– E então, Jake, como foi a produção de feno este ano? – perguntou papai, tentando
puxar conversa.
–
Boa, eu acho.
Jake
parecia inseguro até mesmo para dar essa resposta simples, provavelmente por
estar na berlinda, sob a inspeção dos meus pais.
–
Eu ficaria feliz em mostrar alguns dos controles de pragas sem química que nós
usamos, se você estiver interessado...
–
Pai – interrompi. – Você prometeu. Nada de sermões ambientais.
Por
que meus pais tinham feito tanta questão de jantar com Jake, afinal? Eles
viviam falando em espaço pessoal e autonomia de aprendizado – até que chegou a
hora de eu sair com um cara. De repente viraram a própria família americana
tradicional, insistindo para que Jake jantasse com a gente, apesar de ele ter
crescido ali do lado e entregar feno na nossa casa quase toda semana. Era uma
pagação de mico. E o fato de Arthur estar de péssimo humor não ajudava em nada.
–
Mais leite de soja? – ofereceu mamãe.
Jake
levantou a mão, um pouco depressa demais.
–
Não, obrigado.
–
A gente acaba se acostumando com o gosto – falei, dando força.
–
Ah, é. Acho que sou mais fã de leite comum.
–
Que explora as vacas – acrescentou papai, apontando um garfo na direção de Jake. – Pobres animais, postos em fila, com
as tetas presas no metal frio...
Tetas?
–
Papai, por favor. Não fale essa palavra...
–
O que é que tem? – Papai levantou as mãos, cheio de inocência. – Jake mora numa
fazenda. Tenho certeza de que ele está familiarizado com as tetas das vacas.
Cada
gota de sangue no meu corpo correu para o rosto. Era bem típico do meu pai
falar sobre a anatomia das vacas durante meu primeiro jantar com Jake e depois
acusá-lo de estar “familiarizado” com o equivalente bovino dos seios. Como se
Jake gostasse de dar uns pegas nos animais de criação ou algo parecido. Olhei
para Arthur, esperando que ele desse um sorrisinho afetado, mas ele apenas
remexia a salada, examinando um dos premiados tomates-cereja de papai como se
fosse uma forma de vida alienígena melequenta que inexplicavelmente tivesse ido
parar na ponta de seu garfo.
–
Ned – interveio mamãe. – Talvez a gente pudesse mudar de assunto.
Experimentei
um breve instante de alívio, até que mamãe se virou para Jake e comentou:
–
Soube que vocês estão lendo Moby
Dick na aula de literatura.
–
Ah, é.
–
Adorei esse livro quando tinha a idade de vocês – disse mamãe. – A ideia da
aventura no mar... E como provoca reflexões! O que pensar da baleia branca? O
que ela simboliza? – perguntou ela, ainda falando com Jake. – Deus, a natureza,
o mal ou simplesmente o orgulho de Ahab?
Continua...

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