Houve
um momento de silêncio enquanto o pobre Jake tentava pensar numa resposta àquela
pergunta, o que, pela expressão dele, era quase tão palatável quanto o leite de
soja.
–
É... Todas essas coisas? – propôs ele finalmente.
–
Estamos lendo a versão resumida – observei, feito idiota. Eu estava acostumada
a morar com uma professora: sempre havia algum tipo de questionário durante o
jantar. Mas será que mamãe precisava atormentar o coitado do Jake? – Talvez
tenham cortado algumas metáforas...
–
A baleia representa as forças ocultas da destruição que anseiam romper a superfície
de um mundo complacente – intrometeu-se Arthur, falando pela primeira vez e
fazendo com que todas as cabeças se virassem na sua direção.
–
Hein? – reagiu Jake, claramente desconcertado. Depois se controlou e me lançou
um olhar sem graça.
–
Eu gosto da baleia – acrescentou Arthur mal-humorado, ainda encarando seu
prato. – E de Ahab. Eles sabiam o que era persistência. Sabiam esperar o
momento adequado. – Ele ergueu os olhos negros e me lançou um olhar tão afiado
quanto suas presas. – E aceitavam seu destino
mútuo, por mais desagradável que fosse.
Não.
Meu estômago ficou embrulhado. Se
Arthur começar a falar do noivado, Jake vai fugir para as montanhas. E por que Arthur
está se referindo ao destino comigo como “desagradável”, afinal? Está sugerindo
que se casar comigo seria tão ruim quanto ficar amarrado a uma baleia
agonizante?
–
Ô, Arthur, como foi o treino de basquete? – perguntei, tentando
desesperadamente mudar de assunto e deixar a conversa sob controle.
–
Vi você na quadra, cara – observou Jake. – Você está, tipo, no nível da NBA.
Poderia levar o time para o campeonato estadual com aquele arremesso de três
pontos. Acertou todos nos treinos.
–
Ah, é, os treinos – disse Arthur, entediado.
–
“Treinar é aprimorar” – sugeriu Jake.
–
Treinar é se entediar – contrapôs Arthur, sem olhar para Jake. – Prefiro a
competição.
–
Você pratica luta, não é, Jake? – perguntou papai, passando mais saag para
nosso convidado.
Meus pais estavam na fase da comida indiana. A
entrada da noite consistia em espinafre murcho. Só nos meus sonhos a gente
receberia as visitas com um churrasco. Jake observou cauteloso o conteúdo verde
e mole mas aceitou a tigela.
–
É. Sou o capitão do time este ano.
–
Que coisa mais greco-romana... – comentou Arthur secamente, levantando um
bocado de espinafre e deixando-o pingar do garfo – ficar se embolando num
tatame.
Jake
me lançou um olhar confuso. Respondi com um dar de ombros que queria dizer “ignore
o aluno de intercâmbio ranzinza”.
Mamãe
jogou o guardanapo na mesa.
– Arthur, será
que posso falar com você na cozinha?
Continua...
Continua...

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