segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Casamento por conveniência



Cap. 16



— Ah, minha Lua. Você é sempre uma criatura adorável e determinada — ele sussurrou.
Nesse momento, a porta foi aberta e ela olhou para ver Dona Katia e Arthur entrarem, seguidos pela enfermeira.
— Ele não pode se cansar — disse a enfermeira, trazendo uma bandeja. — A senhora pode nos dar licença, Sr ª. Aguiar? Preciso dar o remédio a Billy
Lua sentiu um choque ao ser chamada de Sr ª. Aguiar. Desde o casamento eles haviam estado na ilha e os criados se dirigiam a ela como Dona Lua ou, em grego, Kiria Lua. Era assim que ela fora chamada durante suas muitas estadas na Argentina. Agora a verdade de sua situação e todas suas implicações a atingiram como nunca antes.
— Está certo — ela disse, levantando e beijando a testa do avô. — Voltarei mais tarde, querido — sussurrou.
Ele balançou a cabeça sem força, mas ela podia ver que ele estava mais pálido, que até mesmo os poucos instantes que passaram juntos o haviam cansado.
Mordendo o lábio, ela virou, olhou para o marido e saiu do quarto.
Dona Katia pegou seu braço.
— Sinto muito, Lua — ela disse, segurando a mão da menina, com pena de vê-la sofrendo tanto. — Agora desça e tome uma xícara de chá ou alguma outra coisa, irá lhe fazer bem. Seu avô está sendo cuidado da melhor forma.
Lua mal balançou a cabeça. Seus pensamentos estavam cheios de tantas outras coisas que ela não conseguia se concentrar no que a sogra dizia. Quando eles estavam na sala de visitas, ela notou vaga­mente Arthur, perto da lareira, com a expressão rígida, a testa enru­gada. Talvez estivesse aborrecido pelo término repentino da lua-de-mel. Bem, azar. Ela não devia ter viajado, muito menos ter feito o que estivera fazendo.
Mas apesar da tristeza e da preocupação, Lua não podia banir inteiramente o que sentiu no momento em que lembrou da noite ante­rior. Ela olhou para o marido de forma fugaz e então virou o rosto. Era errado sentir aquilo quando tanta coisa estava em jogo, quando a vida de seu avô estava chegando ao fim. Totalmente errado.

Arthur, como sempre impecável em um terno cinza-escuro, apoiava o braço na quina da lareira. Ele conversou um pouco com a mãe e observou quando o mordomo trouxera chá, aceitando uma xí­cara. Sabia que Lua tinha acabado de sentar, parecendo entorpecida, como se seu mundo estivesse desmoronando. Só de olhar para Billy e trocar um olhar com a mãe, Arthur soube que se aproxima­va o fim. Talvez tenha sido por isso que Billy não fora ainda levado para o hospital, ele refletiu, tristemente. Talvez o velho cava­lheiro preferisse passar seus últimos momentos em sua própria casa, em sua própria cama. E se fosse esse o caso, seu desejo deveria ser respeitado.
Ele olhou para Lua, vendo a linha determinada de sua boca. Pre­cisava fazê-la perceber a realidade. Não podia deixar que a vida do avô se arrastasse, sujeitá-lo a um tratamento que não o faria melhorar, apenas para satisfazer à necessidade dela de mantê-lo vivo. Naquele momento, Arthur  notou que havia muito mais num casamento do que apenas dormir com a esposa. O papel do marido era também o de ajudá-la a tomar a decisão correta. Com esperança, ele se apercebeu que Lua e ele talvez pudessem atravessar com firmeza o primeiro obstáculo que teriam em seu caminho juntos.
Por um minuto, ele olhou para a mãe, sentada graciosamente ao lado de Lua, com os cabelos prateados muito bem penteados, o vestido Chanel elegante, e pensou como devia ter sido para uma me­nina de 18 anos casar-se com um homem vinte anos mais velho, um homem que mal conhecia antes das núpcias, e perguntou-se se ela teria se arrependido. Seus pais jamais passaram a impressão de serem infelizes. Muito pelo contrário, agora ele pensava. Talvez houvesse algo a ser dito sobre essa história de casamento arranjado, afinal.
Esses pensamentos o ergueram.
Deus, ele percebeu, horrorizado. Com a correria das últimas sema­nas, esquecera totalmente de avisar a Luísa sobre o casamento e as mudanças de sua vida!


Continua..?

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