Aparentemente inconsciente de como as palavras tinham sido cáusticas,
Cupido moveu-se de um jeito despreocupado para o lado de Psiquê.
- Você ainda não me disse por que é tão importante encontrar Príapo.
A mandíbula de Arthur se contraiu.
- Porque ele me amaldiçoou a uma eternidade de escravidão, da qual eu
não consigo me libertar. Quero Príapo aqui apenas por tempo suficiente para
começar a arrancar dele partes que não crescem de novo.
Cupido empalideceu.
- Céus, ele teve coragem de fazer isso! Mamãe o teria matado se
soubesse.
- Você espera mesmo que eu acredite que ele fez isso sem o conhecimento
dela? Não sou tão estúpido, Eros. Aquela mulher não poderia se importar menos
com o que acontece comigo.
O irmão meneou a cabeça.
- Não comece com isso. Quando eu lhe ofereci os dons dela, você me
mandou enfiá-los no meu orifício traseiro. Lembra?
- Eu me pergunto o motivo. - Arthur falou com sarcasmo. - Zeus me
expulsou do Olimpo horas após o meu nascimento, e Afrodite nunca se preocupou
em argumentar com ele. Sempre que algum de vocês se aproximou de mim, impingiam
alguma forma de tortura. - Ele lançou-lhe um olhar mortal. - Antes que um
cachorro se torne mau, ele precisa ser chutado muitas vezes.
- Certo, tem razão, poderíamos ter sido um pouco mais agradáveis com
você, mas...
- Mas nada, Cupido. Nenhum de vocês nunca deu a mínima para mim.
Especialmente ela.
- Não é verdade. Mamãe nunca superou o fato de você ter virado as costas
para ela. Você era o favorito.
Arthur zombou.
- E isso é o motivo de eu estar preso em um livro nos últimos dois mil
anos?
Lua sofria por ele.
Como Cupido podia ficar ali, escutando aquilo e não fazer tudo ao seu
alcance para salvar o irmão de um destino pior do que a morte? Não era de
surpreender que Arthur os maldissesse.
De repente, Arthur agarrou a faca do cinto de Cupido e cortou o próprio
pulso. Lua arquejou, horrorizada, mas antes que terminasse de emitir um som a
ferida de Arthur curou-se por completo, sem deixar uma única gota de sangue.
Cupido arregalou os olhos.
- Diabos! - ele sussurrou. - Essa é uma das adagas de Hefesto.
- Eu sei. - Arthur devolveu-lhe a adaga. - Até mesmo você pode ser morto
por uma dessas, mas eu não posso. Fui completamente condenado por Príapo.
Lua viu o terror nos olhos de Cupido, quando ele se deu conta da
gravidade da sentença do irmão.
- Sabia que ele odiava você, mas nunca achei que se rebaixaria tanto.
Céus, no que ele estava pensando?
- Não me importo com o que ele estava pensando. Quero apenas me
libertar.
Cupido assentiu. Pela primeira vez, Lua identificou solidariedade e
preocupação no rosto dele.
- Certo, irmãozinho. Uma coisa de cada vez. Aguente firme aqui e
deixe-me ir encontrar mamãe e ver o que ela tem a dizer.
- Se ela me ama tanto quanto você diz, por que não evocá-la aqui para
que eu fale diretamente com ela?
Cupido fitou-o com enfado.
- Porque da última vez em que eu mencionei o seu nome, ela chorou por um
século. Você realmente a magoou.
Embora a postura e o rosto de Arthur estivessem rígidos e frios, Lua
sentia que ele sofrera tanto quanto a mãe. Se não mais.
- Vou conversar com ela e voltarei para encontrá-lo em breve. - Cupido
falou, passando um braço pelos ombros de Psiquê. - Certo?
De súbito, Arthur agarrou o colar no pescoço do Cupido e o arrancou com
um puxão.
- Ei! - gritou Cupido. - Cuidado com isso. Arthur enrolou a corrente no
pulso e deixou o pequeno arco balançar.
- Desta forma, eu sei que vai voltar.
Parecendo bastante irritado, Cupido esfregou o pescoço.
- Tome conta disso. Esse arco é perigoso nas mãos erradas.
- Não tema. Eu me lembro bem da ferroada dele.
Os dois trocaram um olhar de entendimento precavido.
- Vejo você mais tarde.
Cupido bateu palmas, e ele e Psiquê sumiram em uma lufada de fumaça
dourada.
Lua recuou um passo, com a mente em um turbilhão. Não conseguia
acreditar no que acabara de ouvir e ver.
Continua...

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