sexta-feira, 25 de março de 2016

Prometida a um vampiro - Cap. 42


Caro Tio Vasile,

Desejo-lhe tudo de bom, enquanto nos aproximamos do Dia das Bruxas. O senhor gostaria muito das representações dos vampiros que os americanos fazem de modo um tanto compulsivo nesta época do ano. Seria de pensar que toda a nossa raça consistisse  em homens pálidos, de meia-idade, com tendência genética a ter o couro cabeludo formando um V na testa e uma queda por gel em excesso.

Mas vamos logo ao ponto. Odeio admitir que vejo a situação aqui fugir cada vez mais ao meu controle. Como anunciei em minha última correspondência, de fato tentei numerosas estratégias
“americanas” para ao menos criar algum tipo de relacionamento com Lua – inclusive usar calças “jeans” (que, aliás, são bastante confortáveis) e, como mencionei, jogar basquete, um esporte para “garotos populares”. (Pode me chamar de Magic Arthur.)

Porém, até agora, Lua parece muito pouco impressionada com meus melhores esforços. Na verdade está “se envolvendo” com o camponês. (Vasile, se o senhor o ouvisse tentando participar de uma conversa... É insuportável. Eu preferiria ter nossas onipresentes lentilhas enfiadas nos ouvidos do que escutá-lo por mais de dois minutos.) Para ser sincero, Lua me deixa perplexo. Outro dia pensei que havíamos experimentado um avanço significativo. Comprei um vestido magnífico para ela – se o senhor a visse nele, teria achado que estava quase pronta para assumir o trono. Por um momento brevíssimo achei que fizéramos progresso. A expressão em seus olhos, observando-se ao espelho... Algo ficou diferente nela, Vasile. Diferente em relação a mim, eu poderia jurar!

No entanto, o camponês gruda feito um parasita. Um sanguessuga ou um carrapato que não pode ser arrancado. O que Lua vê nele? E por que insiste em continuar a ver? Eu poderia lhe oferecer muito mais. Em particular, conversa. Réplicas. Para não mencionar a liderança de dois clãs poderosos. Um castelo. Serviçais. Qualquer coisa que desejasse. Coisas que ela merece, Vasile.
Maldição. Estou falando bobagens.

O cerne da questão é que temo que o senhor fique desapontado comigo se eu não conseguir convencer Lua a honrar o pacto e me aceitar como marido. E, com toda a honestidade, seu desapontamento é uma perspectiva bastante temível. Com isso, sinto-me compelido a mantê-lo a par da situação à medida que esta se desdobra. Certamente não quero lhe apresentar um fracasso antecipado. Prefiro apenas prepará-lo para a pior eventualidade – ao mesmo tempo que pretendo continuar a me empenhar.

Seu sobrinho, humildemente,
Arthur.

P.S.: Se alguém lhe oferecer “saag”, recuse, se for possível fazê-lo sem violar as regras da boa educação. Há alguma chance de o cozinheiro enviar para cá uma ou duas lebres congeladas?

P.P.S.: O investimento que fiz com seu depósito chegará logo. Estou ansioso.

P.P.P.S.: O camponês não entende o simbolismo da baleia em Moby Dick, Vasile. Juro. Conceitos que foram literalmente golpeados no meu cérebro (lembra-se de minha tutora meio cigana, Bogdana, cujo entendimento de estratagemas literários só era suplantado pela capacidade de usar a chibata?) durante a pré-adolescência permanecem fora do alcance dele. Será que tem alguma deficiência mental? Ou será simplesmente tapado?

Parasita.

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