terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Prometida a um vampiro - Cap. 34



– Para ser sincero, não sei como algumas dessas histórias começaram – reclamou Arthur, mexendo no rádio da Kombi, provavelmente procurando canções
folclóricas da Croácia mas acabando por aceitar a música clássica da estação pública. – Culpa de Hollywood, eu acho.

Mudei para uma estação de música pop, só para irritá-lo.

– Então, você não acha que é capaz de virar morcego?

Arthur baixou a música e me lançou um olhar insultado.

– Morcego? Por favor! Que vampiro de respeito iria se transfigurar num roedor alado? Você viraria um gambá se tivesse habilidade para isso?

– Acho que não. – Parei num sinal de trânsito. – De repente só uma vez, para ver como seria.

– Bom, os vampiros não podem se transformar em nada.

– E o alho? Repele vocês?

– Só no hálito de alguém.

– E as estacas? Vocês podem ser mortos com uma estaca?

– Qualquer um pode ser morto com uma estaca. Mas, sim, isso é verdade. Aliás, uma estaca no coração é o único modo eficaz de destruir um vampiro.

– Ah, é. Claro.

– Para poupar seu tempo, vou acrescentar que não dormimos em caixões. Nem de cabeça para baixo. Obviamente, não nos desintegramos ao sol. Como seria possível levar uma vida prática e útil desse modo?

– Até agora, estou achando que ser vampiro é algo bem sem graça.

– Correndo o risco de puxar um assunto inconveniente e, de novo, pedindo desculpas, você não pareceu achar que meus caninos eram sem graça naquela noite. Na verdade, reagiu com bastante intensidade à aparência afiada deles.

E à sensação de suas mãos, de seu corpo... Não entra nessa,Ro.

– Como fez aquilo? Você estava com, tipo, uma prótese de dentes de plástico na boca?

Arthur me lançou um olhar incrédulo.

– Dentes de plástico? Eles pareciam de plástico?

– Não – admiti. – Mas as dentaduras parecem de verdade hoje em dia.

– Dentaduras. – Ele fungou. – Não seja ridícula. Aqueles eram... São meus dentes. É isso que os vampiros fazem. Nossos dentes crescem.

– Então faz agora – pedi, pegando a autoestrada e enfrentando o trânsito.

– Ah,Roberta. Não acho sensato enquanto você está dirigindo numa via movimentada. Você entrou em pânico naquela noite.

– Não consegue, não é? – desafiei. – Porque foi um truque idiota e você está sem o
brinquedinho agora.

– Não me provoque, Roberta. A não ser que queira que eu faça o que está me pedindo. Porque eu posso e o farei.

– Anda!

– Como quiser.

Arthur se virou para mim, mostrou os dentes e eu quase saí da pista. Ele agarrou o volante e puxou o carro de volta.

– Cacete.

Ele tinha feito de novo. Tinha mesmo. Olhei na direção dele, com cautela. Os dentes
pontudos haviam sumido. É um truque. Um truque. Eu não cairia nessa. Os dentes são cobertos de esmalte, uma das substâncias mais duras do corpo. O esmalte não pode mudar de forma. É impossível, ao nível molecular.

– Precisa se acostumar a isso – repreendeu-me Arthur.

– Você comprou esse truque, tipo, numa loja de mágica?

– Não é um truque. Pare de usar essa palavra. – Arthur tamborilava no banco de vinil da Kombi. Dava para ver que estava ficando frustrado de novo. – A transformação vampírica é um fenômeno. Se você lesse o livro que eu lhe dei...

– Ah, meu Deus, aquela coisa. – Meu exemplar não desejado de Crescendo como morto-vivo ainda estava debaixo da cama. Eu queria jogá-lo fora, mas ficava adiando. Não estava a fim de pensar no motivo disso.

– É, “aquela coisa”. Se você lesse o guia, como deve, saberia que, na puberdade, os
vampiros do sexo masculino adquirem a capacidade de fazer as presas crescerem. Isso acontece quando estamos extremamente furiosos. Ou... excitados.



Continua...

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