Cap. 20
— Pensei que estivesse claro — ele respondeu. — Tenho minhas empresas para administrar, minha fazenda. Tenho que gerenciar meus negócios, assim como os seus — ele acrescentou, com um toque de humor. — Por que você reluta tanto em ir?
Por um breve momento, ela quase contou a ele sobre a revista e o artigo que lera. Mas logo o orgulho e a dignidade falaram mais alto e, balançando a cabeça, ela fixou seu olhar nele.
— Não acho que seja o momento.
— Ao contrário. Tem que acontecer algum dia. Melhor que seja agora, poderemos deixar tudo se acomodar. Você precisa descansar, se afastar e relaxar depois de toda a tensão por que passou.
— Não acredito que Buenos Aires vá ser relaxante — ela murmurou, intimidada.
— Não vejo por que não. E uma parte do mundo muito agradável. Você fará amigos, terá uma vida lá assim como tem em Londres, Paris e outras cidades em que vivemos. Afinal, lá será nossa casa principal. Quero comprar uma nova casa, ou um apartamento.
— O que há de errado com o que você tem? — ela perguntou, com o olhar desafiador.
— Nada. Mas é afinal a residência de um solteiro. E muito pequena para uma família.
—Somos apenas duas pessoas — ela disse, levantando uma das sobrancelhas. — E quem sabe? Talvez eu goste de lá.
— Não — ele disse, demonstrando um tremor de determinação nos olhos. — Ficaremos em uma suíte no Hotel Alvear até encontrarmos algo adequado.
Lua não discutiu. Já percebera que, quando Arthur botava uma idéia na cabeça, não adiantava discutir. Ele não gritava ou perdia a calma, simplesmente usava um tom de voz baixo, muito autoritário, que não deixava dúvidas ao ouvinte quanto à conclusão do assunto.
Bem, que fosse assim, ela refletiu, com um suspiro. De certa forma, talvez fosse bom ir para Buenos Aires. Um dia teria que enfrentar a verdade e, talvez, quanto antes o fizesse, acabando com esse mundo de fantasia em que vinha vivendo nas últimas semanas, melhor seria. Teria que enfrentar isso sozinha, notou tristemente, observando-o com uma ponta de tristeza e algo mais, enquanto ele se afastava. Era difícil pensar que ele era tão passional na cama com ela e pudesse agir da mesma forma com outra mulher.
Esse pensamento doía e Lua virou, olhando para a janela de forma arrebatadora, determinada a não deixar que ele a visse angustiada. Lidaria com isso, teria controle sobre a situação, se livraria daquele ciúme estúpido que sentira ao ver aquela foto na revista.
E, no fim, venceria.
Desde que era pequena, Lua sempre achara estranho sair de Londres no meio do verão e desembarcar em Buenos Aires com um casaco na mão. E agora ela estava ali, no Hotel Alvear Palace, o hotel das grandes damas de Buenos Aires, e algumas de suas inquietações foram amenizadas. Arthur estava atencioso e solícito, certificando-se não só de que ela não estivesse sendo posta em segundo plano, o que era seu maior medo, mas que ocupasse o lugar principal.
Ainda de luto por causa do avô, Lua não sentia vontade de cumprir obrigações sociais. Mas Arthur insistiu em levá-la para sair na primeira noite, e eles foram a um restaurante excelente na Recoleta. Disse que comeriam assados divinos, feitos com a fabulosa carne argentina, e talvez assistissem a um tango no Viejo Almazen.
E então ele apareceu com uma grande surpresa que, apesar dos esforços de Lua para olhá-lo de forma intransigente, tocou seu coração.
Eles estavam jantando, já na sobremesa, quando de repente Christopher se inclinou para a frente na mesa.
— Lua, mi linda — ele disse, com a voz baixa e o olhar penetrante. — Eu devo a você.
— Deve a mim? — Ela franziu a testa, sem compreender. — Que eu me lembre, você não me deve nada. — Na verdade, se fosse contar, provavelmente era ela quem devia algo a ele. Arthur tomou a frente dos negócios do avô dela de uma forma tão eficiente e dedicada que não deixou dúvida aos conselheiros e advogados sobre quem estava no comando.
— Ah, devo sim — ele insistiu. Ao mesmo tempo, retirou uma pequena caixa de couro do bolso do paletó. — Esta é a primeira coisa que devo a você. — Ele deslizou uma caixa vermelha da Cartier pela mesa.
Lua hesitou, com o coração de repente batendo mais rápido. Então, abriu a caixa. Um lindo anel de diamante brilhava para ela. Arthur o pegou e retirou da caixa. Sorrindo para Lua, ele levantou sua mão esquerda e colocou o anel em seu dedo, juntamente com a aliança de casamento.
— Este — ele disse, olhando dentro dos olhos dela — é seu anel de noivado. Se você não gostar, podemos trocar.
— Ah, não, eu adorei. É lindo — ela assegurou, olhando para a jóia e emocionada por ele ter lembrado deste detalhe.
— E este — ele disse, abrindo uma estojo de jóia comprido — é seu presente de casamento. — Ele retirou uma delicada pulseira trançada de diamantes e safiras.
Lua levantou o pulso, encantada.
— É lindíssima, Arthur. É exclusiva, não é? — ela exclamou, olhando para a pulseira e mordendo o lábio, sem saber como expressar o quanto aquele gesto significava.
— Sim. Eu a vi no catálogo de vendas da Sotheby`s e pedi para meu representante em Paris que a arrematasse. Eu sabia que você provavelmente teria milhares de peças de jóias exclusivas herdadas de sua mãe e sua avó, mas essa pulseira me pareceu muito especial.
— E é! — ela exclamou, lutando contra as lágrimas que começavam a formar-se em seus olhos. De repente, sentiu-se má. Ali estava ela, tentando rejeitar aquele homem, enquanto ele se esforçava para que o casamento deles desse certo. Talvez estivesse sendo muito tola e imatura.
Ela olhou para ele e sorriu com carinho.
— Obrigada, Arthur. Você me tocou. Foi adorável de sua parte pensar assim.
Continua...

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