Ah, graças a Deus.
Eu limparia meu quarto ou lavaria uma trouxa extra de roupas para compensar.
Lavaria até as cuecas de Arthur. Fiquei devendo uma a ela. Arthur foi atrás da
mamãe se arrastando. Houve uma pausa desconfortável na conversa à mesa, durante
a qual todos fingimos não escutar as expressões “participar de uma conversa educada”,
“paspalhão débil mental” e “retire-se” vindas da cozinha em sussurros altos demais.
Alguns
minutos depois a porta da cozinha foi batida. Mamãe voltou sozinha.
–
Quem quer mais pão sírio? – perguntou ela com um sorriso de carranca, sem oferecer
explicação para o sumiço de um adolescente romeno muito irritadiço.
Do
outro lado da mesa, o saag de Arthur ficou coagulando em seu prato abandonado.
* * *
Depois
que Jake saiu, fui até a garagem. Arthur estava treinando arremessos, usando um
aro velho e enferrujado. Quicar, mirar, arremessar. Olhei-o fazer umas 10
cestas seguidas antes de interrompê-lo.
–
Oi.
Ele
se virou, enfiando a bola embaixo do braço, parecendo um estudante americano
comum com o moletom da Faculdade Grantley que mamãe havia comprado para ele. Até
que abriu a boca:
–
Boa noite, Lua. A que devo a visita? Não está entretendo convidados esta noite?
–
Jake precisou ir embora.
–
Que pena!
Arthur
jogou a bola por cima do ombro. Ela caiu através do aro.
–
O que foi que deu em você? Sabia muito bem que dava para ouvir quando insultou
Jake na cozinha.
–
Verdade? – Arthur pareceu meio desconcertado. – Não foi minha intenção. Que grosseria.
Cruzei
os braços.
–
Tem alguma coisa a dizer sobre mim e o Jake? Porque, se tiver, diz na minha
cara. Não fica fazendo um sermão cifrado durante o jantar sobre baleias e
destino.
–
O que eu poderia dizer? Você deixou sua opinião bem clara.
–
Não sei aonde você quer chegar – respondi, honestamente. – Quando comprou o
vestido, achei que era seu modo de dizer que não se importava se eu saísse com
Jake.
A
bola rolou perto dos pés de Arthur e ele se abaixou para pegá-la, depois
acompanhou com o polegar as costuras gastas, evitando meus olhos.
–
É. Foi o que pensei. Mas hoje, quando o vi olhando
para você...
–
O que é que tem?
Arthur
estava mesmo com ciúme?
–
Apenas não gosto dele, Lua – disse Arthur por fim. – Ele não é bom o bastante
para você. Independentemente do que pense sobre nosso tênue relacionamento
neste instante, não se venda barato a homem nenhum. A garoto nenhum.
–
Você não conhece o Jake – resmunguei com raiva. – Nem tentou conhecê-lo. Ele se
esforçou para ser legal com você durante o jantar.
Arthur
deu de ombros.
–
Eu o vejo na escola. Ele luta até para entender os conceitos básicos da
literatura inglesa.
Isso
é muito revelador, não acha?
–
Então Jake não gosta de Moby
Dick. Quem se importa? Eu também não
gosto.
Arthur
pareceu desapontado comigo. Ou triste por algum motivo. Ou as duas coisas.
–
Acho que meu humor está muito atípico esta noite, Lua – disse ele, evitando meu
olhar de novo. – Não sou uma companhia muito boa agora. Poderia me dar licença
e me deixar com minhas atividades solitárias?
–
Arthur...
–
Por favor, Lua.
Ele
me deu as costas e arremessou a bola com um movimento rápido do pulso. Ela
passou pelo aro sem tocar na borda.
–
Ótimo. Fui.
Arthur
ainda fazia arremessos quando fui lá verificar uma hora depois. Estava escuro e
ele jogava no pequeno círculo de luz de um holofote na garagem. Tinha passado a
fazer bandejas. Ia gritar um cumprimento, mas mudei de ideia. Algo no modo
obstinado com que ele convertia uma cesta após a outra, sem errar, saltando
acima do aro com facilidade para enterrar a bola, como se estivesse castigando
a coitada, me assustou.
Continua...

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