- Seu imprestável pedaço de... - Arthur soltou uma série de imprecações
que fariam um marinheiro corar.
Os olhos de Lua se arregalaram. Não sabia o que a surpreendia mais: Arthur
agredindo um motociclista desconhecido ou o linguajar que usava.
Enquanto ele o esmurrava, o motociclista reagia, mas suas habilidades de
luta nem se aproximavam das de Arthur. Esquecendo-se de Mel, Lua correu até
eles, com o coração acelerado, tentando pensar no que deveria fazer. Não havia
possibilidade de se enfiar entre os dois. Não diante da forma como tentavam se
matar.
- Arthur, pare antes que você o machuque! - a mulher gritou.
Lua assombrou-se ao escutar aquilo. Como ela sabia o nome de Arthur? A
mulher circundava os dois, como se tentasse ajudar o homem a lutar contra Arthur.
- Querido, cuidado, ele vai... Ai, isso doeu! - Ela se encolheu em uma
dor solidária, após Arthur atingir o nariz do motociclista. - Arthur, pare de
bater nele! Você vai fazer o nariz dele inchar. Ei, querido, abaixe-se!
O motociclista não se abaixou, e Arthur atingiu-o no queixo com um soco
forte, que o fez cambalear.
Atordoada, Lua alternava o olhar entre a mulher e Arthur. Como eles
podiam se conhecer?
- Eros, querido. Não! - a mulher gritou outra vez, balançando as mãos ao
lado do rosto, como um pássaro prestes a alçar voo.
Mel aproximou-se de Lua.
- Esse é o Eros que Arthur estava tentando evocar? - Lua perguntou. A
amiga deu de ombros.
- Talvez, mas nunca pensei no Cupido como um motociclista.
- Onde está Príapo? - Arthur exigiu saber, agarrando Eros e forçando-o
de encontro às grades de madeira sobre a água.
- Eu não sei.
Eros lutou para soltar as mãos de Arthur de sua camiseta preta.
- Não ouse mentir para mim. - Arthur rosnou.
- Eu não sei! - Arthur imprimiu mais força ao aperto, enquanto dois mil
anos de dor e raiva o assolavam.
Suas mãos tremiam ao segurar Eros. Porém, pior do que o seu desejo de
matar eram as perguntas incessantes que gritavam em sua mente.
Por que ninguém nunca respondera às suas evocações antes? Por que Eros o
traíra? E como eles podiam ter feito isso com ele e depois irem embora,
deixando-o sozinho com seu sofrimento?
- Onde ele está? - Arthur perguntou outra vez.
- Comendo, arrotando, inferno, eu não sei! Eu não o vejo faz uma
eternidade.
Arthur puxou Eros para longe da grade. Toda a fúria do inferno estava
refletida em seu rosto, quando ele o soltou.
- Preciso encontrá-lo. - Arthur disse por entre os dentes. - Agora.
Um músculo na mandíbula de Eros contraiu-se enquanto ele passava as mãos
pela camiseta, ajeitando-a.
- Bom, com certeza, me arrebentar não vai chamar a atenção dele.
- Então, quem sabe matando você eu consiga isso. - Arthur agarrou-o de
novo.
De repente, os outros homens começaram a avançar. Conforme eles os
cercavam, Eros desviou-se do golpe de Arthur e virou-se para deter os amigos.
- Não mexam com ele. - Eros disse, agarrando o que estava mais próximo
pelos braços e empurrando-o. - Acreditem em mim, vocês não vão querer
enfrentá-lo. Ele poderia arrancar seus corações e enfiá-los em suas bocas antes
de chegarem mortos ao chão.
Arthur fitou os motociclistas de uma forma que os desafiava a se
aproximarem. O olhar frio e letal aterrorizou Lua, e ela não duvidou de que ele
poderia mesmo fazer aquilo.
- Você está louco? - o mais alto indagou, olhando com descrença para Arthur.
- Ele não parece grande coisa.
Eros passou a mão pelo canto da boca e deu um meio sorriso ao avistar o
sangue no polegar.
- Sim, bem, é melhor acreditarem em mim. O homem tem punhos que parecem
uma marreta e uma habilidade de se mover com muito mais rapidez do que vocês
conseguiriam se esquivar.
A despeito das calças negras de couro empoeiradas e da camiseta rasgada,
Eros era incrivelmente atraente e não tinha a aparência abatida de seus
companheiros. A face juvenil teria um tipo mais delicado de beleza, se não
fosse pelo cavanhaque, pelo bigode de três dias e pelo corte em estilo militar
dos cabelos.
- Além disso, é apenas uma briguinha familiar. - Eros acrescentou, com
um estranho brilho nos olhos. Dando um tapinha no braço do motociclista, ele
riu e disse: - Meu irmãozinho sempre teve um temperamento ruim.
Lua trocou um olhar atordoado e descrente com Mel.
Continua...

Nenhum comentário:
Postar um comentário