- Nunca vi nada assim na minha vida. - disse um homem ao seu lado. O
sentimento dele ecoava por todo o lugar.
Devagar e com medo, Lua aproximou-se de Arthur conforme ele começava a
se mexer.
- Você está bem? - Ela o ouviu perguntar para a criança.
O menino respondeu com um choro agudo. Alheio ao som alto, Arthur
ergueu-se com cuidado, sem soltar o garoto.
Aliviada por vê-los vivos, Lua não conseguia acreditar em seus olhos.
Como ele era capaz de se mover? Como conseguira manter a criança nos braços
durante tudo aquilo?
Ele cambaleou, mas logo recuperou o equilíbrio, ainda sustentando o
menino. Lua pôs a mão nas costas dele para ampará-lo.
- Você não deveria se levantar. - disse ela ao ver o sangue no braço
esquerdo dele.
Arthur não pareceu escutá-la. Os olhos dele estavam escuros e estranhos.
- Shhh, pequenino. - ele murmurou, segurando o garoto em um dos braços
enquanto envolvia-lhe a face com o outro.
Movendo apenas a parte de cima do corpo, ele embalou a criança de uma
forma tranquilizante e segura, como apenas um pai faria. Com o olhar
assombrado, Arthur apoiou a face no topo da cabeça do menino.
- Shhh, eu peguei você. - ele murmurou. - Está seguro agora.
Aquelas ações a surpreenderam. Era evidente que aquele era um homem que
já confortara crianças antes. Mas quando um soldado grego poderia ter estado
com crianças? A não ser que ele tivesse sido pai.
A mente de Lua girava ante essa possibilidade, enquanto Arthur entregava
com cuidado o garoto soluçante para a mãe histérica, que chorava mais alto do
que o menino.
Deus, seria possível que Arthur fosse pai? Nesse caso, onde estavam os
filhos? O que acontecera com eles?
- Steven - a mãe chorava ao apertar o menino contra o peito -, quantas
vezes eu lhe disse para ficar ao meu lado?
- Você está bem? - o pai e o motorista perguntaram a Arthur.
Fazendo uma careta, Arthur passou a mão pelo bíceps esquerdo, como se
estivesse examinando o braço.
- Estou bem. - ele respondeu, mas Lua reparou no modo como ele evitava
apoiar-se na perna direita, atingida pelo carro.
- Você precisa de um médico. - disse enquanto Mel se unia a eles.
- Estou bem. De verdade. - Arthur deu um sorriso indiferente, e então
baixou a voz para que apenas Lua escutasse: - Mas, preciso dizer, brigas
machucam muito menos do que carros quando batem em você.
Lua ficou consternada com o humor inoportuno.
- Como você pode brincar agora? Achei que estivesse morto.
Ele deu de ombros.
Enquanto o homem continuava agradecendo-o profusamente por ter salvado
seu filho, Lua olhou para o sangue no braço de Arthur, acima do cotovelo.
Sangue que evaporava da pele como algum estranho efeito de filme de ficção
científica.
De repente, ele voltou a apoiar todo o peso na perna machucada, e a dor
que enrugava sua testa desapareceu. Ela trocou um olhar arregalado com Mel, que
também acompanhara a cena.
Que diabos era aquilo? Arthur era humano ou não?
- Não posso agradecer o suficiente. - disse o pai, de novo. - Achei que
ele estivesse morto.
- Estou feliz por tê-lo visto. - Arthur sussurrou, estendendo a mão na
direção da cabeça no garoto. Os dedos estavam prestes a roçar os cachos
castanho-claros, quando ele se deteve.
Lua observou as emoções conflitantes no rosto de Arthur, antes que ele
recuperasse o estoicismo e abaixasse a mão. Sem uma palavra, ele se dirigiu ao
meio-fio.
Continua...

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