quarta-feira, 16 de março de 2016

Amante da fantasia - Cap. 47


Aparentemente inconsciente de como as palavras tinham sido cáusticas, Cupido moveu-se de um jeito despreocupado para o lado de Psiquê.


- Você ainda não me disse por que é tão importante encontrar Príapo.


A mandíbula de Arthur se contraiu.


- Porque ele me amaldiçoou a uma eternidade de escravidão, da qual eu não consigo me libertar. Quero Príapo aqui apenas por tempo suficiente para começar a arrancar dele partes que não crescem de novo.


Cupido empalideceu.


- Céus, ele teve coragem de fazer isso! Mamãe o teria matado se soubesse.


- Você espera mesmo que eu acredite que ele fez isso sem o conhecimento dela? Não sou tão estúpido, Eros. Aquela mulher não poderia se importar menos com o que acontece comigo.


O irmão meneou a cabeça.


- Não comece com isso. Quando eu lhe ofereci os dons dela, você me mandou enfiá-los no meu orifício traseiro. Lembra?


- Eu me pergunto o motivo. - Arthur falou com sarcasmo. - Zeus me expulsou do Olimpo horas após o meu nascimento, e Afrodite nunca se preocupou em argumentar com ele. Sempre que algum de vocês se aproximou de mim, impingiam alguma forma de tortura. - Ele lançou-lhe um olhar mortal. - Antes que um cachorro se torne mau, ele precisa ser chutado muitas vezes.


- Certo, tem razão, poderíamos ter sido um pouco mais agradáveis com você, mas...


- Mas nada, Cupido. Nenhum de vocês nunca deu a mínima para mim. Especialmente ela.


- Não é verdade. Mamãe nunca superou o fato de você ter virado as costas para ela. Você era o favorito.


Arthur zombou.


- E isso é o motivo de eu estar preso em um livro nos últimos dois mil anos?


Lua sofria por ele.


Como Cupido podia ficar ali, escutando aquilo e não fazer tudo ao seu alcance para salvar o irmão de um destino pior do que a morte? Não era de surpreender que Arthur os maldissesse.


De repente, Arthur agarrou a faca do cinto de Cupido e cortou o próprio pulso. Lua arquejou, horrorizada, mas antes que terminasse de emitir um som a ferida de Arthur curou-se por completo, sem deixar uma única gota de sangue.


Cupido arregalou os olhos.


- Diabos! - ele sussurrou. - Essa é uma das adagas de Hefesto.


- Eu sei. - Arthur devolveu-lhe a adaga. - Até mesmo você pode ser morto por uma dessas, mas eu não posso. Fui completamente condenado por Príapo.


Lua viu o terror nos olhos de Cupido, quando ele se deu conta da gravidade da sentença do irmão.


- Sabia que ele odiava você, mas nunca achei que se rebaixaria tanto. Céus, no que ele estava pensando?


- Não me importo com o que ele estava pensando. Quero apenas me libertar.


Cupido assentiu. Pela primeira vez, Lua identificou solidariedade e preocupação no rosto dele.


- Certo, irmãozinho. Uma coisa de cada vez. Aguente firme aqui e deixe-me ir encontrar mamãe e ver o que ela tem a dizer.


- Se ela me ama tanto quanto você diz, por que não evocá-la aqui para que eu fale diretamente com ela?


Cupido fitou-o com enfado.


- Porque da última vez em que eu mencionei o seu nome, ela chorou por um século. Você realmente a magoou.


Embora a postura e o rosto de Arthur estivessem rígidos e frios, Lua sentia que ele sofrera tanto quanto a mãe. Se não mais.


- Vou conversar com ela e voltarei para encontrá-lo em breve. - Cupido falou, passando um braço pelos ombros de Psiquê. - Certo?


De súbito, Arthur agarrou o colar no pescoço do Cupido e o arrancou com um puxão.


- Ei! - gritou Cupido. - Cuidado com isso. Arthur enrolou a corrente no pulso e deixou o pequeno arco balançar.


- Desta forma, eu sei que vai voltar.


Parecendo bastante irritado, Cupido esfregou o pescoço.


- Tome conta disso. Esse arco é perigoso nas mãos erradas.


- Não tema. Eu me lembro bem da ferroada dele.


Os dois trocaram um olhar de entendimento precavido.


- Vejo você mais tarde.


Cupido bateu palmas, e ele e Psiquê sumiram em uma lufada de fumaça dourada.


Lua recuou um passo, com a mente em um turbilhão. Não conseguia acreditar no que acabara de ouvir e ver.



Continua...

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