sábado, 13 de fevereiro de 2016

Amante da fantasia - Cap.35


- Bem - disse ela, voltando aos jeans -, eu não sou assim, e você vai precisar de algo para vestir quando nós estivermos em público.


A raiva tomou os olhos de Arthur de modo tão ameaçador que ela deu um passo involuntário para trás.


- Eu não fui amaldiçoado para ser visto em público, Lua. Estou aqui para você, e somente para você.


Como aquilo parecia bom... Ainda assim, ela não cederia.


Não poderia usar um ser humano da maneira que Arthur descrevera. Era errado, e ela nunca seria capaz de viver consigo mesma se fizesse algo assim com ele.


- De qualquer forma, eu quero levá-lo para sair. - ela afirmou com determinação. - Portanto, você vai precisar de roupas.


E começou a procurar o jeans do tamanho certo. Ele ficou em silêncio. Lua fitou-o e notou a expressão sombria e brava.


- O que foi?


- O que foi? - ele devolveu.


- Não importa. Vamos ver qual destes cai melhor. Pegando diversos tamanhos, entregou-os a ele.


Pela reação de Arthur ao pegar os jeans, alguém poderia muito bem achar que ela estivesse lhe entregando uma porção de sujeira de cachorro. Ignorando a expressão intimidadora, ela praticamente o empurrou para o provador e fechou a porta atrás dele.


Arthur entrou no pequeno cubículo e paralisou-se, assaltado simultaneamente por três frentes hostis.


A primeira era o reduzido tamanho do local e o terror frio e brutal que o assolou por causa disso. Por um minuto inteiro, não conseguiu respirar, enquanto combatia o impulso de sair correndo do cubículo fechado. Mal conseguia se mover sem colidir com as paredes, com a porta ou com o espelho.


Porém, ainda pior do que a claustrofobia era o rosto no espelho. Ele não vira o próprio reflexo por séculos. E a face que o encarava de volta era tão semelhante à de seu pai, que ele desejou despedaçá-la. Viu os mesmos traços bem delineados, os mesmos olhos desdenhosos... A única coisa que faltava era a cicatriz profunda e irregular que marcava o lado esquerdo do rosto de seu pai.


E, pela primeira vez em incontáveis séculos, Arthur teve a desagradável visão das três finas tranças de comandante que caíam sobre seus ombros.


Com a mão trêmula, ele as tocou enquanto fazia algo que não fizera durante um tempo excepcionalmente longo: ele se lembrou do dia em que as ganhara.


Fora após a batalha de Tebas, quando seu comandante caíra e as tropas macedônias tinham começado a entrar em pânico e a se retirar. Ele agarrara a espada do comandante, reagrupara as tropas e as liderara à vitória contra os romanos.


No dia seguinte à batalha, a rainha macedônia trançara seus cabelos e colocara as próprias contas nas pontas.


Arthur segurou as minúsculas contas de vidro. Aquelas tranças tinham pertencido a um comandante macedônio forte e orgulhoso, que liderara um exército vitorioso com tanto vigor que obrigara os romanos a fugirem aterrorizados. A visão o assombrou.


Olhou para o anel na mão direita. Ele o usara por tanto tempo que se tornara imune à sua presença. E havia muito que não recordava seu significado. Mas as tranças... Não havia pensado nelas por um tempo realmente longo.


Tocando-as, lembrou-se do homem que fora. Lembrou-se dos rostos de seus familiares. Das pessoas que tinham se apressado para servir às suas necessidades. Daqueles que o haviam respeitado e temido.


Lembrou-se de uma época em que comandara o próprio destino e que o mundo que conhecia estivera em suas mãos. E agora ele era... Com a garganta apertada, fechou os olhos e removeu as contas das pontas de seus cabelos, antes de começar a desfazer as tranças.


Quando seus dedos soltaram a primeira delas, ele olhou para baixo, para as calças que derrubara no chão.


Por que Lua estava fazendo aquilo? Por que ela precisava tratá-lo com um ser humano? Ele se acostumara de tal forma a ser tratado como um objeto que a bondade que Lua lhe demonstrava era intolerável.


A distância fria e impessoal das outras mulheres o tinham habilitado a tolerar sua sentença, a não se lembrar de quem fora, do que fora. Do que havia perdido. Aquilo o capacitava a concentrar-se apenas no momento presente e nos prazeres fugazes a serem desfrutados.


Mas os seres humanos não viviam daquele jeito. Eles tinham famílias, amigos, futuros, sonhos. Esperanças. Coisas das quais fora privado séculos atrás.


Coisas que nunca teria de novo.


- Maldito seja, Príapo. - sussurrou, desfazendo com violência a última trança. - E maldito seja eu.



Continua...

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