segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Casamento por conveniência



Cap. 20



— Pensei que estivesse claro — ele respondeu. — Tenho minhas empresas para administrar, minha fazenda. Tenho que gerenciar meus negócios, assim como os seus — ele acrescentou, com um to­que de humor. — Por que você reluta tanto em ir?

Por um breve momento, ela quase contou a ele sobre a revista e o artigo que lera. Mas logo o orgulho e a dignidade falaram mais alto e, balançando a cabeça, ela fixou seu olhar nele.

— Não acho que seja o momento.

— Ao contrário. Tem que acontecer algum dia. Melhor que seja agora, poderemos deixar tudo se acomodar. Você precisa descansar, se afastar e relaxar depois de toda a tensão por que passou.

— Não acredito que Buenos Aires vá ser relaxante — ela murmu­rou, intimidada.

— Não vejo por que não. E uma parte do mundo muito agradável. Você fará amigos, terá uma vida lá assim como tem em Londres, Paris e outras cidades em que vivemos. Afinal, lá será nossa casa principal. Quero comprar uma nova casa, ou um apartamento.

— O que há de errado com o que você tem? — ela perguntou, com o olhar desafiador.

— Nada. Mas é afinal a residência de um solteiro. E muito peque­na para uma família.

—Somos apenas duas pessoas — ela disse, levantando uma das sobrancelhas. — E quem sabe? Talvez eu goste de lá.

— Não — ele disse, demonstrando um tremor de determinação nos olhos. — Ficaremos em uma suíte no Hotel Alvear até encontrar­mos algo adequado.

Lua não discutiu. Já percebera que, quando Arthur botava uma idéia na cabeça, não adiantava discutir. Ele não gritava ou perdia a calma, simplesmente usava um tom de voz baixo, muito autoritário, que não deixava dúvidas ao ouvinte quanto à conclusão do assunto.

Bem, que fosse assim, ela refletiu, com um suspiro. De certa for­ma, talvez fosse bom ir para Buenos Aires. Um dia teria que enfrentar a verdade e, talvez, quanto antes o fizesse, acabando com esse mundo de fantasia em que vinha vivendo nas últimas semanas, melhor seria. Teria que enfrentar isso sozinha, notou tristemente, observando-o com uma ponta de tristeza e algo mais, enquanto ele se afastava. Era difícil pensar que ele era tão passional na cama com ela e pudesse agir da mesma forma com outra mulher.

Esse pensamento doía e Lua virou, olhando para a janela de for­ma arrebatadora, determinada a não deixar que ele a visse angustiada. Lidaria com isso, teria controle sobre a situação, se livraria daquele ciúme estúpido que sentira ao ver aquela foto na revista.

E, no fim, venceria.

Desde que era pequena, Lua sempre achara estranho sair de Lon­dres no meio do verão e desembarcar em Buenos Aires com um casa­co na mão. E agora ela estava ali, no Hotel Alvear Palace, o hotel das grandes damas de Buenos Aires, e algumas de suas inquietações fo­ram amenizadas. Arthur estava atencioso e solícito, certificando-se não só de que ela não estivesse sendo posta em segundo plano, o que era seu maior medo, mas que ocupasse o lugar principal.

Ainda de luto por causa do avô, Lua não sentia vontade de cum­prir obrigações sociais. Mas Arthur insistiu em levá-la para sair na primeira noite, e eles foram a um restaurante excelente na Recoleta. Disse que comeriam assados divinos, feitos com a fabulosa carne argentina, e talvez assistissem a um tango no Viejo Almazen.

E então ele apareceu com uma grande surpresa que, apesar dos es­forços de Lua para olhá-lo de forma intransigente, tocou seu coração.

Eles estavam jantando, já na sobremesa, quando de repente Christopher se inclinou para a frente na mesa.

— Lua, mi linda — ele disse, com a voz baixa e o olhar penetran­te. — Eu devo a você.

— Deve a mim? — Ela franziu a testa, sem compreender. — Que eu me lembre, você não me deve nada. — Na verdade, se fosse con­tar, provavelmente era ela quem devia algo a ele. Arthur tomou a frente dos negócios do avô dela de uma forma tão eficiente e dedica­da que não deixou dúvida aos conselheiros e advogados sobre quem estava no comando.

— Ah, devo sim — ele insistiu. Ao mesmo tempo, retirou uma pequena caixa de couro do bolso do paletó. — Esta é a primeira coisa que devo a você. — Ele deslizou uma caixa vermelha da Cartier pela mesa.

Lua hesitou, com o coração de repente batendo mais rápido. En­tão, abriu a caixa. Um lindo anel de diamante brilhava para ela. Arthur o pegou e retirou da caixa. Sorrindo para Lua, ele levantou sua mão esquerda e colocou o anel em seu dedo, juntamente com a alian­ça de casamento.

— Este — ele disse, olhando dentro dos olhos dela — é seu anel de noivado. Se você não gostar, podemos trocar.

— Ah, não, eu adorei. É lindo — ela assegurou, olhando para a jóia e emocionada por ele ter lembrado deste detalhe.

— E este — ele disse, abrindo uma estojo de jóia comprido — é seu presente de casamento. — Ele retirou uma delicada pulseira tran­çada de diamantes e safiras.

Lua levantou o pulso, encantada.

— É lindíssima, Arthur. É exclusiva, não é? — ela exclamou, olhando para a pulseira e mordendo o lábio, sem saber como expres­sar o quanto aquele gesto significava.

— Sim. Eu a vi no catálogo de vendas da Sotheby`s e pedi para meu representante em Paris que a arrematasse. Eu sabia que você provavelmente teria milhares de peças de jóias exclusivas herdadas de sua mãe e sua avó, mas essa pulseira me pareceu muito especial.

— E é! — ela exclamou, lutando contra as lágrimas que começa­vam a formar-se em seus olhos. De repente, sentiu-se má. Ali estava ela, tentando rejeitar aquele homem, enquanto ele se esforçava para que o casamento deles desse certo. Talvez estivesse sendo muito tola e imatura.

Ela olhou para ele e sorriu com carinho.

— Obrigada, Arthur. Você me tocou. Foi adorável de sua parte pensar assim.



Continua...

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