– Algo assim. É. – O brilho ficou mais forte. – Por Deus. Eu moro numa
garagem, longe de tudo o que conhecia. Fui mandado aqui para cortejar uma
mulher que me despreza em favor de um camponês...
– Jake é um cara perfeitamente legal, Arthur.
Arthur bufou.
– É isso o que você quer da vida? Algo legal? Tudo precisa ser legal?
– Legal é... legal – protestei. Arthur balançou a cabeça.
– Ah, Lua. Eu poderia lhe mostrar
coisas tão além do legal que fariam sua linda cabecinha girar.
Sua voz tinha mudado subitamente, ficando mais baixa ainda e mais
gutural. Havia nela uma qualidade que eu nunca escutara mas que reconheci por
instinto. Ímpeto sexual. Luxúria. Desejo.
Um desejo tenso, exasperado, frustrado.
– Arthur, acho que seria bom a gente entrar.
Mas ele apenas chegou mais perto
e falou com mais suavidade, porém ainda com a sugestão de uma frustração mal
contida.
– Eu poderia lhe mostrar coisas
que fariam você se esquecer de tudo o que conhece aqui, em sua vidinha
segura...
Engoli em seco. O que ele pode me mostrar? Que tipo de coisas? Estou
interessada? Sim. Não. Talvez.
– Arthur...
– Lua...
Ele se aproximou ainda mais e notei que ele ofegava. Eu também. Inalando
a força que ele sempre exalava, eu compartilhava seu ar rarefeito.
– Você nunca pensa nessa sua parte? Na parte que é Lua?
– Lua é só um nome.
– Não. Lua é uma pessoa. Uma parte de você.
Então Arthur acariciou meu rosto, tocando-o com o polegar, e eu me
peguei fechando os olhos, oscilando de leve, como se fosse uma serpente sob o
feitiço de um encantador. Sabia que deveria parar o que quer que estivesse
acontecendo, mas não fiz nada.
– A outra metade de você não se
contentaria com o “legal” – disse Arthur, baixinho. Ele envolveu meu queixo com
uma das mãos e pude sentir sua respiração na minha boca. Fria e próxima.
– Eu finalmente vi essa parte do
seu ser, do seu espírito, quando experimentou essa roupa. Você fica tão linda
nesse vestido! Ele a transforma...
Meu vestido. Tive uma sensação de poder enquanto os caras me olhavam
durante a festa e gostei disso. Mas, ao lado de Arthur, sentia esse poder fugir
ao meu controle e passar para suas mãos. Ele segurava as rédeas com tanta
segurança quanto fizera com sua égua selvagem. E isso era aterrorizante. Lambi
os lábios. Minha barriga estava retesada com aquela mistura de fome, ódio e
medo que senti na primeira vez em que ele me mostrou aqueles dentes.
Será que vai fazer isso de novo? Será? Será que deveria?
Continua...

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