sexta-feira, 25 de março de 2016

Amante da fantasia - Cap. 49


- Os cabelos são dele.

- Está bem. - ela concordou com um suspiro melancólico e os cortou até os ombros.

- Mais curtos. - disse Arthur, quando ela se afastou.

- Tem certeza?

Ele anuiu. Lua observou em silêncio enquanto a cabeleireira cortava-lhe os cabelos em um estilo bonito, que encaracolava ao redor do rosto, lembrando-a do Davi, de Michelangelo.

Como se fosse possível, ele estava ainda mais deslumbrante do que antes.

- Como ficou? - a mulher perguntou-lhe ao terminar.

- Está bom. - Arthur respondeu. - Obrigado.

Lua deu uma gorjeta para ela antes de ir pagar pelo corte. Olhando para Arthur, ela sorriu.

- Agora você parece pertencer a este lugar.

Ele virou a cabeça para a esquerda de repente, como se ela o tivesse esbofeteado.

- Isso ofendeu você? - ela indagou, preocupada que o tivesse magoado de alguma forma. Sabia que essa era a última coisa de que ele precisava.

- Não.

Porém, em seu íntimo, ela sabia que algo a respeito de seu comentário inocente o magoara. Profundamente.

- Então - disse Mel, enquanto se misturavam à multidão no shopping -, você é o filho de Afrodite?

Ele a olhou de lado.

- Não sou filho de ninguém. Minha mãe me abandonou, meu pai me rejeitou e eu fui criado em um campo de batalha espartano sob o punho de quem estivesse por perto.

Aquelas palavras partiram o coração de Lua.

Não era de surpreender que ele fosse tão duro. Tão forte. Imaginou se alguém já o abraçara com carinho. Apenas uma vez, sem exigir que ele a agradasse antes.

Arthur andou a frente delas, e Lua observou a forma sinuosa como ele se movia. Como um predador esplendoroso e mortal. Ele tinha os polegares enfiados nos bolsos dianteiros do jeans e parecia alheio às mulheres que o olhavam embasbacadas, suspirando quando ele passava.

Ela podia apenas imaginar como ele teria sido em sua época, usando uma armadura de batalha. Dada a arrogância e os movimentos, Arthur devia ter sido um lutador feroz.

- Mel, eu não li na faculdade que os espartanos espancavam os filhos todos os dias apenas para verem quanta dor eles podiam suportar? - Lua indagou.

Arthur respondeu por ela.

- Eles faziam isso. E, uma vez por ano, promoviam competições para ver quem conseguia suportar o espancamento mais cruel antes de gritar.

- Muitos deles morriam nessas competições. - Mel acrescentou. - Ou durante o espancamento, ou mais tarde, em decorrência das feridas.

Tudo se encaixou para Lua.

As palavras que ele dissera anteriormente a respeito de ser treinado em Esparta, e seu ódio pelos gregos.

Mel lançou um olhar triste para Lua, antes de virar-se para Arthur e dizer:

- Sendo o filho de uma deusa, imagino que você consiga suportar muito.

- Sim, eu consigo. - ele se limitou a responder, a voz desprovida de emoções.

Lua nunca quisera tanto abraçar alguém como queria abraçar Arthur naquele instante. Mas ela sabia que sua atitude não seria bem recebida.




 Continua...

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