– Para ser
sincero, não sei como algumas
dessas histórias começaram – reclamou Arthur, mexendo no rádio da Kombi,
provavelmente procurando canções
folclóricas da Croácia mas acabando por
aceitar a música clássica da estação pública. – Culpa de Hollywood, eu acho.
Mudei para uma estação de música pop, só
para irritá-lo.
– Então, você não acha que é capaz de
virar morcego?
Arthur baixou a música e me lançou um
olhar insultado.
– Morcego? Por favor! Que vampiro de
respeito iria se transfigurar num roedor alado? Você viraria um gambá se
tivesse habilidade para isso?
– Acho que não. – Parei num sinal de trânsito.
– De repente só uma vez, para ver como seria.
– Bom, os vampiros não podem se
transformar em nada.
– E o alho? Repele vocês?
– Só no hálito de alguém.
– E as estacas? Vocês podem ser mortos
com uma estaca?
– Qualquer um pode ser morto com uma
estaca. Mas, sim, isso é verdade. Aliás, uma estaca no coração é o único modo
eficaz de destruir um vampiro.
– Ah, é. Claro.
– Para poupar seu tempo, vou
acrescentar que não dormimos em caixões. Nem de cabeça para baixo. Obviamente,
não nos desintegramos ao sol. Como seria possível levar uma vida prática e útil
desse modo?
– Até agora, estou achando que ser
vampiro é algo bem sem graça.
– Correndo o risco de puxar um assunto
inconveniente e, de novo, pedindo desculpas, você não pareceu achar que meus
caninos eram sem graça naquela noite. Na verdade, reagiu com bastante
intensidade à aparência afiada deles.
E à sensação de suas
mãos, de seu corpo... Não entra nessa,Ro.
– Como fez aquilo? Você estava com,
tipo, uma prótese de dentes de plástico na boca?
Arthur me lançou um olhar incrédulo.
– Dentes de plástico? Eles pareciam de
plástico?
– Não – admiti. – Mas as dentaduras
parecem de verdade hoje em dia.
– Dentaduras. – Ele fungou. – Não seja
ridícula. Aqueles eram... São meus dentes. É isso que os vampiros fazem. Nossos
dentes crescem.
– Então faz agora – pedi, pegando a
autoestrada e enfrentando o trânsito.
– Ah,Roberta. Não acho sensato
enquanto você está dirigindo numa via movimentada. Você entrou em pânico
naquela noite.
– Não consegue, não é? – desafiei. –
Porque foi um truque idiota e você está sem o
brinquedinho agora.
– Não me provoque, Roberta. A não ser
que queira que eu faça o que está me pedindo. Porque eu posso e o farei.
– Anda!
– Como quiser.
Arthur se virou para mim, mostrou os
dentes e eu quase saí da pista. Ele agarrou o volante e puxou o carro de volta.
– Cacete.
Ele tinha feito de novo. Tinha mesmo.
Olhei na direção dele, com cautela. Os dentes
pontudos haviam sumido. É um truque. Um
truque. Eu não
cairia nessa. Os dentes são cobertos de esmalte, uma das substâncias mais duras
do corpo. O esmalte não pode mudar de forma. É impossível, ao nível molecular.
– Precisa se acostumar a isso –
repreendeu-me Arthur.
– Você comprou esse truque, tipo, numa
loja de mágica?
– Não é um truque. Pare de usar essa
palavra. – Arthur tamborilava no banco de vinil da Kombi. Dava para ver que
estava ficando frustrado de novo. – A transformação vampírica é um fenômeno. Se você lesse o livro que
eu lhe dei...
– Ah, meu Deus, aquela coisa. – Meu
exemplar não desejado de Crescendo como morto-vivo ainda estava debaixo da
cama. Eu queria jogá-lo fora, mas ficava adiando. Não estava a fim de pensar no motivo
disso.
– É, “aquela coisa”. Se você lesse o
guia, como deve, saberia que, na puberdade, os
vampiros do sexo masculino adquirem a
capacidade de fazer as presas crescerem. Isso acontece quando estamos
extremamente furiosos. Ou... excitados.
Continua...

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