sexta-feira, 25 de março de 2016

Amante da fantasia - Cap. 58



- Mais tarde naquela mesma semana - Lua continuou -, quando ele não me ligou nem atendeu ao telefone, eu fui até o apartamento dele para vê-lo. Era primavera e a janela estava aberta. Quando passei, eu... - ela soluçou.


- Ele e o colega de quarto tinham apostado quem defloraria mais virgens no ano. - Mel completou. - Lua escutou os dois rindo dela.


Uma ira mortal atingiu-o.


Ele conhecera homens assim pessoalmente. E nunca os suportara. Na verdade, sentiu grande prazer ao purgar a Terra daquelas presenças fétidas.


- Eu me senti tão usada, tão estúpida. - Lua sussurrou. Depois, fitou-o, e o sofrimento nos belos olhos o abalou. - Eu nunca mais quero me sentir assim. - Ela cobriu o rosto com uma das mãos, mas não antes que ele identificasse a humilhação ali refletida.


- Sinto muito, Lua. - ele murmurou, puxando-a para perto.


Então, era isso. Aquela era a origem dos demônios de Lua.


Arthur abraçou-a com força e apoiou a face no topo de sua cabeça, sendo envolvido pelo aroma floral, doce e feminino. Ansiava por confortá-la. E se sentia culpado.


Não havia dúvida de que Penélope sentira-se usada da mesma forma por ele. Os deuses sabiam que, no final, ele a ferira muito mais.


Ele devia mesmo ser amaldiçoado, pensou com amargura. Tinha mais do que merecido, e não magoaria Lua. Ela era uma boa mulher com um bom coração, e ele se recusava a se aproveitar disso.


- Está tudo bem, Lua. - ele garantiu suavemente, beijando-a de leve na testa. - Eu nunca pediria que fizesse isso por mim.


Ela o fitou, surpresa.


- Eu não posso deixar de fazer isso.


- Sim, você pode. É só ir embora.


Havia um tom sombrio na voz dele. Era estranho e alheio, revelando muito sobre o homem que ele fora um dia.


- Você acha mesmo que eu poderia fazer isso?


- Por que não? Cada membro da minha família fez isso comigo. Você nem mesmo me conhece.


Os olhos dele estavam enevoados, quando ele a soltou.


- Arthur...


- Confie em mim, Lua. Eu não valho a pena. - Ele engoliu em seco. - Como general, eu era implacável na batalha. Ainda posso ver os olhos horrorizados dos milhares de homens que pereceram sob minha espada enquanto eu os cortava em pedaços, sem o mínimo remorso. - Fitou-a. - Por que você iria querer salvar alguém como eu?


Lua lembrou-se de como ele afagara o garotinho e do modo como ameaçara Cupido caso o irmão a ferisse e, enfim, soube por quê.


Ele podia ter feito aquelas coisas no passado, mas não era mau. Ele poderia tê-la estuprado a qualquer instante. Em vez disso, o homem que tão raramente experimentara gentileza apenas a abraçara.


Não, apesar dos crimes do passado, havia bondade nele. Arthur fora apenas um homem de seu tempo.


Continua...

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