- Os
cabelos são dele.
- Está
bem. - ela concordou com um suspiro melancólico e os cortou até os ombros.
- Mais
curtos. - disse Arthur, quando ela se afastou.
- Tem
certeza?
Ele
anuiu. Lua observou em silêncio enquanto a cabeleireira cortava-lhe os cabelos
em um estilo bonito, que encaracolava ao redor do rosto, lembrando-a do Davi,
de Michelangelo.
Como se
fosse possível, ele estava ainda mais deslumbrante do que antes.
- Como
ficou? - a mulher perguntou-lhe ao terminar.
- Está
bom. - Arthur respondeu. - Obrigado.
Lua deu
uma gorjeta para ela antes de ir pagar pelo corte. Olhando para Arthur, ela
sorriu.
- Agora
você parece pertencer a este lugar.
Ele virou
a cabeça para a esquerda de repente, como se ela o tivesse esbofeteado.
- Isso
ofendeu você? - ela indagou, preocupada que o tivesse magoado de alguma forma.
Sabia que essa era a última coisa de que ele precisava.
- Não.
Porém, em
seu íntimo, ela sabia que algo a respeito de seu comentário inocente o magoara.
Profundamente.
- Então -
disse Mel, enquanto se misturavam à multidão no shopping -, você é o filho de
Afrodite?
Ele a
olhou de lado.
- Não sou
filho de ninguém. Minha mãe me abandonou, meu pai me rejeitou e eu fui criado
em um campo de batalha espartano sob o punho de quem estivesse por perto.
Aquelas
palavras partiram o coração de Lua.
Não era
de surpreender que ele fosse tão duro. Tão forte. Imaginou se alguém já o
abraçara com carinho. Apenas uma vez, sem exigir que ele a agradasse antes.
Arthur
andou a frente delas, e Lua observou a forma sinuosa como ele se movia. Como um
predador esplendoroso e mortal. Ele tinha os polegares enfiados nos bolsos
dianteiros do jeans e parecia alheio às mulheres que o olhavam embasbacadas,
suspirando quando ele passava.
Ela podia
apenas imaginar como ele teria sido em sua época, usando uma armadura de
batalha. Dada a arrogância e os movimentos, Arthur devia ter sido um lutador
feroz.
- Mel, eu
não li na faculdade que os espartanos espancavam os filhos todos os dias apenas
para verem quanta dor eles podiam suportar? - Lua indagou.
Arthur
respondeu por ela.
- Eles
faziam isso. E, uma vez por ano, promoviam competições para ver quem conseguia
suportar o espancamento mais cruel antes de gritar.
- Muitos
deles morriam nessas competições. - Mel acrescentou. - Ou durante o
espancamento, ou mais tarde, em decorrência das feridas.
Tudo se
encaixou para Lua.
As
palavras que ele dissera anteriormente a respeito de ser treinado em Esparta, e
seu ódio pelos gregos.
Mel
lançou um olhar triste para Lua, antes de virar-se para Arthur e dizer:
- Sendo o
filho de uma deusa, imagino que você consiga suportar muito.
- Sim, eu
consigo. - ele se limitou a responder, a voz desprovida de emoções.
Lua nunca
quisera tanto abraçar alguém como queria abraçar Arthur naquele instante. Mas
ela sabia que sua atitude não seria bem recebida.
Continua...

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