segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Amante da fantasia - Cap. 44



- Seu imprestável pedaço de... - Arthur soltou uma série de imprecações que fariam um marinheiro corar.


Os olhos de Lua se arregalaram. Não sabia o que a surpreendia mais: Arthur agredindo um motociclista desconhecido ou o linguajar que usava.


Enquanto ele o esmurrava, o motociclista reagia, mas suas habilidades de luta nem se aproximavam das de Arthur. Esquecendo-se de Mel, Lua correu até eles, com o coração acelerado, tentando pensar no que deveria fazer. Não havia possibilidade de se enfiar entre os dois. Não diante da forma como tentavam se matar.


- Arthur, pare antes que você o machuque! - a mulher gritou.


Lua assombrou-se ao escutar aquilo. Como ela sabia o nome de Arthur? A mulher circundava os dois, como se tentasse ajudar o homem a lutar contra Arthur.


- Querido, cuidado, ele vai... Ai, isso doeu! - Ela se encolheu em uma dor solidária, após Arthur atingir o nariz do motociclista. - Arthur, pare de bater nele! Você vai fazer o nariz dele inchar. Ei, querido, abaixe-se!


O motociclista não se abaixou, e Arthur atingiu-o no queixo com um soco forte, que o fez cambalear.


Atordoada, Lua alternava o olhar entre a mulher e Arthur. Como eles podiam se conhecer?


- Eros, querido. Não! - a mulher gritou outra vez, balançando as mãos ao lado do rosto, como um pássaro prestes a alçar voo.


Mel aproximou-se de Lua.


- Esse é o Eros que Arthur estava tentando evocar? - Lua perguntou. A amiga deu de ombros.


- Talvez, mas nunca pensei no Cupido como um motociclista.


- Onde está Príapo? - Arthur exigiu saber, agarrando Eros e forçando-o de encontro às grades de madeira sobre a água.


- Eu não sei.


Eros lutou para soltar as mãos de Arthur de sua camiseta preta.


- Não ouse mentir para mim. - Arthur rosnou.


- Eu não sei! - Arthur imprimiu mais força ao aperto, enquanto dois mil anos de dor e raiva o assolavam.


Suas mãos tremiam ao segurar Eros. Porém, pior do que o seu desejo de matar eram as perguntas incessantes que gritavam em sua mente.


Por que ninguém nunca respondera às suas evocações antes? Por que Eros o traíra? E como eles podiam ter feito isso com ele e depois irem embora, deixando-o sozinho com seu sofrimento?


- Onde ele está? - Arthur perguntou outra vez.


- Comendo, arrotando, inferno, eu não sei! Eu não o vejo faz uma eternidade.


Arthur puxou Eros para longe da grade. Toda a fúria do inferno estava refletida em seu rosto, quando ele o soltou.


- Preciso encontrá-lo. - Arthur disse por entre os dentes. - Agora.


Um músculo na mandíbula de Eros contraiu-se enquanto ele passava as mãos pela camiseta, ajeitando-a.


- Bom, com certeza, me arrebentar não vai chamar a atenção dele.


- Então, quem sabe matando você eu consiga isso. - Arthur agarrou-o de novo.


De repente, os outros homens começaram a avançar. Conforme eles os cercavam, Eros desviou-se do golpe de Arthur e virou-se para deter os amigos.


- Não mexam com ele. - Eros disse, agarrando o que estava mais próximo pelos braços e empurrando-o. - Acreditem em mim, vocês não vão querer enfrentá-lo. Ele poderia arrancar seus corações e enfiá-los em suas bocas antes de chegarem mortos ao chão.


Arthur fitou os motociclistas de uma forma que os desafiava a se aproximarem. O olhar frio e letal aterrorizou Lua, e ela não duvidou de que ele poderia mesmo fazer aquilo.


- Você está louco? - o mais alto indagou, olhando com descrença para Arthur. - Ele não parece grande coisa.


Eros passou a mão pelo canto da boca e deu um meio sorriso ao avistar o sangue no polegar.


- Sim, bem, é melhor acreditarem em mim. O homem tem punhos que parecem uma marreta e uma habilidade de se mover com muito mais rapidez do que vocês conseguiriam se esquivar.


A despeito das calças negras de couro empoeiradas e da camiseta rasgada, Eros era incrivelmente atraente e não tinha a aparência abatida de seus companheiros. A face juvenil teria um tipo mais delicado de beleza, se não fosse pelo cavanhaque, pelo bigode de três dias e pelo corte em estilo militar dos cabelos.


- Além disso, é apenas uma briguinha familiar. - Eros acrescentou, com um estranho brilho nos olhos. Dando um tapinha no braço do motociclista, ele riu e disse: - Meu irmãozinho sempre teve um temperamento ruim.


Lua trocou um olhar atordoado e descrente com Mel.



Continua...

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