segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Casamento por conveniência


Cap.27

— Qual o problema, Lua? Você parece pálida — disse Elisa, preocupada.


— Estou bem. — Ela lançou à outra mulher um sorriso amarelo e ajeitou seu cabelo com elegância, esforçando-se para não fazer de si mesma uma total idiota.


Fora uma tola em pensar que Arthur desistiria de seu antigo estilo de vida, que só porque passara bastante tempo na cama com ela aban­donaria suas amantes. Estúpida e ingênua eram os termos corretos. Por que não seguira seus instintos iniciais e mantivera o casamento como tinha sido concebido inicialmente? Um acordo. Uma solução satisfatória para um problema. Mas não. Permitiu-se envolver, ser vítima do enorme charme dele, de suas maravilhosas maneiras, cair pelas suas demonstrações de gentileza e, os fatos precisavam ser en­carados, pela paixão e intimidade física que ele ensinara a ela e que agora faziam parte de sua existência.


Tola e despreparada. Eis o que ela era. Talvez Arthur tivesse gos­tado de lhe ensinar algumas coisas, os homens sempre apreciam ser os primeiros na vida das mulheres, ensinar-lhes os truques, ela refle­tiu, determinada a não olhar para o mezanino, mas a manter sua dig­nidade. Pensava que ele também estivesse gostando de estar com ela. Que ilusão estúpida! Ele gostava da vida ao lado da sofisticada Luísa, uma mulher do mundo, com quem compartilhava interesses pareci­dos, amigos e uma vida. Segurando as lágrimas e determinada a não as deixar cair, Lua notou, de repente, que não passava de um peixe fora d`água.


Agora não.


Ela não faria, não podia fazer um espetáculo em público. Custasse o que custasse, ela agüentaria, comeria o prato diante dela e conver­saria normalmente com Elisa, como se nada tivesse acontecido. Não daria àquela mulher o prazer de vê-la derrotada.


Desconfortavelmente, Elisa olhou na direção do mezanino. Ela imaginou se Lua vira o casal e hesitou, presa entre o desejo de avisar a moça e suas dúvidas sobre se ela os tinha notado. Decidiu ser me­lhor não tocar no assunto, pois Lua podia não ter percebido. Mas apesar de seus esforços para manter a conversa e parecer despreocu­pada, Elisa pôde ver que algo estava errado.


Ela deve tê-los visto, pensou Elisa, torcendo pela esposa de Arthur, admirando sua dignidade e seu orgulho e o fato de não ter feito uma cena ou corrido do restaurante às lágrimas. Era difícil encarar algo daquele tipo, e ela estava contente em ver que Lua não era uma tola. Na realidade, refletiu, dando uma olhadela para Arthur, aparentemente absorvido pela conversa com Luísa, sinceramente esperava que Lua o fizesse mostrar-se merecedor dela. Tal atitude não faria mal algum a Arthur.


Sim, era verdade, vários homens tinham vidas duplas. A velha história de matriz e filial era ainda muito comum, era quase uma questão de status um homem manter uma bela amante. Mas de algu­ma forma Elisa sentia que aquela situação era diferente. Havia um vestígio de determinação em Lua que não podia ser confundido. E Elisa não se surpreenderia se, no fim, Lua ganhasse o dia.

Continua...

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