Caro Tio
Vasile,
Desejo-lhe
tudo de bom, enquanto nos aproximamos do Dia das Bruxas. O senhor gostaria
muito das representações dos vampiros que os americanos fazem de modo um tanto
compulsivo nesta época do ano. Seria de pensar que toda a nossa raça
consistisse em homens pálidos, de
meia-idade, com tendência genética a ter o couro cabeludo formando um V na
testa e uma queda por gel em excesso.
Mas
vamos logo ao ponto. Odeio admitir que vejo a situação aqui fugir cada vez mais
ao meu controle. Como anunciei em minha última correspondência, de fato tentei
numerosas estratégias
“americanas”
para ao menos criar algum tipo de relacionamento com Lua – inclusive usar calças
“jeans” (que, aliás, são bastante confortáveis) e, como mencionei, jogar
basquete, um esporte para “garotos populares”. (Pode me chamar de Magic Arthur.)
Porém,
até agora, Lua parece muito pouco impressionada com meus melhores esforços. Na
verdade está “se envolvendo” com o camponês. (Vasile, se o senhor o ouvisse
tentando participar de uma conversa... É insuportável. Eu preferiria ter nossas
onipresentes lentilhas enfiadas nos ouvidos do que escutá-lo por mais de dois
minutos.) Para ser sincero, Lua me deixa perplexo. Outro dia pensei que havíamos
experimentado um avanço significativo. Comprei um vestido magnífico para ela –
se o senhor a visse nele, teria achado que estava quase pronta para assumir o
trono. Por um momento brevíssimo achei que fizéramos progresso. A expressão em
seus olhos, observando-se ao espelho... Algo ficou diferente nela, Vasile.
Diferente em relação a mim, eu poderia jurar!
No
entanto, o camponês gruda feito um parasita. Um sanguessuga ou um carrapato que
não pode ser arrancado. O que Lua vê nele? E por que insiste em continuar a
ver? Eu poderia lhe oferecer muito mais. Em particular, conversa. Réplicas.
Para não mencionar a liderança de dois clãs poderosos. Um castelo. Serviçais.
Qualquer coisa que desejasse. Coisas que ela merece, Vasile.
Maldição.
Estou falando bobagens.
O cerne
da questão é que temo que o senhor fique desapontado comigo se eu não conseguir
convencer Lua a honrar o pacto e me aceitar como marido. E, com toda a honestidade,
seu desapontamento é uma perspectiva bastante temível. Com isso, sinto-me compelido
a mantê-lo a par da situação à medida que esta se desdobra. Certamente não quero
lhe apresentar um fracasso antecipado. Prefiro apenas prepará-lo para a pior eventualidade
– ao mesmo tempo que pretendo continuar a me empenhar.
Seu
sobrinho, humildemente,
Arthur.
P.S.:
Se alguém lhe oferecer “saag”, recuse, se for possível fazê-lo sem violar as
regras da boa educação. Há alguma chance de o cozinheiro enviar para cá uma ou
duas lebres congeladas?
P.P.S.:
O investimento que fiz com seu depósito chegará logo. Estou ansioso.
P.P.P.S.:
O camponês não entende o simbolismo da baleia em Moby Dick,
Vasile. Juro. Conceitos que foram literalmente golpeados no meu cérebro
(lembra-se de minha tutora meio cigana, Bogdana, cujo entendimento de
estratagemas literários só era suplantado pela capacidade de usar a chibata?)
durante a pré-adolescência permanecem fora do alcance dele. Será que tem alguma
deficiência mental? Ou será simplesmente tapado?
Parasita.

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