- Evoque-o. - Arthur ordenou a Eros de forma sombria.
- Faça isso você. Ele está pê da vida comigo.
- Pê da vida?
O Cupido respondeu em grego.
Confusa com tudo aquilo, Lua decidiu interrompê-los e obter algumas
respostas.
- Desculpe-me, mas o que está acontecendo aqui? - perguntou a Arthur. -
Por que você bateu nele?
Arthur lançou-lhe um olhar jocoso.
- Porque me deu um enorme prazer.
- Ótimo! - Cupido prosseguiu falando com Arthur, sem olhar na direção de
Lua. - Você não me vê há, quanto tempo, dois mil anos? Então, em vez ganhar um
abraço amigável e fraternal, eu levo uma surra. - Ele sorriu com malícia para
Psiquê. - E mamãe tenta entender por que eu não sou mais próximo dos meus
irmãos.
- Não estou com disposição para o seu sarcasmo, Cupido. - disse Arthur
por entre os dentes. Cupido bufou.
- Você pode parar de me chamar desse nome horrível? Nunca o suportei, e
não posso acreditar que você o esteja usando, uma vez que odiava os romanos.
Arthur sorriu friamente.
- Eu só uso porque sei que você o despreza, Cupido.
Cupido cerrou os dentes, e Lua percebeu que ele mal conteve o impulso de
golpear o irmão.
- Agora, me diga uma coisa, você me evocou apenas para poder me
espancar? Ou há uma razão mais produtiva para eu estar aqui?
- Honestamente, eu não achei que você se incomodaria em vir, já que me
ignorou nas últimas três mil vezes que eu chamei.
- Isso porque eu sabia que você ia me bater. - Ele apontou para o rosto
inchado. - O que você realmente fez.
- Então, por que veio agora? - Arthur perguntou.
- Honestamente - disse ele, repetindo o termo usado por Arthur -, eu
achei que, a esta altura, você já estivesse morto e que eu estava sendo chamado
por algum outro mortal parecido com você.
Lua viu todas as emoções abandonarem Arthur. Era quase como se as
palavras perniciosas do Cupido tivessem matado algo dentro dele.
As palavras pareceram ter amenizado os ânimos do Cupido também.
- Veja bem - continuou -, eu sei que você me responsabiliza, mas o que
aconteceu com Penélope não foi culpa minha. Eu não tinha como saber o que
Príapo faria quando descobrisse.
Arthur estremeceu como se tivesse sido socado. Um sofrimento violento se
refletiu nos olhos atormentados e no rosto contraído.
Lua não tinha ideia de quem era Penélope, mas ela obviamente havia
significado muito para ele. - Não sabia? - ele indagou, com voz rouca.
- Juro a você, irmãozinho. - Cupido falou suavemente. Olhou para Psiquê
e de novo para Arthur.- Nunca quis que ela se machucasse, e nunca quis trair
você.
- Certo. - Arthur sorriu desdenhosamente. - E você espera que eu
acredite nisso? Conheço você bem demais, Cupido. Você se delicia devastando
vidas humanas.
- Mas ele não fez isso com você, Arthur. - disse Psiquê, em tom
suplicante. - Se não acredita nele, acredite em mim. Ninguém nunca pretendeu
que Penélope morresse daquela forma. Sua mãe ainda pranteia as mortes deles.
O olhar de Arthur se endureceu.
- Como você consegue mencioná-la? Afrodite tinha tanto ciúme de você que
primeiro tentou casá-la com um homem horrendo e, depois, tentou matá-la para
evitar que se casasse com Cupido. Para a deusa do amor, ela certamente tem
muito pouco desse sentimento por qualquer um além de si mesma.
Psiquê desviou o olhar.
- Não fale assim dela. - Cupido repreendeu-o. - Ela é nossa mãe, e
merece o seu respeito.
A raiva inflexível no rosto de Arthur teria assustado o próprio demônio,
e fez Cupido encolher-se.
- Nunca a defenda para mim.
Foi apenas nesse momento que Cupido reparou em Lua e Mel. Ele as olhou
como se elas tivessem acabado de surgir ali.
- Quem são elas?
- Amigas. - Arthur respondeu, para surpresa de Lua.
A face do Cupido tornou-se dura e fria.
- Você não tem amigos. - Arthur não respondeu, mas a expressão cansada
em seu rosto tocou Lua de um modo profundo.
Continua...

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