sexta-feira, 25 de março de 2016

Prometida a um vampiro - Cap. 41



Ah, graças a Deus. Eu limparia meu quarto ou lavaria uma trouxa extra de roupas para compensar. Lavaria até as cuecas de Arthur. Fiquei devendo uma a ela. Arthur foi atrás da mamãe se arrastando. Houve uma pausa desconfortável na conversa à mesa, durante a qual todos fingimos não escutar as expressões “participar de uma conversa educada”, “paspalhão débil mental” e “retire-se” vindas da cozinha em sussurros altos demais.

Alguns minutos depois a porta da cozinha foi batida. Mamãe voltou sozinha.

– Quem quer mais pão sírio? – perguntou ela com um sorriso de carranca, sem oferecer explicação para o sumiço de um adolescente romeno muito irritadiço.

Do outro lado da mesa, o saag de Arthur ficou coagulando em seu prato abandonado.

                                                           * * *

Depois que Jake saiu, fui até a garagem. Arthur estava treinando arremessos, usando um aro velho e enferrujado. Quicar, mirar, arremessar. Olhei-o fazer umas 10 cestas seguidas antes de interrompê-lo.

– Oi.

Ele se virou, enfiando a bola embaixo do braço, parecendo um estudante americano comum com o moletom da Faculdade Grantley que mamãe havia comprado para ele. Até que abriu a boca:

– Boa noite, Lua. A que devo a visita? Não está entretendo convidados esta noite?

– Jake precisou ir embora.

– Que pena!

Arthur jogou a bola por cima do ombro. Ela caiu através do aro.

– O que foi que deu em você? Sabia muito bem que dava para ouvir quando insultou Jake na cozinha.

– Verdade? – Arthur pareceu meio desconcertado. – Não foi minha intenção. Que grosseria.

Cruzei os braços.

– Tem alguma coisa a dizer sobre mim e o Jake? Porque, se tiver, diz na minha cara. Não fica fazendo um sermão cifrado durante o jantar sobre baleias e destino.

– O que eu poderia dizer? Você deixou sua opinião bem clara.

– Não sei aonde você quer chegar – respondi, honestamente. – Quando comprou o vestido, achei que era seu modo de dizer que não se importava se eu saísse com Jake.

A bola rolou perto dos pés de Arthur e ele se abaixou para pegá-la, depois acompanhou com o polegar as costuras gastas, evitando meus olhos.

– É. Foi o que pensei. Mas hoje, quando o vi olhando para você...

– O que é que tem?

Arthur estava mesmo com ciúme?

– Apenas não gosto dele, Lua – disse Arthur por fim. – Ele não é bom o bastante para você. Independentemente do que pense sobre nosso tênue relacionamento neste instante, não se venda barato a homem nenhum. A garoto nenhum.

– Você não conhece o Jake – resmunguei com raiva. – Nem tentou conhecê-lo. Ele se esforçou para ser legal com você durante o jantar.

Arthur deu de ombros.

– Eu o vejo na escola. Ele luta até para entender os conceitos básicos da literatura inglesa.

Isso é muito revelador, não acha?

– Então Jake não gosta de Moby Dick. Quem se importa? Eu também não gosto.

Arthur pareceu desapontado comigo. Ou triste por algum motivo. Ou as duas coisas.

– Acho que meu humor está muito atípico esta noite, Lua – disse ele, evitando meu olhar de novo. – Não sou uma companhia muito boa agora. Poderia me dar licença e me deixar com minhas atividades solitárias?

– Arthur...

– Por favor, Lua.

Ele me deu as costas e arremessou a bola com um movimento rápido do pulso. Ela passou pelo aro sem tocar na borda.

– Ótimo. Fui.

Arthur ainda fazia arremessos quando fui lá verificar uma hora depois. Estava escuro e ele jogava no pequeno círculo de luz de um holofote na garagem. Tinha passado a fazer bandejas. Ia gritar um cumprimento, mas mudei de ideia. Algo no modo obstinado com que ele convertia uma cesta após a outra, sem errar, saltando acima do aro com facilidade para enterrar a bola, como se estivesse castigando a coitada, me assustou.



Continua...

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