terça-feira, 4 de agosto de 2015

De mentirinha




(Capítulo Dezoito – Eu e você)



“E com você meu mundo faz sentido
E o seu lugar é bem aqui comigo
Eu já sabia que ia acontecer
Eu e você”.

— Galera da Ribalta

Pedro estava parado atrás da porta desde que vira Karina entrando. Já tinha esquematizado tudo o que iria dizer, como iria fazer desde que João o ligara assim que Karina havia embarcado no avião.

Nervoso era apelido pro que o guitarrista estava sentindo. Esperava ansiosamente que Karina já tivesse lido a carta. E torcia para que ela também estivesse com fome, senão ele teria que comer a pizza que segurava sozinho.

Pedro tentava não parecer um babaca com o sorriso que poderia rasgar sua boca de largo que estava. A porta abriu. Karina estava linda, na verdade ela estava toda amarrotada e o cabelo desgrenhado, mas mesmo assim na visão dele, ela parecia perfeita.

— Oi, K. — Pedro dizia com um pequeno sorriso.

Karina estava sem reação, depois desse tempo não sabia o que fazer. A única vontade que tinha era de esmurrar a cara dele diversas vezes.

— “Oi, K”? Você me deixa no Rio de Janeiro com uma bomba estourando e tudo o que diz quando me vê é “Oi, K”? — a mulher explode.

— Me desculpa.

— Você é um completo babaca, Pedro Ramos. — Karina dava tapas por todo corpo dele que estava visível que o fizera até derrubar a pizza — Um imbecil, idiota. Um grande filho da...

— Opa, vamos deixar a mãe de fora disso. — Pedro a interrompeu e segurou as mãos dela. — Estava morrendo de saudades de você.

— Eu estou querendo que você vá se f...

— Essa boca está muito suja hoje, esquentadinha. Melhor eu dar um jeito nisso.

Karina não teve nem tempo para pensar, a boca de Pedro já estava sobre a sua, apesar de toda a raiva que sentia não podia negar aquele beijo, nem queria negar aquele beijo. Uma mão de Pedro estava firme na cintura da moça, enquanto a outra a segurava pela nuca. Ambos exploravam a boca um do outro com avidez, o beijo era furioso, com sentimentos dos dois envolvidos. Karina parecia ter voltado à razão quando empurrou o peito de Pedro com as mãos.

— Você acha que é só vir me pedir desculpas com pizza que está desculpado? Você é um completo babaca. — Karina socou o ombro dele com força e seguiu em direção ao seu quarto deixando Pedro com um sorriso bobo.

. . .

Karina estava feliz, muito feliz, no entanto também estava assustada. Na carta de Pedro ele havia dito novamente que a amava e só agora a ficha caia sobre as palavras ditas. Como estava com tanta raiva que não percebera que Pedro a amava. PEDRO A AMAVA. E isso a fazia ainda mais feliz.

Karina se sentia tão leve, mas é claro que não deixaria barato ser “abandonada” por ele. Se Pedro a queria de volta, seria do jeito dela. Só do jeito dela.

. . .

“Eu estou pensando em você, pensando em nunca mais, pensar em te esquecer” Pedro cantarolava a canção alegremente enquanto fazia o café, o bom tempo ajudando no restaurante dos pais deu resultado. Pedro conseguia se virar cozinhando qualquer coisa que estivesse na geladeira.

O guitarrista coava o café quando Karina apareceu na cozinha. Já vestida devidamente, ou seja, de short e camiseta. Ainda tinham mais duas semanas de férias da faculdade, podia ficar largada de qualquer jeito em casa.

Pedro foi em direção a Karina todo sorridente, abraçou a loira e quando se afastou um pouco para beija-la, o máximo que conseguiu foi um rápido beijinho na bochecha da loira.

— Bom dia, Pedro. — Karina sorria marotamente para ele.

— Bom dia, esquentadinha. — ele respondia carrancudo.

No primeiro momento Pedro estranhou, nem quando o namoro deles ainda era de mentira ela recusava um beijo dele. Mas logo depois ele percebeu. Era o jogo dela, ele entrara numa fria brincando com uma esquentadinha. Na mente dele o trocadilho não tinha graça nenhuma.

Se houvesse uma coisa que Pedro odiava, era ser ignorado, sempre teve dentro de si a vontade de aparecer, de ser notado e gostava disso. Gostava de ser gostado por outras pessoas e o beijo que Karina recusou feria seu ego e a loira sabia muito bem disso.

— O cheiro do café está bom. — Karina dizia como se a cena de uns minutos atrás não tivesse acontecido.

— Tão bom quanto o beijo estaria, se você não tivesse recusado ele.

— Nesse momento prefiro ficar com o café. — a loira disse enchendo a xicara com o café que havia acabado de fazer e pegando um pão francês na mesa e voltando a ignorar totalmente o guitarrista.

. . .

Karina já estava ficando entediada, passava da hora do almoço e Pedro não havia saído do quarto nenhuma vez desde que entrara depois do café. Um jogo não serve apenas para um, sem Pedro o plano de fazê-lo a merecer não valia de nada.

