terça-feira, 12 de abril de 2016

Amante da fantasia - Cap. 63


- Não sei. - ela respondeu de forma honesta. - Acho que é algo que remete à minha infância, quando eu era muito insegura. Meus pais me amavam, mas eu não sabia me relacionar com as outras crianças. Meu pai era professor de história e minha mãe era dona de casa...


- Dona de casa?


- Sim, ela ficava em casa e fazia coisas de mãe. Na verdade, eles nunca me trataram como criança. Então, quando eu me aproximava das outras crianças, não sabia o que fazer, o que dizer. Eu ficava tão assustada que tremia. Por fim, meu pai começou a me levar a um psicólogo e, depois de um tempo, eu melhorei muito.


- Exceto perto de homens.


- Essa é outra história. - Ela suspirou. - Eu era uma adolescente desajeitada e os garotos da minha escola nunca se aproximavam muito, a menos que quisessem zombar de mim.


- Zombar como?


Lua deu de ombros com indiferença.


Pelo menos agora, as antigas lembranças haviam deixado de incomodá-la. Aceitara aquilo muito tempo atrás.


- Porque eu sou uma tábua, minhas orelhas se sobressaem e tenho sardas no corpo inteiro.


- É uma tábua?


- Não tenho seios.


Ela jurava que podia sentir o olhar prolongado e quente em seu peito. Virando o rosto para o lado, confirmou a sensação. De fato, ele a fitava como se ela estivesse sem camisa e no meio de...


- Você tem seios muito bonitos.


- Obrigada. - disse desajeitadamente. De alguma forma, o elogio incomum agradou-a. - E você?


- Eu não tenho seios.


Arthur disse aquilo em um tom tão sério que ela começou a gargalhar.


- Sabe que não foi isso o que eu quis dizer. Como você era quando adolescente?


- Eu já disse.


Ela lhe lançou um olhar ameaçador.


- Sem brincadeira.


- Sem brincadeira. Eu lutava, comia, bebia, fazia sexo e tomava banho. Normalmente nessa ordem.


- Nós ainda estamos lidando com essa questão da intimidade, não é? - ela perguntou retoricamente. Então, assumindo seu papel de psicóloga, passou para um assunto sobre o qual talvez ele falasse com mais facilidade. - Por que não me conta como se sentiu na primeira vez que participou de uma batalha?


- Não senti nada.


- Não teve medo?


- Do quê?


- De ser morto ou mutilado?


- Não.


A sinceridade daquela única palavra desconcertou-a.


- Como é possível que não tivesse medo?


- Você não pode temer a morte quando não tem motivo para viver.



Continua...

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