver qual destes cai melhor. Pegando diversos
tamanhos, entregou-os a ele.
Pela reação de Arthur ao pegar os jeans, alguém poderia muito bem achar
que ela estivesse lhe entregando uma porção de sujeira de cachorro. Ignorando a
expressão intimidadora, ela praticamente o empurrou para o provador e fechou a
porta atrás dele.
Arthur entrou no pequeno cubículo e paralisou-se, assaltado simultaneamente
por três frentes hostis.
A primeira era o reduzido tamanho do local e o terror frio e brutal que
o assolou por causa disso. Por um minuto inteiro, não conseguiu respirar,
enquanto combatia o impulso de sair correndo do cubículo fechado. Mal conseguia
se mover sem colidir com as paredes, com a porta ou com o espelho.
Porém, ainda pior do que a claustrofobia era o rosto no espelho. Ele não
vira o próprio reflexo por séculos. E a face que o encarava de volta era tão
semelhante à de seu pai, que ele desejou despedaçá-la. Viu os mesmos traços bem
delineados, os mesmos olhos desdenhosos... A única coisa que faltava era a
cicatriz profunda e irregular que marcava o lado esquerdo do rosto de seu pai.
E, pela primeira vez em incontáveis séculos, Arthur teve a desagradável
visão das três finas tranças de comandante que caíam sobre seus ombros.
Com a mão trêmula, ele as tocou enquanto fazia algo que não fizera
durante um tempo excepcionalmente longo: ele se lembrou do dia em que as
ganhara.
Fora após a batalha de Tebas, quando seu comandante caíra e as tropas
macedônias tinham começado a entrar em pânico e a se retirar. Ele agarrara a
espada do comandante, reagrupara as tropas e as liderara à vitória contra os
romanos.
No dia seguinte à batalha, a rainha macedônia trançara seus cabelos e
colocara as próprias contas nas pontas.
Arthur segurou as minúsculas contas de vidro. Aquelas tranças tinham
pertencido a um comandante macedônio forte e orgulhoso, que liderara um
exército vitorioso com tanto vigor que obrigara os romanos a fugirem
aterrorizados. A visão o assombrou.
Olhou para o anel na mão direita. Ele o usara por tanto tempo que se
tornara imune à sua presença. E havia muito que não recordava seu significado.
Mas as tranças... Não havia pensado nelas por um tempo realmente longo.
Tocando-as, lembrou-se do homem que fora. Lembrou-se dos rostos de seus
familiares. Das pessoas que tinham se apressado para servir às suas
necessidades. Daqueles que o haviam respeitado e temido.
Lembrou-se de uma época em que comandara o próprio destino e que o mundo
que conhecia estivera em suas mãos. E agora ele era... Com a garganta apertada,
fechou os olhos e removeu as contas das pontas de seus cabelos, antes de
começar a desfazer as tranças.
Quando seus dedos soltaram a primeira delas, ele olhou para baixo, para
as calças que derrubara no chão.
Por que Lua estava fazendo aquilo? Por que ela precisava tratá-lo com um
ser humano? Ele se acostumara de tal forma a ser tratado como um objeto que a bondade
que Lua lhe demonstrava era intolerável.
A distância fria e impessoal das outras mulheres o tinham habilitado a
tolerar sua sentença, a não se lembrar de quem fora, do que fora. Do que havia
perdido. Aquilo o capacitava a concentrar-se apenas no momento presente e nos
prazeres fugazes a serem desfrutados.
Mas os seres humanos não viviam daquele jeito. Eles tinham famílias,
amigos, futuros, sonhos. Esperanças. Coisas das quais fora privado séculos
atrás.
Coisas que nunca teria de novo.
- Maldito seja, Príapo. - sussurrou, desfazendo com violência a última
trança. - E maldito seja eu.
Continua...

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