sexta-feira, 25 de março de 2016

Prometida a um vampiro - Cap. 39


– E então, Jake, como foi a produção de feno este ano? – perguntou papai, tentando puxar conversa.

– Boa, eu acho.

Jake parecia inseguro até mesmo para dar essa resposta simples, provavelmente por estar na berlinda, sob a inspeção dos meus pais.

– Eu ficaria feliz em mostrar alguns dos controles de pragas sem química que nós usamos, se você estiver interessado...

– Pai – interrompi. – Você prometeu. Nada de sermões ambientais.

Por que meus pais tinham feito tanta questão de jantar com Jake, afinal? Eles viviam falando em espaço pessoal e autonomia de aprendizado – até que chegou a hora de eu sair com um cara. De repente viraram a própria família americana tradicional, insistindo para que Jake jantasse com a gente, apesar de ele ter crescido ali do lado e entregar feno na nossa casa quase toda semana. Era uma pagação de mico. E o fato de Arthur estar de péssimo humor não ajudava em nada.

– Mais leite de soja? – ofereceu mamãe.

Jake levantou a mão, um pouco depressa demais.

– Não, obrigado.

– A gente acaba se acostumando com o gosto – falei, dando força.

– Ah, é. Acho que sou mais fã de leite comum.

– Que explora as vacas – acrescentou papai, apontando um garfo na direção  de Jake. – Pobres animais, postos em fila, com as tetas presas no metal frio...

Tetas?

– Papai, por favor. Não fale essa palavra...

– O que é que tem? – Papai levantou as mãos, cheio de inocência. – Jake mora numa fazenda. Tenho certeza de que ele está familiarizado com as tetas das vacas.

Cada gota de sangue no meu corpo correu para o rosto. Era bem típico do meu pai falar sobre a anatomia das vacas durante meu primeiro jantar com Jake e depois acusá-lo de estar “familiarizado” com o equivalente bovino dos seios. Como se Jake gostasse de dar uns pegas nos animais de criação ou algo parecido. Olhei para Arthur, esperando que ele desse um sorrisinho afetado, mas ele apenas remexia a salada, examinando um dos premiados tomates-cereja de papai como se fosse uma forma de vida alienígena melequenta que inexplicavelmente tivesse ido parar na ponta de seu garfo.

– Ned – interveio mamãe. – Talvez a gente pudesse mudar de assunto.

Experimentei um breve instante de alívio, até que mamãe se virou para Jake e comentou:

– Soube que vocês estão lendo Moby Dick na aula de literatura.

– Ah, é.

– Adorei esse livro quando tinha a idade de vocês – disse mamãe. – A ideia da aventura no mar... E como provoca reflexões! O que pensar da baleia branca? O que ela simboliza? – perguntou ela, ainda falando com Jake. – Deus, a natureza, o mal ou simplesmente o orgulho de Ahab?


Continua...


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