– Oi, Bela. – Eu sorri, dando um tapinha firme no pescoço musculoso da minha égua appaloosa. –
Pronta para se exercitar? Faltam poucas sessões de treino antes da apresentação.
– Meu sorriso sumiu de repente. O concurso do Clube da Juventude seria dali a
apenas algumas semanas e tinha parecido uma boa ideia quando me inscrevi, mas
agora eu estava sofrendo sérios ataques de nervosismo.
Bom,
era tarde demais para desistir. Não era?
Quando
estendi a mão para pegar as rédeas, tirando-as de um prego da parede, ouvi uma picape
parar do lado de fora do estábulo. Olhei para a porta e vi um estranho caminhar
em minha direção. Um homem baixo, de macacão sujo, segurando uma prancheta.
–
Pois, não? – perguntei.
–
Você conhece um tal de... – Ele olhou a prancheta. – Um tal de Lou Vlad...
aqui. – Ele estendeu a lista de nomes em minha direção. – Não consigo entender
esse nome.
–
Ah, não. – Meu coração afundou. Eu nem precisava olhar. – Vladescu. O que ele
fez agora? Encomendou alguma coisa?
–
É. E precisa receber esse monstro que está arrebentando meu trailer de tanto
chutar.
Quero
essa coisa fora de lá agora mesmo.
–
Monstro?
–
Estão me procurando?
Como
se captasse a deixa da palavra monstro, Arthur apareceu das sombras, pegou a prancheta e uma
caneta e assinou o papel.
–
Espero que saiba o que está fazendo – disse o entregador, balançando a cabeça.
–
Ah, mas é claro que sei.
Fui
atrás enquanto Arthur e o homem passavam pela arena interna de montaria, indo
na direção da porta.
–
Arthur, o que você comprou?
O
homem de macacão gritou por cima do ombro, respondendo por ele:– Seu amigo
comprou uma égua assassina. Esse bicho devia ser sacrificado.
–
Arthur?!
Todos
passamos pela porta do estábulo e chegamos ao caminho de terra, onde vi um
trailer usado para transportar cavalos. Sacudindo-se. Sons de pancadas fortes
vinham lá de dentro.
–
Você tira esse bicho de lá, garoto – insistiu o sujeito. – Não vou tocar nele
de novo.
Sem
hesitar, Arthur se aproximou da traseira do trailer, destrancou sua porta e a
abriu.
–
Ah... Arthur? Será que você deveria mesmo entrar aí?
–
O garoto está morto – observou o baixinho.
Houve
um som de luta, depois escutei a voz de Arthur acalmando o animal e cascos batendo
em metal. Em seguida, silêncio. Um longo silêncio. Finalmente, Arthur voltou, puxando
um animal muito arisco e muito forte. A égua mais negra que eu tinha visto na
vida. Devia medir uns dois metros de altura. Seus olhos se reviravam
enlouquecidos, mostrando a parte branca em contraste com o focinho de ébano.
Recuei quando passaram, mas ela se assustou e tentou me morder.
–
Fique calma – tranquilizou-a Arthur. E gritou para mim: – Desculpe -me, ela está
um tanto agitada.
O
entregador partiu, murmurando algo sobre crânios partidos, e eu acompanhei Arthur,
que estava convencendo sua nova montaria a entrar numa baia. Ao lado da de
Bela.
–
Quero que elas sejam vizinhas – sorriu Arthur.
Foi
minha vez de revirar os olhos.
–
Maravilha.
–
Calma – disse Arthur à égua de novo, enquanto ela tentava morder seus dedos.
Ele apertou o focinho do animal, lutando com ela enquanto prendia seu cabresto
nos dois lados da baia. Quando estava amarrada, ele a soltou e ela deu um
grande salto sobre Arthur, mordendo seu antebraço. – Droga!
Firmei
os pés no chão e cruzei os braços.
– Você comprou
uma égua? Essa égua?
Continua...

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