- Mais tarde naquela mesma semana - Lua continuou -, quando ele não me
ligou nem atendeu ao telefone, eu fui até o apartamento dele para vê-lo. Era
primavera e a janela estava aberta. Quando passei, eu... - ela soluçou.
- Ele e o colega de quarto tinham apostado quem defloraria mais virgens
no ano. - Mel completou. - Lua escutou os dois rindo dela.
Uma ira mortal atingiu-o.
Ele conhecera homens assim pessoalmente. E nunca os suportara. Na
verdade, sentiu grande prazer ao purgar a Terra daquelas presenças fétidas.
- Eu me senti tão usada, tão estúpida. - Lua sussurrou. Depois, fitou-o,
e o sofrimento nos belos olhos o abalou. - Eu nunca mais quero me sentir assim.
- Ela cobriu o rosto com uma das mãos, mas não antes que ele identificasse a
humilhação ali refletida.
- Sinto muito, Lua. - ele murmurou, puxando-a para perto.
Então, era isso. Aquela era a origem dos demônios de Lua.
Arthur abraçou-a com força e apoiou a face no topo de sua cabeça, sendo
envolvido pelo aroma floral, doce e feminino. Ansiava por confortá-la. E se
sentia culpado.
Não havia dúvida de que Penélope sentira-se usada da mesma forma por
ele. Os deuses sabiam que, no final, ele a ferira muito mais.
Ele devia mesmo ser amaldiçoado, pensou com amargura. Tinha mais do que
merecido, e não magoaria Lua. Ela era uma boa mulher com um bom coração, e ele
se recusava a se aproveitar disso.
- Está tudo bem, Lua. - ele garantiu suavemente, beijando-a de leve na
testa. - Eu nunca pediria que fizesse isso por mim.
Ela o fitou, surpresa.
- Eu não posso deixar de fazer isso.
- Sim, você pode. É só ir embora.
Havia um tom sombrio na voz dele. Era estranho e alheio, revelando muito
sobre o homem que ele fora um dia.
- Você acha mesmo que eu poderia fazer isso?
- Por que não? Cada membro da minha família fez isso comigo. Você nem
mesmo me conhece.
Os olhos dele estavam enevoados, quando ele a soltou.
- Arthur...
- Confie em mim, Lua. Eu não valho a pena. - Ele engoliu em seco. - Como
general, eu era implacável na batalha. Ainda posso ver os olhos horrorizados
dos milhares de homens que pereceram sob minha espada enquanto eu os cortava em
pedaços, sem o mínimo remorso. - Fitou-a. - Por que você iria querer salvar
alguém como eu?
Lua lembrou-se de como ele afagara o garotinho e do modo como ameaçara
Cupido caso o irmão a ferisse e, enfim, soube por quê.
Ele podia ter feito aquelas coisas no passado, mas não era mau. Ele
poderia tê-la estuprado a qualquer instante. Em vez disso, o homem que tão
raramente experimentara gentileza apenas a abraçara.
Não, apesar dos crimes do passado, havia bondade nele. Arthur fora
apenas um homem de seu tempo.
Continua...

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