Fiquei parada olhando a picape se afastar.
Quando as luzes traseiras haviam quase desaparecido na escuridão,
caminhei para a entrada de casa, ouvindo o farfalhar da bainha do vestido
contra os joelhos. Meu primeiro beijo de verdade.
– E então, como foi?
A voz profunda que vinha da escuridão me assustou, fazendo com que eu
parasse na mesma hora. Olhei para as sombras.
– Arthur?
– Estou bem aqui.
Acompanhei sua voz até os degraus do terraço, onde ele estava sentado em
meio às sombras, perto de uma abóbora de Halloween que tremeluzia. Cheguei mais
perto.
– Você estava me espionando.
Arthur estendeu uma tigela.
– Estou de serviço na distribuição de doces. Quer? As crianças não
ficaram felizes com a oferenda, mas acho que só restam saquinhos de soja
caramelada.
Aceitei um saquinho e me sentei
perto dele, num degrau.
– Não costumam aparecer muitas crianças pedindo doces. Ninguém mora a
menos de um quilômetro daqui.
– Ah. – Arthur deu de ombros. – Então fui eu que odiei o doce. – Ele
tomou o cachorro quente de pelúcia dos meus braços. – Seus pais não vão gostar
disso em casa. Brinquedo imitando carne. O Atarracado ganhou isso com algum
feito de proeza física? – Em seguida jogou o brinquedo por cima do ombro, numa
cadeira do terraço.
Ignorei a provocação.
– Você estava me esperando?
Arthur olhou para a escuridão distante.
– Como foi?
– Como foi o quê?
– Ele a beijou. Como foi?
Sorri, lembrando.
– Legal.
– Legal? – Arthur deu uma fungadela curta, de desprezo. – Digo e repito:
o “legal” é superestimado.
– Por favor, não comece – pedi.
Não estrague isso.
– Quando você beijar a pessoa certa vai ser muitíssimo melhor do que
legal – resmungou Arthur
– Você não tem o direito de dizer isso.
Eu me levantei para entrar, alisando
o vestido. Ele não estragaria esse momento. Isso não iria acontecer. Para minha
surpresa, Arthur cedeu.
– Você tem razão. Fui grosseiro.
Eu não tinha o direito. – Ele deu um tapinha no degrau. – Por favor, faça-me
companhia. Acho que estou melancólico esta noite.
– Você devia ter ido à festa – falei, sentando-me de novo. Arthur
inspirou fundo e soltou o ar.
– Não havia nada lá para mim.
– Até que foi divertido. Havia jogos e a gente...
– Alguma vez, ao menos por um minuto, você analisou minha vida pela
minha perspectiva? – interrompeu Arthur, um tanto ríspido. – Já pensou em como
eu me sinto? – Ele se virou para me encarar, os olhos reluzindo fracamente,
como os da abóbora. – Alguma vez você olha para além de si mesma?
– Qual é o problema? Você está
com saudade de casa ou algo assim?

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