Cap.27
— Qual o problema,
Lua? Você parece pálida — disse Elisa, preocupada.
— Estou bem. — Ela
lançou à outra mulher um sorriso amarelo e ajeitou seu cabelo com elegância,
esforçando-se para não fazer de si mesma uma total idiota.
Fora uma tola em
pensar que Arthur desistiria de seu antigo estilo de vida, que só porque
passara bastante tempo na cama com ela abandonaria suas amantes. Estúpida e
ingênua eram os termos corretos. Por que não seguira seus instintos iniciais e
mantivera o casamento como tinha sido concebido inicialmente? Um acordo. Uma
solução satisfatória para um problema. Mas não. Permitiu-se envolver, ser
vítima do enorme charme dele, de suas maravilhosas maneiras, cair pelas suas
demonstrações de gentileza e, os fatos precisavam ser encarados, pela paixão e
intimidade física que ele ensinara a ela e que agora faziam parte de sua
existência.
Tola e
despreparada. Eis o que ela era. Talvez Arthur tivesse gostado de lhe ensinar
algumas coisas, os homens sempre apreciam ser os primeiros na vida das
mulheres, ensinar-lhes os truques, ela refletiu, determinada a não olhar para
o mezanino, mas a manter sua dignidade. Pensava que ele também estivesse
gostando de estar com ela. Que ilusão estúpida! Ele gostava da vida ao lado da
sofisticada Luísa, uma mulher do mundo, com quem compartilhava interesses
parecidos, amigos e uma vida. Segurando as lágrimas e determinada a não as
deixar cair, Lua notou, de repente, que não passava de um peixe fora d`água.
Agora não.
Ela não faria, não podia fazer
um espetáculo em público. Custasse o que custasse, ela agüentaria, comeria o
prato diante dela e conversaria normalmente com Elisa, como se nada tivesse
acontecido. Não daria àquela mulher o prazer de vê-la derrotada.
Desconfortavelmente,
Elisa olhou na direção do mezanino. Ela imaginou se Lua vira o casal e hesitou,
presa entre o desejo de avisar a moça e suas dúvidas sobre se ela os tinha
notado. Decidiu ser melhor não tocar no assunto, pois Lua podia não ter
percebido. Mas apesar de seus esforços para manter a conversa e parecer
despreocupada, Elisa pôde ver que algo estava errado.
Ela deve tê-los
visto, pensou Elisa, torcendo pela esposa de Arthur, admirando sua dignidade e
seu orgulho e o fato de não ter feito uma cena ou corrido do restaurante às
lágrimas. Era difícil encarar algo daquele tipo, e ela estava contente em ver
que Lua não era uma tola. Na realidade, refletiu, dando uma olhadela para Arthur,
aparentemente absorvido pela conversa com Luísa, sinceramente esperava que Lua
o fizesse mostrar-se merecedor dela. Tal atitude não faria mal algum a Arthur.
Sim, era verdade,
vários homens tinham vidas duplas. A velha história de matriz e filial era
ainda muito comum, era quase uma questão de status um homem
manter uma bela amante. Mas de alguma forma Elisa sentia que aquela situação
era diferente. Havia um vestígio de determinação em Lua que não podia ser
confundido. E Elisa não se surpreenderia se, no fim, Lua ganhasse o dia.
Continua...

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