O pior de tudo é que a loira já havia tentado fazer de tudo para se distrair, mas o guitarrista não saia da sua mente. Livros, tevê, internet, música, nada estava a distraindo e isso a deixava morrendo de raiva.

No quarto, Pedro dedilhava baixinho o violão enquanto cantarolava a letra da música. Precisava ser perdoado por Karina, perdoado completamente. E isso era insano. Até uns meses atrás eram apenas bons amigos e agora, ele estava ali aprendendo uma música só pra tocar pra ela. Pedro estava apaixonado. Totalmente apaixonado por Karina.

Todo esse amor era novo para Pedro. Se apaixonar, estar amando alguém era uma meta de vida que ele não tinha. Tudo o que ele queria era ser um músico, sem se apegar a ninguém, e agora ele se sentia amarrado por Karina. É era uma das melhores sensações que ele já teve na vida. Faria de tudo pra ter aquela mulher só pra ele.

. . .

Karina assistia a um filme deitada no sofá, quando a televisão desligou sozinha. A energia com toda certeza não havia acabado, afinal as luzes ainda estavam acesas. Tudo indicava que a televisão havia parado de funcionar, já que ela não estava com o controle remoto.

— Não acredito que essa televisão veio ‘dar pau’ logo agora. — bufou a jovem.

— Relaxa, não está quebrada, eu que desliguei.

— Qual é o seu problema? Eu estava vendo, ok?

— Só sente no sofá, fique calada e só abra essa boca quando eu acabar.

Pedro pegou a sua guitarra e a ligou no amplificador, não deixou nem muito alto, nem muito baixo e começou dando o primeiro acorde.

When your legs don’t work like they used to before
And I can't sweep you off of your feet
Will your mouth still remember the taste of my love?
Will your eyes still smile from your cheeks?

Pedro cantava o inicio da música suavemente, seu rosto estava sereno e ele olhava atentamente para o rosto de Karina, não queria perder nenhuma reação da loira.

And, darling, I will be loving you, till we’re seventy
And, baby, my heart could still fall as hard at twenty-three
I'm thinking 'bout how people fall in love in mysterious ways
Maybe just the touch of a hand
Oh, me, I fall in love with you every single day
And I just wanna tell you I am

Karina agradecia mentalmente as aulas de inglês que fizera, porque senão não teria entendido nada do que Pedro estava cantando e perderia toda aquela declaração que ele lhe fazia. Ele estava realmente tão apaixonado por ela? A ponto de cantar uma música daquela? Que dizia que ele iria amá-la até terem setenta anos? O amor é realmente a maior magia do mundo.

So, honey, now
Take me into your loving arms
Kiss me under the light of a thousand stars
Place your hand on my beating heart
And I’m thinking out loud
That maybe we found love right where we are

Era insano o que Pedro sentia, sempre achou que se fosse pra se apaixonar seria por uma das suas fãs que teria pelo mundo, mas o mundo gira e prova que nem tudo é do nosso jeito.

Ele foi embora do Rio pra fazer uma faculdade, rodou São Paulo atrás de vagas em apartamentos e foi parar justamente dividindo espaço com a garota que dentre todas nunca esteve em suas opções. Sentia tudo por ela. Karina havia se tornado tudo em tão pouco tempo. Necessitava tanto dela, dos beijos dela, do toque dela, do abraço dela. Precisa dela pra se sentir amado.

When my head’s overgone and my memory fades
And the crowds don't remember my name
When my hands don’t play the strings the same way
I know you will still love me the same
'Cause, honey, your soul can never grow old
It’s evergreen
Baby, your smile's forever in my mind and memory
Ooh

Para Pedro seria justo que ele se perdesse dele mesmo, que as pessoas o esqueçam, que vire apenas mais um na multidão se Karina se lembrasse dele. Porque ele sabia, mesmo que ele não pudesse mais tocar violão, mesmo que Karina não pudesse mais socar algum saco de areia que eles se pertenciam. Que eles seriam sempre um do outro. Porque não existiria um mundo sem Pedro Ramos e Karina Duarte.

O guitarrista finalizou o ultimo acorde, deixou a guitarra de lado e se ajoelhou na frente da loira. Karina não esboça reação alguma, até porque depois dessa declaração não havia mais nada a deixa claro.

Seguindo o roteiro da vida as mãos da loira se firmaram no pescoço do rapaz e ambos se aproximaram. Ali estavam eles, como entraram em toda aquela história agora estavam saindo dela, juntos como sempre deveria ter sido. Não havia mais mentiras, não havia mais uma Bianca, não havia tempo, só havia eles dois.

O beijo era lento, sem pressa alguma, porque agora eles teriam todo o tempo do mundo. Exploravam a boca um do outro e o beijo apesar de singelo era o melhor beijos que os dois compartilhavam, porque agora os dois tinham a certeza que se amavam e não precisavam mostrar isso a ninguém.


Fim...

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Prometida a um Vampiro - Cap.71