Cruzei os braços sobre o peito, dando
de ombros.
– Ah, não sei. Tipo...
– Bom, você vai acompanhá-lo ao tal
baile de gala do qual todo mundo anda falando.
– É uma festinha no ginásio. Não é um
“baile de gala”. Ninguém diz “gala”. Pelo menos ninguém na Woodrow Wilson.
Arthur franziu a testa.
– Gala, festa, tanto faz. Você o está
cortejando?
Isso nos olhos de Arthur
é sofrimento? Ou é só a escuridão de sempre?
– É só um encontro, mas... É, acho que
sim – admiti, sem saber por que me sentia
subitamente culpada. Não tinha motivo
para isso. O fato de Arthur acreditar que estávamos noivos não me tornava uma
adúltera. Fala sério. Mas ele continuou a me encarar, por isso acrescentei, sem
jeito: – Espero que não haja problema. Com o lance do pacto e coisa e tal.
– Só acho difícil entender.
– O quê? – Isso eu precisava ouvir. –
Achei que você sempre soubesse de tudo.
– Ele nem defendeu você – disse Arthur,
coçando o queixo, realmente confuso.
Fiquei um pouco na defensiva.
– Aqui as mulheres se defendem. Os
homens não precisam lutar por nós. Já falei que posso cuidar do Dormand.
– Não como eu posso fazer por você. Não
como Zinn deveria
ter feito.
Gostando ou não, você é limitada por ser mulher. Pode bater numa mosca, mas eu
posso esmagá-la. Qualquer homem digno teria
interferido.
– Ei – protestei. – Jake tem dignidade.
– Não o bastante para proteger você.
– Ah, Arthur – gemi. – Jake acha que
você passou totalmente dos limites e ele está certo.
Arthur balançou a cabeça.
– Então ele não viu o seu rosto.
Fiquei sem saber o que responder.
Voltamos a andar em silêncio. Arthur continha
o passo comprido para me acompanhar. Parecia mais distraído ainda do que antes,
com a testa franzida.
Passamos pelo portão do campus da
Grantley, indo na direção do prédio onde ficava a sala da mamãe. De repente Arthur
se animou.
– Você sabe dirigir, não sabe? Tem
carteira?
– Bom, claro. Por quê? Aonde você quer
ir?Ao
banco de sangue?
– Acho que eu gostaria de comprar uma
calça jeans – anunciou Arthur. – Talvez uma camiseta. E eles são muito rígidos
quanto a usar certos tipos de calçado na quadra. Minhas solas romenas violam
algum tipo de regra. Parece que preciso de calçados que tenham uma asa
desenhada na lateral se quiser jogar basquete.
Parei de andar.
– Você quer comprar roupas comuns?
– Não, quero atualizar meu guarda-roupa
de acordo com as normas culturais – corrigiu ele.
– Você sabe como chegar aos tais
outlets dos quais ouço tanto falar, não sabe?
Quase engasguei.
– Espere bem aqui – falei, cutucando o
peito de Arthur com um dedo. – Não se mexa. Vou perguntar se mamãe me empresta
a Kombi.
Eu precisava ver
isso.
O que será que Arthur Vladescu
considerava normal? E, mais importante, como um romeno alto e imperioso,
acostumado a andar com calças pretas de alfaiataria, ficaria usando jeans?
Continua...

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