– Entre, Roberta. – Arthur ainda estava curvado sobre os
joelhos, os dedos cruzados no cabelo. – Agora, por favor.
E então a porta da frente se abriu.
– Achei ter
escutado vozes aqui fora – disse papai, fingindo não perceber a tensão óbvia.
– Papai – falei esganiçada, ficando de pé. – Acabei de
chegar em casa. Arthur e eu estávamos conversando.
– Está ficando tarde – avisou papai, puxando-me para o
seu lado. – E, Arthur, acho que podemos dizer que a distribuição de doces
acabou. Você deveria ir para a cama.
– Claro senhor – respondeu Arthur, educado. Ele se
aprumou lentamente e ficou de pé também. Parecia cansado enquanto entregava a
tigela ao meu pai.
– Feliz Dia das Bruxas.
Então, entrei
correndo, subi para o quarto e arranquei o vestido, jogando-o no fundo do
armário. Puxei o cabelo, que caiu sobre os ombros. Tudo de volta ao normal.
Após vestir uma camiseta e uma calça de moletom para dormir, fui de mansinho
até a janela e olhei para a garagem. Mas a luz do quarto de Arthur estava
apagada. Ele tinha ido dormir. Ou talvez tivesse saído. Mamãe bateu à minha
porta.
– Roberta? Você
está bem?
– Estou ótima, mamãe – menti.
– Quer conversar?
– Não. – Fiquei observando a janela de Arthur, sem saber
o que estava procurando. – Só quero dormir.
– Bem, então, boa noite, querida.
Os passos de mamãe
recuaram pelo corredor e me deitei na cama, fechando os olhos com força. Não
queria – não iria – pensar no que atrairia Arthur para a escuridão. A julgar
pelo humor em que eu o havia deixado, temia que não fosse algo “legal”.
Continua...

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